Mãos que transformam

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Passei a última semana em Campo Buriti, um povoado de algumas centenas de pessoas na região do Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais. Fui à convite de uma grande amiga, Marianne Costa, mineira, empreendedora social, cofundadora do Raízes Desenvolvimento Sustentável e, agora, fundadora da Vivejar, uma agência de turismo de base comunitária.

Mari visita o Vale há muitos anos e acompanhou o renascer da região que antes era conhecida como uma das mais pobres do país.  Pra driblar a seca, a fome e a miséria, os homens partiam para as grandes cidades, em busca de oportunidades de trabalho e deixavam mulheres e filhos por longos períodos.

Na marra, foi desabrochando a força da mulher do Vale, que decifrava magias pra não deixar faltar comida no prato, ainda que o roncar da barriga aparecesse dali a pouco. Assim foi com a cerâmica.

No barro duro e pesado, as mulheres enxergaram um poderoso instrumento de transformação, que dava vida a lindas formas e ainda trazia dinheiro pro bolso. O artesanato de tradição foi se desenvolvendo, em princípio, para suprir as necessidades básicas de armazenagem e criar utensílios domésticos até se consolidar em obra de arte, decoração e simbologia da cultura brasileira.

maos-que-transformam-1A modelagem cuidadosa, a pintura minuciosa e a certeza que nenhuma peça sai igual à outra torna as mulheres ceramistas verdadeiras mágicas do barro. Generosa (são dela as peças ao lado), Zezinha, Anísia e Deuzani (que aparece com suas filhas, também artesãs, na foto que abre este post) são algumas dessas mulheres, que colocam na arte toda a esperança de deixar pra trás um passado sofrido de escassez e abandono.

Graças ao artesanato, a vida por lá melhorou muito e até alguns maridos já podem permanecer em casa para gerenciar encomendas e vendas de peças. Ainda assim, as mãos calejadas e os olhinhos cansados não escondem a vida de luta e trabalho duro das mulheres do Vale.

Voltei de lá pensativa, saudosa e um tanto admirada. Que força é essa que a mulher mineira, brasileira, que trabalha na roça, cria filho, cria galinha, cria horta, carrega barro, modela, pinta, queima e transforma em arte? De onde vem a resiliência, a paciência e a serenidade de enfrentar os desafios da miséria e ainda acreditar que a vida hoje é “boa demais” e não há nada a reclamar?

Temos muito a aprender com essas mulheres e suas histórias, a começar resgatando e valorizando a verdade e a beleza da simplicidade, em suas mais variadas formas. O Vale me ensinou muitas coisas, mas as mulheres do Vale me ensinaram a principal delas: honrar nossa história, sem deixar de apreciar o simples, transforma barro em arte e sobrevivência em vida. E, assim, eu voltei mais viva pra casa. E um pouco mais simples também.

maos-que-transformam-2Esta é a peça que modelei e pintei com a ajuda das artesãs

Fotos: Gabriele Garcia

Gabriele Garcia

Sonhadora, feminista e apaixonada por pessoas e histórias. Trabalhou por dez anos como advogada e em 2014 deixou o escritório para empreender o Think Twice Brasil, cujo primeiro projeto – Experiência de Empatia – foi uma viagem de 400 dias por 40 países para se aprofundar no aprendizado e identificação de soluções para desigualdade social e de gênero. De volta ao Brasil, está à frente do Instituto Think Twice Brasil e de projetos ligados à justiça social e de gênero.

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