Manual de Etnobotânica revela sabedoria indígena e científica no uso de plantas amazônicas

O Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), o  Instituto Socioambiental (ISA), o Museu Paraense Emílio Goeldi, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), o Jardim Botânico Real de Kew e a Birkbeck (Universidade de Londres) se uniram para criar este projeto pioneiro e belíssimo: o Manual de Etnobotância – Planeta, Artefatos e Conhecimentos Indígenas.

Ele foi lançado hoje, no Museu do Meio Ambiente do Jardim Botânico carioca, em versão impressa – com tiragem limitadíssima para distribuição apenas em instituições e nas comunidades indígenas da região do Rio Negro -, com uma exposição. E também está disponível online na plataforma ISSUUU e de todos os parceiros, entre eles também o Fundo Newton do Reino Unido, por intermédio do Conselho Britânico (edital – Institucional Skills 2015).

O manual é resultado da conexão entre povos indígenas da região do Tiquié, Alto Rio Negro, e as observações e coleções do botânico inglês Richard Spruce* (século XIX), que reuniu cerca de 14 mil espécies de plantas secas em seu herbário e 350 artefatos etnobotânicos – em 15 anos de expedição, de 1849 a 1864 – na Coleção de Botânica Econômica de Kew.

Os materiais foram coletados principalmente na Amazônia brasileira e guardados em acervos institucionais por 150 anos, que também reúnem diários, manuscritos e cartas com descrições sobre o uso das plantas, além de desenhos de pessoas e paisagens. Tudo fruto de seu encanto pela região.

A publicação é também fruto da cooperação entre o ISA e pesquisadores indígenas na região do Tiquié (AM), iniciada em 2005 e que produziu ampla gama de publicações e materiais educacionais sobre manejo ambiental, gestão territorial, cultura, história e tecnologia.

William Milliken, coordenador do projeto em Kew, falou sobre a interação entre a sabedoria indígena e o conhecimento científico ao site do ISA: “Compreender a relação entre plantas, pessoas e culturas é vital, não somente para o passado, como também para o futuro. Nosso acervo de Kew, que inclui os objetos, espécimes e notas coletados por Richard Spruce no século XIX, proporciona um olhar sobre o passado, mas trabalhar com culturas locais, hoje, é igualmente importante. O caminho a seguir é conectar a comunidade científica com as comunidades locais, visando entendimento mútuo. Nosso projeto contribuiu para o estabelecimento de uma rede de colaboração no Alto Rio Negro, mas é apenas um começo. Precisamos continuar trabalhando juntos, através da Amazônia e além”.

E Viviane Stern da Fonseca Kruel, coordenadora do projeto no Brasil e pesquisadora do JBRJ “Este projeto vem sendo uma experiência interessante e desafiadora. Ele incentiva pesquisas colaborativas, integrando equipes de cientistas no Brasil e Reino Unido e a perspectiva indígena atual em torno das coleções históricas de Richard Spruce sobre o Alto Rio Negro. Os conhecimentos científicos podem ser retornados aos descendentes dos povos visitados por intermédio do botânico, assim como podem complementar as informações sobre a biodiversidade da Amazônia através do repatriamento digital do material coletado por Spruce”.

Importante dizer também que os dados e as imagens dos artefatos e das amostras de plantas foram repatriadas e estão acessíveis online no Herbário Virtual Reflora, disponíveis para todos os interessados: os descendentes dos povos visitados por Spruce há mais de um século e o público.

Tradução para línguas indígenas

Para fortalecer e dar maior visibilidade ao trabalho dos povos indígenas, o Manual Etnobotânico não será lido só em português. Segundo o pesquisador da etnia Tukano, Dagoberto Lima Azevedo, a publicação também ganhará versões online nas línguas Baniwa e Tukano, inicialmente. “Assim, atenderemos demandas locais pelo conhecimento sobre Botânica da Amazônia, nas escolas indígenas e também nas associações de base”, destacou Azevedo, responsável pela tradução para Tukano.

Em novembro do ano passado, ele participou de uma oficina de Botânica realizada no município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, da qual também participaram outras etnias: Baniwa, Desana, Koripaco. Pira-Tapuya,  Tuyuka e Yebamasã. Todas apresentaram os resultados das pesquisas realizadas em suas aldeias sobre agrobiodiversidade, paisagens florestais, o cultivo da pimenta Baniwa (no caso específico desta etnia) e também sobre os ciclos anuais do rio Tiquié.

Com informações do site do Instituto Socioambiental

Ilustrações: capa do Manual Etnobotânico

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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