Mapa interativo revela assassinatos de índios no Brasil. Ilustrada por aquarelas, HQ fala da resistência a esses ataques

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Texto atualizado em 13/10/2016

Desenvolvida pela Fundação Rosa Luxemburgo em parceria com Armazém Memória e InfoAmazônia, a partir de registros do Conselho Indigenista Missionário e da Comissão Pastoral da Terra, a Cartografia dos Ataques Contra Indígenas escancara dados e detalhes dos massacres ocorridos durante 30 anos no Brasil, de 1985 a 2015.

A partir de dados abertos e georreferenciados – que estarão disponíveis na plataforma Caci, que significa dor, na língua Guarani -, é possível perceber como e com que frequência os povos originários foram e continuam sendo exterminados. Nesses 30 anos, somam-se 947 indígenas assassinados, sendo 44% no Mato Grosso do Sul, onde acontecem os maiores conflitos com índios Guarani Kaiowa, que tiveram suas terras invadidas pelos senhores do agronegócio, desde a época de Getúlio (como mostra o filme Martírio, de Vincent Carelli que, por enquanto está sendo exibido em mostras especiais e, em breve, deve estar disponível online).

É a primeira vez que informações são sistematizadas e georreferenciadas de forma a permitir que a pesquisa de cada caso seja feita em sua dimensão territorial.

Uma das vítimas apresentadas no mapa é Semião Fernandes Vilhalva que, em 2015, foi assassinado por fazendeiros com um tiro no rosto, logo após o acirramento de disputas no estado por conta da morosidade no processo de demarcação das terras indígenas na região. No mesmo ano, em Santa Catarina, um homem degolou um bebê indígena, que estava no colo de sua mãe, com um estilete, em um local público. Isto, só pra falar de dois casos emblemáticos.

O mapa ainda apresenta quatro dossiês que analisam esses casos de maneira profunda, cruzando informações de arquivos históricos e dados cartográficos. Assim, é possível compreender como os limites de uma determinada terra indígena no estado do Amazonas foram alterados nos anos da ditadura militar, atendendo aos interesses de uma mineradora, por exemplo. Ou como se deu o assassinato em massa do povo Guarani Kaiowa, no Mato Grosso do Sul (leia sobre Martírio, documentário de Vincent Carelli – do Vídeo nas Aldeias – que conta a saga desse povo, trucidado desde os anos 80 e que resiste bravamente).

mapa-interativo-assassinatos-indigenas-no-brasil-hq-resistencias-honxaroO link para acessar a plataforma Caci foi divulgado depois do lançamento do mapa, no dia 11/10, em São Paulo, realizado junto com a HQ Xondaro, que foi produzida pela Fundação Rosa Luxemburgo e publicada pela Editora Elefante.

A publicação fala da luta indígena em linguagem acessível, para todas as idades. A iniciativa tem o apoio da Comissão Guarani Yvyrupa, organização indígena autônoma que reúne povos Guarani do Sul e Sudeste do país. Com 60 páginas, é ilustrada pelas aquarelas de Vitor Flynn, que retratam cenas das recentes manifestações dos Guarani Mbya pela demarcação de suas terras na capital paulista, como o fechamento da Rodovia dos Bandeirantes, a ocupação do Monumento às Bandeiras (tão comentado recentemente, quando foi “pichado” durante as campanhas para a eleição do prefeito) e a intervenção na cerimônia de abertura da Copa do Mundo de 2014 (aquela em que perdemos de 7×1).

O mapa e a HQ são ótimas ferramentas de apoio à educação, para que se comece a contar a História do Brasil de verdade.

No encontro para o lançamento do mapa e da HQ, organizado no Ateliê do Gervásio (Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bela Vista), a partir das 19h, foi realizada roda de conversa com Gustavo Faleiros, do InfoAmazônia, Marcelo Zelic, do Armazém Memória e Tiago Santos, liderança Guarani Mbya. A moderação ficou por conta de Alceu Castilho, do portal De Olho nos Ruralistas, e Ana Rüsche, da Fundação Rosa Luxemburgo, sobre violações históricas dos direitos indígenas e resistências.

Imagens: reproduções do mapa e do livro

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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