Mãos para cavar a própria água

casas com água

Construir tudo com material reciclável. Louvável. Importante. Necessário. Mas não foi isso que mais me chamou a atenção na atividade proposta aos alunos do ensino médio pelo professor de geografia da escola pública. Com papelão, papel e tudo mais que tinha potencial para virar lixo, eles construíram maquetes de casas. Alguns se esmeraram e fizeram até à tinta. Mais do que misturar terra à cola feita em casa, a partir da mandioca ou amido de milho, o professor despertou nos alunos cidadãos do asfalto a vontade de conhecer o arco-íris em tons terrosos que a natureza fabrica de graça. Bonito.

Mas também não foi isso que me instigou a escrever sobre a ideia do professor alagoano que veio parar em Curitiba. Saiu lá de Palmeira dos Índios. É terra onde viveu o escritor Graciliano Ramos. A frase foi comentário orgulhoso do professor Aderson Auguto Lopes. Mais um pouco e saía citando algum parágrafo de Vidas Secas. Poderia bem ter sido esse:

Fabiano tomou a cuia, desceu a ladeira, encaminhou-se ao rio seco, achou no bebedouro dos animais um pouco de lama. Cavou a areia com as unhas, esperou que a água marejasse e, debruçando-se no chão, bebeu muito. Saciado, caiu de papo para cima, olhando as estrelas, que vinham nascendo. Uma, duas, três, quatro, havia muitas estrelas, havia mais de cinco estrelas no céu. O poente cobria-se de cirros – e uma alegria doida enchia o coração de Fabiano. Pensou na família, sentiu fome.”

Alunos sortudos esses do sul que podem acompanhar o professor contando as histórias sobre as agruras e costumes do lado de lá do Brasil. Ouviram-no, esses dias, falar dos muitos moradores do sertão que ainda constroem suas casas cobertas por sapé, feitas de paredes de barro. Ouviram. Mas, não sei se reverberou.

Olhando as maquetes, tenho a impressão que não. Observá-las, honestamente, me deprime. Não gosto de ver tantas maquetes de casas padrão classe média alta que, talvez, nem sejam a realidade de moradia dos alunos que as fizeram.

Imediatamente, me lembrei da obra “Dois pesos, duas medidas”, da mineira Lais Myrrha, que construiu duas torres no pavilhão da última Bienal – Incerteza Viva. A Bienal acabou, mas a vontade em mim de falar sobre isso acho que não acaba tão cedo.

Numa torre ela usou cipó, toras de madeira, palha e, na outra tijolo, cimento, ferro, vidro, canos. Duas formas de construir. Dois modos de vida. De um lado, materiais das construções indígenas. Do outro, aqueles que são usados para armar as cidades de concreto. Gosto muito de um trecho do texto de divulgação do trabalho da artista: “...dois projetos distintos de sociedade que, ainda que sejam potência de construção, já anunciam suas formas de ruína.”

Civilização sempre à procura de teto. Uns tetos melhores que outros. Tetos desejáveis. Tetos aceitáveis. Uns, dirão alguns, inconcebíveis. E a indignação ficará por aí. Outros, decidirão se abrigar da chuva, usando a permacultura e as bioconstruções. Farão a sua parte. Defenderão uma volta ao sustentável. Ou, como o professor Aderson, resolverão construir uma casa toda de material reciclável. Passarão anos, como ele, nessa tarefa de procurar um lixo de reforma aqui, um sei lá o que de demolição ali. E o mundo girando. E as estrelas do céu seco brilhando. E os quase sem água, quase sem teto, suando, suando… E usando as unhas das mãos para cavar, cavar e cavar. E provocar nojo em que bebe Perrier na academia.

Fotos: divulgação artista e arquivo pessoal

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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