Mawaca e Kayapó: encontro de almas, pela liberdade e pela vida

Há 24 anos, sob a direção da disruptiva e genial Magda Pucci, o Grupo Mawaca pesquisa e recria a música de inúmeras regiões e culturas pelo mundo, interpretando canções em mais de 20 línguas com arranjos inovadores e criativos e encanta com suas performances vigorosas e vibrantes. O repertório vasto, cantado apenas por mulheres, inclui músicas de tradições diversas, com temas ancestrais, resultando em sonoridades múltiplas, com características étnicas locais, que estabelecem inter-relações com a música brasileira. 

Obviamente, nesse universo de sons e tradições, os cantos indígenas brasileiros têm lugar (con)sagrado. E foram eles que serviram de base à pesquisa de Magda para seu espetáculo Mekaron: Imagem da Alma, apresentado em São Paulo em março deste ano, que teve a participação especial dos Kayapó da aldeia Moykarakô.

“Neste momento, em que o governo explicitamente se diz contrário aos indígenas, esta foi uma grande oportunidade para apresenta-los de uma forma muito positiva, valorizando sua cultura. Precisamos valorizar e mostrar, de todas as formas possíveis, que os indígenas são pessoas que têm histórias de vida interessantíssimas, culturas sagradas importantes, que eles têm o que dizer, que têm voz e precisam ser ouvidos”, salienta Magda. 

A diretora musical Magda Pucci, ao lado de Zuzu Leiva, durante o espetáculo Mekaron / Foto de Marcello Vitorino

“Por isso, o show teve o momento do manifesto silencioso (foto de destaque deste texto), quando o cenário foi tomado pela peça da campanha da APIB, que é a Associação dos Povos Indígenas do Brasil Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais -, propagada desde o início do ano, justamente para passar a ideia de que não se pode mais matar os indígenas e manter o desmantelamento das instituições públicas que os atende, como está em curso”.

O manifesto do qual fala Magda foi um recado sutil e muito contundente, que precisava ser dado também por causa das datas dos shows: 30 e 31 de março, véspera e dia do golpe de 1964 que culminou com a ditadura militar. Uma data que Bolsonaro ameaçou celebrar. Milhares de brasileiros foram mortos nesse período negro da historia do país, que durou 21 anos, entre eles mais de 8 mil indígenas.

“Chega o que aconteceu na ditadura, dos horrores que fizeram com inúmeras pessoas, entre elas os indígenas! É preciso proteger as instituições publicas que os protegem (Funai e Sesai entre elas)– duramente conquistadas a partir do final da década de 80. Eles estão vivendo um momento muito grave”. E completa: “Estou muito envolvida com várias etnias há um bom tempo, tentando ajuda-los, mas a minha ferramenta é a música e a arte. O principal papel do artista é colocar essas questões na sua performance, na sua  forma de expressão. Por isso eu quis criar esse momento dentro do show”.  

E foi emocionante.

Mawakayapó

Assim, o encontro do Grupo Mawaca com os indígenas Kayapó só poderia resultar em muita beleza. Sonora, visual, cultural, ancestral. Foi o que vi, primeiro, na tarde de 29 de março, no lindo Estúdio Mawaca, no bairro de Santo Amaro, em São Paulo. Lá, o grupo musical recebeu mulheres e homens da aldeia Moykarakô para ensaiar para os shows que fariam no Sesc Pompeia nos dois dias seguintes. Mas não foi pela música que esse encontro começou.

A tarde ensolarada e morna foi o cenário perfeito. Quando cheguei, encontrei todos na área externa do estúdio conversando sob o sol, e algumas das cantoras já se rendendo às pinturas feitas com habilidade surpreendente pelas mulheres: Nhak-Ê, primeira mulher cacique da aldeia Moykarakô, Nhak-Djô, esposa do cacique Iatirê, e Badjuá Ket. A cantora Zuzu Leiva se entregou: tatuou rosto, braços, pernas e abdômen.

Acompanhei e fotografei a cantora Zuzu Leiva,
que se entregou às mãos de Nhak-Djô Kayapó

Obras de arte aplicadas sobre a pele com palito de bambu molhado numa pasta de jenipapo e carvão (este, para fixar o desenho). Pena que as tatuagens feitas assim sejam tão efêmeras porque são preciosas demais. Vontade de guarda-las todas, pra olhar pra elas sempre que der vontade. Fiz um pouco isso ao registrar momentos desse encontro com meu celular.

Sou suspeita pra falar porque amo os desenhos Kayapó desde 2016, quando decidi fazer minhas primeiras tatuagens inspirada por seus desenhos. Então, foi uma emoção muito forte ver Nhak-Ê, Nhak-Djô e Badjuá Ket pintando os integrantes do Grupo Mawaca – cantoras e músicos – ao vivo. E ainda sair de lá com uma tatuagem num dos braços, desejo que realizei quase no final da tarde. Ah, elas escolhem os desenhos. Como não falam nossa língua, não existe qualquer conversa anterior. A surpresa faz parte da experiência e é impossível não gostar do resultado.

Os ensaios se iniciaram com os homens. As mulheres interromperam as pinturas para mostrar sua dança e canto e, em seguida, se juntaram aos homens e ao Mawaca para cantar a belíssima Yo Paraná

Sorte minha estar ali, na entrada do estúdio Mawaca, quando as mulheres Kayapó
se dirigiam para o salão para começar os ensaios, e poder fazer esta foto

Essa canção tão famosa – muita gente lembra de cantá-la na escola – não é originalmente dos Kayapó. Magda contou que eles se apaixonaram pela música de uma tribo inimiga e a incorporaram a seu repertório e imprimiram sua leitura melódica. Lindo demais.

Eles ensaiaram separadamente, e foi lindo. Acompanhei e cliquei tudo.
Mas quando se juntaram para ensaiar, parece que o salão ficou ainda maior.
Que presença! E a sintonia com os músicos e as cantoras do Grupo Mawaca foi rápida e fina.

E assim foi a tarde e o início da noite, sob a batuta de Magda, mas também do desejo dos Kayapó. Sincretismo afinadíssimo. Pura sincronicidade.

Pausa para um momento de muito carinho, registrado por Marcello Vitorino:
o encontro de Nhak-Ê Kayapó com a linda sobrinha-neta de Magda

A cada cantoria, me perdia no som, me deixava levar por ele. Impossível não sentir leveza e força ao ouvir tamanha beleza. E ao ver os indígenas, integrantes de nossos povos originários, ali, revelando e compartilhando suas tradições musicais. Com o corpo e a voz. E todos do Mawaca absolutamente integrados.

Reproduzi algumas imagens para ilustrar um pouco do que vi na tarde do segundo encontro (o primeiro ensaio aconteceu no dia anterior) entre o Mawaca e os Kayapó, mas esse ensaio foi apenas o começo desta jornada. Quero falar, agora, do show. Surpreendente, sensacional, maravilhoso, estupendo, incrível, emocionante, magnífico, primoroso, deslumbrante, fascinante, precioso. Nenhum desses adjetivos define o que foi apresentado no palco do Sesc Pompeia. Só mesmo estando lá pra sentir a vibração desse encontro, com o figurino, o cenário e a iluminação perfeitos.

Os registros do fotógrafo Marcello Vitorino traduzem bem um pouco do que foi esses espetáculo. Um espetáculo na mais pura acepção da palavra.

Num dado momento do show, Magda convidou o músico Mokuká Kayapóque é exímio cantor de forró e faz shows – para falar em nome de sua aldeia. Ele disse que todos estavam muito felizes em participar de encontro tão emocionante, principalmente para mostrar sua cultura. E aproveitou para falar da situação de boa parte dos indígenas brasileiros, destacando a precariedade da saúde, que o governo está tentando sucatear para fragiliza-los, como comentou Magda. Foi muito aplaudido.

Conversei com Mokuká no dia seguinte, e ele contou que ficou muito feliz por ter vindo a São Paulo e trazido um grupo de Kayapó para fazer o show porque “é só mostrando aos brancos a força de nossa cultura e de nossas tradições, que eles nos respeitarão. Eles precisam entender que nós podemos ter celular, andar na cidade grande, e continuar sendo indígenas. Tem muita gente que diz que índio não é mais índio, que já somos que nem brancos, mas isso não é verdade”.

Mokuká também destacou que alguns indígenas não gostam de celebrar o dia 19 de abril, porque acham que é coisa de branco e que não tem nenhum motivo para isso por causa da conjuntura política. “Mas nós, Kayapó da aldeia Moykarakô, vamos! Qualquer pessoa que chegar lá, vai ver a gente dançar, cantar, festejar, e pode tirar fotos, filmar e divulgar. Precisamos ser vistos”.

Mokuká gosta de festa e já garantiu que voltará, em breve, para outro show com o Mawaca. “Mas vou trazer outros Kayapó, que é pra outros companheiros e lideranças conhecerem os brancos em sua cidade, e poderem mostrar sua tradição e cultura também”.

Voltando ao espetáculo em março, já no final – sob forte emoção de todos os presentes e aplausos que pareciam nunca mais querer parar –, o Grupo Mawaca e os Kayapó se juntaram no palco (foto abaixo) e, em seguida, cantando, seguiram em direção à saída, convidando a plateia a segui-los para celebrarem, juntos, na área externa do teatro. De mãos dadas, todos fizeram uma roda gigante e cantaram com muita alegria (abaixo). Foi emoção demais. Haja coração!

E ainda falta contar mais um detalhe importante sobre o show. Ele foi batizado de ‘Mekaron: a Imagem da Alma’ pelo fotógrafo e indigenista Renato Soares, que foi quem primeiro imaginou o encontro entre o Grupo Mawaca e os Kayapó, e incentivou Magda a realizar o espetáculo. Renato também participou dele, mas de maneira diferente: com projeções de imagens de sua autoria em três telas gigantes.

Todas as fotos projetadas foram feitas em aldeias de diversas etnias, entre elas a aldeia Moykarakô. São imagens de brasileiros que ele fotografa há 30 anos para seu projeto Ameríndios do Brasil (que dá nome a um blog de sua autoria, aqui no Conexão Planeta), que visa registrar esses povos e apresenta-los de um jeito especial para o público, além de oferecer aos indígenas parte (1/3) de tudo que ele recebe com a comercialização desse trabalho. Mais um talento que comungou com os Kayapó (seus amigos há anos) e o Grupo Mawaca no palco.

Um encontro de almas, pela liberdade e pela vida.

Agora, deleite-se com mais algumas imagens do show, registradas por Marcello Vitorino.

Antes, agradeço:
– ao André Leite por toda a força que tornou possível minha experiência nesta jornada e por trazer os Kayapó pra tão junto de nós, 
– ao Renato Soares, que imaginou que esse encontro entre o Mawaca e os Kayapó fosse possível, e incentivou Magda a fazê-lo. E por me introduzir no universo indígena quando me convidou para participar da sua primeira expedição fotográfica em julho de 2016 (foi numa aldeia Krahõ, no Tocantins)
– à Magda Pucci, por proporcionar tanta beleza e pela disposição de conversar entre tantos compromissos, 
– ao Grupo Mawca – cantoras e músicos – pela sonoridade incrível que criaram com os Kayapó, em perfeita simbiose coletiva;
– aos Kayapó pelo desejo de mostrar sua cultura e sua música sagradas e se juntar a nós por um futuro mais humano – em especial à Mokuká, que adorei conhecer, à Nhak-Ê, que me tatuou lindamente, e à Kukoí, que, como guerreiro, enfrenta um problema grave de saúde e subiu ao palco em SP para dançar com seus irmãos e 
– ao Marcello Vitorino por ter cedido as fotos lindas que seu olhar capturou durante o espetáculo e o ensaio (que chamo carinhosamente de ‘Mawakayapó’) para que eu pudesse ilustrar este texto.

Fotos: Marcello Vitorino (abertura, Magda Pucci, bebê com Nhak-Ê e show) / Mônica Nunes (ensaio e tatuagem)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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