Marca de jeans reciclados protesta contra frases racistas, homofóbicas e misóginas do presidente eleito

A proposta da Eco Brasil Fashion Week, lançada no ano passado, é apresentar para o público consumidor e comprador marcas de moda que adotam a sustentabilidade em seus processos, na escolha de fornecedores, na utilização dos materiais e também em sua comunicação.

A segunda edição do evento, realizada de 15 a 17 de novembro, reuniu 50 marcas de roupas e acessórios com essa pegada, que venderam e desfilaram suas criações para o verão, além de promover talks e debates e desfiles. O engajamento ambiental e/ou social das marcas esteve presente, mas esta foi a primeira vez que o engajamento político apareceu de forma tão clara, inspirado, claro, pelas eleições presidenciais e seu resultado.

Falo da marca de jeans reciclados Think Blue, que ousou em sua participação. Mas, antes de falar disso, quero comentar sobre seu trabalho lindo que tem por base a reutilização de calças jeans garimpadas ou doadas e sua transformação em novas roupas. Assim, sua designer, Mirella Rodrigues, cria peças exclusivas, com o mínimo de impacto já que reutiliza peças e materiais (resíduos e retalhos também) que, a priori, não têm mais serventia, mas que, com a técnica de upcycling, ganham nova vida. Muito sustentável! Totalmente Slow Fashion. 

Mas ela não para por aí: todas as peças têm garantia vitalícia para consertos, ajustes e reformas. Isso é possível graças ao design modular, que garante que qualquer peça possa ser refeita diversas vezes, extendendo ao máximo a vida útil do tecido. Demais, né?

Bem… por essa orientação, já dá pra perceber que se trata de uma marca muito antenada e ousada. Pois, em seu desfile na Eco Brasil não foi diferente. Mirella revelou sua posição ideológica, que defende os direitos humanos, e colocou cartazes nas mãos das modelos com as frases machistas, homofóbicas e misóginas proferidas por Jair Bolsonaro ao longo dos 28 anos de sua carreira política. Frases que, mesmo com a tentativa do então candidato de apagá-las de sua trajetória durante a campanha – dizendo que se tratava de fakenews -, nunca serão esquecidas. Pra quem duvida de sua veracidade, é só pesquisar na internet que encontrará vídeos em que ele as profere, com total convicção, em várias situações.

Assim, para acompanhar as modelos brancas e negrasfaltou uma indígena, pelo menos, para o protesto ficar completo -, de cabelos e tons de pele diversos, na passarela, lá estavam declarações como “O erro da ditadura foi torturar e não matar”, “O quilombola pesava 7 arrobas; eles não servem pra nada”, “Arma de fogo garante a liberdade do povo”, “Se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater” e “As minorias têm que se curvar para a maioria”. Além da hashtag #EleNão. E Marielle Franco também foi lembrada: “Quem matou Marielle?”.  

No Instagram da Think Blue, Mirella escreveu: … gostaria de dizer em nome de todas NÓS, que este desfile foi um BERRO que estava engasgado na nossa garganta. Moda é política, moda é revolução, moda é ativismo, moda é EXPRESSÃO! NINGUÉM SOLTA A MÃO DE NINGUÉM!”.

Esta última frase, citada por Mirella no Instagram da marca, viralizou nas redes sociais logo após o resultado das eleições, como protesto. Ela também foi usada nos vídeos produzidos com as imagens do desfile, junto com duas outras frases conhecidas: “Parem de nos matar!”, muito disseminada com a morte da deputada Marielle Franco, e “Ele não me representa!”.

A moda (o estilo) que usamos é expressão de nossa personalidade, do jeito com o qual queremos ser reconhecidos, mas também de nossas ideias. Por isso, a moda pode ser política e engajada, como a da Thiink Blue. Melhor: isso é muito desejável por quem preza e defende o consumo consciente e sustentável, seja em que esfera da vida for. Na roupa também.

Abaixo, veja um dos posts publicados pela Think Blue em seu Instagram. Em seguida, mais imagens do desfile.

 


Foto: Divulgação/Marcelo Soubhia (Fotosite)


Foto: Divulgação/Marcelo Soubhia (Fotosite)


Foto: Divulgação/Marcelo Soubhia (Fotosite)

Fotos: Divulgação/Marcelo Soubhia (Fotosite) e Reprodução de vídeo

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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