Mater Oficina: mobiliário que traz histórias de superação


Vem de São Bernardo meu post de hoje. É lá que funciona a Mater Oficina, empreendimento de marcenaria que trabalha em especial com reaproveitamento de pallets e madeira em geral, construindo cadeiras, mesas, estantes, cômodas, armários, bancos e muitas outras peças.

A primeira vez que coloquei os olhos num trabalho da Mater Oficina foi na edição do Design Week de 2015. Também era a primeira vez que empreendimentos de economia solidária se juntavam ao maior evento urbano de design da América Latina, e mais do que isso, se colocavam num espaço nobre na cidade de São Paulo: o Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Todas as peças de madeira da cenografia da exposição produzida pelos grupos de economia solidária foram executadas pela Mater.

De lá pra cá vi outras coisas feitas por eles: mesas, cadeiras, pequenos sofás e um cavalinho de madeira, daqueles que a gente se apaixona imediatamente quando vê. Que nos acomoda numa máquina do tempo instantânea e nos transporta direto à infância.

Ali, em meio a toda aquela madeira, ferramentas e maquinário, pessoas de todas as idades, num grupo composto por homens vindos de lugares diversos do país, entoam sotaques e vozes que revelam uma riqueza de histórias de vida e de permanente superação. Aos poucos eles vão descobrindo como trabalhar juntos, dando o que sabem fazer de melhor, se complementando, aprendendo como atender clientes, colocar preço no que fazem e entender os processos de definição de público de interesse, de elaborar gabaritos para as encomendas que vão chegando, encontrando soluções coletivas para cada desafio.

Foi assim que eles fizeram o troféu da Competição Latino-Americana da Mostra Ecofalante de 2017, experiência completamente nova pela delicadeza da peça. E trouxeram à vida um dos modelos mais bonitos de troféu desde a primeira premiação da Mostra. E assim o grupo vai elaborando peças novas de mobiliário cujo catálogo vai se diversificando à medida em que as encomendas vão se multiplicando.

A marcenaria se constituiu no Núcleo de Trabalho e Arte (Nutrarte), que recebe usuários dos Centros de Atenção Psicosocial (CAPS), da rede de serviços de saúde mental e uso e abuso de álcool e outras drogas. Oferta oficinas de geração de renda e funciona como uma espécie de incubadora de negócios. As oficinas fazem parte do projeto terapêutico dos pacientes e incluem culinária, costura, horta, beleza, alimentação, arte e marcenaria. A atuação em um empreendimento solidário, mais do que seguir no rumo de viabilizar fonte de renda e trabalho, proporciona maior socialização e trabalho em grupo, promovendo a integração e estreitando laços.

Ali, naquele espaço, onde a diferença é respeitada e não vista com receio ou insegurança, os grupos aos poucos se constituem em empreendimentos solidários. Um lugar onde a doença ou limitação não está na pauta: no centro de todo esse movimento estão as pessoas. Ali, mais do que em qualquer outro espaço, percebe-se como a reforma psiquiátrica e a economia solidária são irmãs, no sentido de vislumbrar um ambiente mais equânime, que respeita as diferenças, é horizontal e busca valorizar o que as pessoas têm de melhor.

Num dia de sol, me deparei com aquele cavalinho de madeira em processo de secagem. E foi amor à primeira vista. Pelo cavalinho, pelas histórias, pelo trabalho, pelo empreendimento e por toda a riqueza daquele processo.

Aqui vai um agradecimento especial à Rede Design Possível, que proporcionou esse encontro.

O cavalinho? Eu trouxe pra casa…

 

Fotos: divulgação Mater Oficina e Design Possível

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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