Marca de móveis tira o termo ‘criado-mudo’ do catálogo devido à sua origem racista

Desde menina me negava a chamar a mesinha de cabeceira de criado-mudo. Ainda não conhecia sua origem, mas achava o termo estranho e grosseiro. Comentava com quem a utilizava, sem grande retorno.

No mês passado ou, para ser mais precisa, em 20 de novembro, dia dedicado à Consciência Negra em diversas cidades e estados brasileiros, a marca de móveis Etna fez uma campanha bacana para comunicar que tirou essa expressão racista de seu catálogo: Chegou a hora de redecorar seu vocabulário e a espalhou pelas redes sociais com a hashtag #CriadoMudoNuncaMais.

A loja o substituiu pelo nome que sempre usei para designar aquela mesinha pequena, com gavetas ou sem, que fica ao lado da cama, perto da cabeceira, e que acomoda não só copos d’água, como revistas, livros, uma luminária, o celular…

Lembrei do meu desconforto na infância e me inteirei da campanha que contou que, sua origem remonta à época da escravidão no Brasil. Todas as noites, os senhores e suas esposas mantinham escravos ao lado da cama, de pé, para que segurassem copos de água ou outros pertences, como roupas. Ou seja, enquanto dormiam, mulheres ou homens escravizados – chamados de criados – deveriam atender seus amos, sempre que fossem solicitados, mas imóveis e quietos – sem emitir qualquer som – se não quisessem levar chicotadas ou ter suas línguas arrancadas no dia seguinte.

Com o tempo, alguém pensou em substituí-los por um móvel – que poderia ser de madeira ou de outro material. Foi chamado de criado também, mas para diferenciá-lo do escravo, recebeu o nome pejorativo de criado-mudo. Um desrespeito que chegou aos nossos dias, sem que nos déssemos conta, sem que nos importássemos.

A Etna tem lojas só em São Paulo, mas vende para todo o Brasil pelo seu site. Ou seja, sua influência junto ao público consumidor é grande. E sua iniciativa foi além: a loja convidou seus fornecedores a fazerem o mesmo.

A campanha ganhou uma versão em vídeo (que reproduzo no final deste post) na qual negros foram convidados a nomear o pequeno móvel e, depois, a refletir a respeito da origem do termo. Todos leram textos a respeito da história do criado-mudo e ficaram surpresos e chocados.

A Tok&Stock, uma de suas concorrentes mais diretas se pronunciou rapidamente no Facebook, apoiando a campanha e convidando outra loja a aderir: “Oi Etna, parabéns pela iniciativa de promover uma mudança tão importante e necessária como essa! Nós queremos nos juntar a vocês nesse movimento. Topam? Nos comprometemos também em alterar a nomenclatura antiga para “mesa de cabeceira” em toda a empresa até 1° de janeiro de 2020. Leroy Merlin Brasil, vamos juntos?”. E começou a polêmica.

Teve quem se manifestou contra as lojas porque considerou a campanha uma bobagem – “não é com campanhas como essa que a gente vai mudar o racismo no Brasil” – e também quem garantisse que a origem do termo não está em nosso país, mas em outro continente. “Ele foi inventado na Inglaterra; era uma mesinha onde se colocavam os materiais para o chá, dispensando a presença da criadagem que, fatalmente, acabava se inteirando das situações escabrosas da família. Lá o móvel era chamado de dumb waiter, ‘criado abobado’”. Alguns usuários da rede disseram que iam deixar de seguir as duas lojas.

O comentário denota desigualdade e desrespeito, de qualquer forma. E, seja lá qual for a origem do termo, não se pode negar o que acontecia em nosso país durante a escravidão. Por isso, falar do tema, provocando reflexão – seja lá qual for o caminho -, é sempre bem vindo.

Às vezes demora para nos darmos conta do absurdo de certos hábitos e injustiças. Como acontece com o racismo, ainda muito discutido e combatido no Brasil. Todos os dias tomamos conhecimento de manifestações que provam que o preconceito contra os negros ainda é muito forte, mas tem gente que o nega.

O caso mais recente e polêmico é o de José Camargo Nascimento, negro, indicado para a presidência da Fundação Palmares, instituição criada para difundir a cultura do povo negro. Mas a indicação gerou protestos de diversas lideranças negras e uma manifestação na sede da fundação, porque ele declarou que “não há racismo no país e que a escravidão foi culpa dos negros”.

Ontem, como resultado de uma ação popular, sua indicação foi suspensa pelo juiz Emanuel José Matias Guerra, da 18ª Vara Federal do Ceará. Assim, a escolha de Bolsonaro e o ato do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, estão anulados.

Estamos vivendo uma época turbulenta, sob vários aspectos, mas sempre é tempo de mudar e transformar o que não cabe mais numa sociedade justa. É essa que queremos, não? Assista, agora, ao vídeo produzido para a campanha #CriadoMudoNuncaMais.

Fotos: Divulgação e Reprodução

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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