Máscaras da vida

Bonecos de Natascha Belova feitos com material termoplástico#

Que seja! Já que é para usar máscara ou parecer um boneco, melhor se espelhar num nascido pelas mãos da russa Natacha Belova (na imagem que abre este post), do paulista Murilo Cesca ou de algum tirititeiro ou bonequeiro que você descobrir por aí. Entrar numa sala cheia de gente, querendo aprender a dar a luz a essas criaturas é permitir-se passar para uma realidade paralela. Coisa de sonho. Ou pesadelo.

Trabalho de Natacha Belova com a Companhia Dosàdeux

Trabalho de Natacha Belova com a Companhia Dosàdeux

Natacha e Murilo são artistas que gostam de andar pelo mundo… Os dois têm prazer em ensinar quem quer fazer parte desse universo. Não mostram apenas técnicas que surgem de estudo e manipulação de materiais como argila, termoplástico, tecido, papel, espuma. Ensinam algo que nasce a partir do carinho, de um sentimento que existe antes mesmo da criação desses seres. Inanimados? Não. Não há como dizer isso sem transformar palavra em incômodo, pensamento em reflexão inquietante.

WORKSHOP NATACHA BELOVA

Boneco feito em workshop promovido pela artista russa

Nos cursos de Natacha é como se os alunos aprendessem que estão construindo alguém que faz parte de si mesmo, que tem movimentos que são como enervações de seu corpo.

Um ser siamês que viverá para sempre no limiar de cada atitude que pede expansão e drama. Interpretação e palco. Não é um filho. Filho cria asas. Espera. Revejo meu comentário. Esses seres também criam asas e deixam suas impressões impregnadas na plateia, no passante, na rua. Voam, sim, na cabeça de quem flutua na ilusão.

Filho, então. Siamês também. Parte de um todo. Todo sentimento. Todo arte.  Ato num amálgama. Gesto interpenetrado.

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A vovó, na imagem ao lado, passeia na cidade e lembra tão vivamente da época em que tinha muita árvore para subir. Nós nos emocionamos porque só sabemos suspender andaimes, escalar degraus, alçar cargos, erguer brindes ao mais alto edifício, levantar pesos de academia, mas fugir de carregar sacolas do supermercado até em casa. Tão melhor pegar o carro…

Olha o carro. Entra no carro. Acelera. Freia. Xinga. Engata uma primeira. Para. Xinga. Engata a primeira de novo. Congestionamo-nos aos trancos e barrancos nessa relação parasitária com esse automóvel que, lembra (?), não nasceu colado em nós.

Quanto poder ao tratar o carro como continuação do corpo nesse universo em expansão, nessa Terra que ameaçamos todos os dias de extinção.

Mãos ao alto! Esse grito insano que dirigimos ao planeta ninguém parece ouvir. Ecoa numa frequência que ouvido humano faz que não ouve. E nossos olhos, vejam só, veem apenas imagens
turvadas pelas lentes do progresso sem volta. No conforto da desordem estabelecida brechas de poesia desconcertante tentam se infiltrar para nos tirar do marasmo em superfície, amparado pelo mar de ansiedade paralisante.

Alastre-se poesia. Enraízem-se seres que navegam nesse instante em que o ser-boneco e o ser-ator são um verso que pode fazer a diferença na dramaturgia da vida. Ensine muito mais crianças a fazer bonecos, como este menino abaixo, Murilo.

Oficina para crianças em Juazeiro no Norte (BA), ministrada por Murilo Cesca FOTO LINO FLY#

Oficina para crianças em Juazeiro no Norte (BA), ministrada por Murilo Cesca

Quem sabe você conseguirá tirar as crianças do cotidiano anestesiado e frustrante  que emenda Ano Novo, Carnaval, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Natal… Esses dias que são a festa do Comércio, com C maiúsculo, uma divindade que nos manda entrar no negativo, ir além das posses no cartão de crédito…

Workshop Natacha Belova no México. Foto de Vicente Ferrii#

É uma entidade grudada em nós, esse comércio. Também não nasceu conosco. Por que damos vida a ela que nos faz perder o sábado e domingo de sol para passear no shopping? Faz a mãe ralhar com o pequeno e pedir para que ele não corra porque os corredores estão cheios. Faz pai reclamar com filho que só pede: compra, compra.

Vai pedir o quê a criança que só passeia em shopping? Para levar uma flor para casa? Para subir numa árvore? Para balançar? Para sentar na grama? Não… Aí não pode porque suja a roupa, porque tem xixi de cachorro, porque, porque

Por que o dia-a-dia virou esse estado de permanente susto? Não que poderia ter sido um sim… Os “nãos” necessários, esses não ouvimos.

Não ouvimos também os chamados para ocuparmos os espaços de criação e arte. Para nos intrometermos nessa relação entre ator e boneco. Para fazermos parte desse interstício, desse espaço que só parece estar vazio.  Aí quem sabe surjam ideias para um novo agir, um novo olhar, um novo interpretar. Uma nova forma de escolher ídolos e deuses.

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Murilo Cesca em apresentação com seus bonecos

Peça Barca de Loucos Foto de Claudia Petacca-800

Peça “Barca de Loucos”, com bonecos feitos nos workshops da artista russa

Jornada Mundial da Marionete Foto Андрей Лыженков-800

O casal feito por Natacha, na Jornada Mundial de Marionete

Fotos: divulgação Murilo Cesca e Natacha Belova

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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