Mangueira transforma Jesus em morador do morro e denuncia a desigualdade, o preconceito, a violência e a intolerância religiosa

Em outubro do ano passado, contei aqui, no Conexão Planeta, que, para o Carnaval deste ano, a Mangueira transportou Jesus Cristo para os dias de hoje, tentando imaginar como ele seria, o que faria. Na época, o carnavalesco Leandro Vieira, revelou um pouco da personalidade do profeta – “nasceu pobre e sua pele nunca foi branca quanto sugere sua imagem mais popular. Sem posses e mais retinto do que lhe foi apresentado, andou ao lado daqueles que a sociedade virou as costas oferecendo-lhes sua face mais amorosa e desprovida de intolerância” – e apresentou as principais fantasias.

Ontem, 24/2, a escola revelou que encontrou três respostas possíveis para materializar o Cristo da Mangueira, que se misturam: o Cristo “da gente” é “negro, tem sangue índio e corpo de mulher”. Jesus é um pouco de todos nós, por isso, nao poderia ser representado por um homem apenas, muito menos branco, como inventaram, um dia.

Assim, na Marquês de Sapucaí, o samba-enredo A Verdade vos Fará Livreassinado por Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo – e as alegorias fizeram críticas declaradas ou metafóricas ao governo de Bolsonaro (ao de Crivella e Witzel também, claro) e à intolerância religiosa, legitimada por seu fundamentalismo.

Foto: Rafael David, Riotur / Fotos Públicas

O Cristo da Mangueira nasceu na favela, é filho de Maria das Dores do Brasil, vive a violência e o preconceito comuns a jovens negros e periféricos. Em alguns momentos, quer saber se a mensagem que prega, que clama por igualdade e justiça, encontra eco na sociedade, e se revolta contra o comércio da fé. “Mas será que todo povo entendeu o meu recado? / Porque de novo cravejaram o meu corpo / Os profetas da intolerância / Sem saber que a esperança / Brilha mais que a escuridão”.

Foto: Dhavid Normando, RioTur / Fotos Públicas

Todos cantaram contra a opressão e gritaram com empenho extremo um dos trechos mais impactantes do enredo: “Favela, pega a visão/ Não tem futuro sem partilha/Nem Messias de arma na mão”. Na verdade, é difícil escolher qual o trecho mais forte do samba. Como manifesto contra o atual cenário politico e social do país, vale cantar todos os versos (no final deste texto, reproduzo o vídeo com o samba).

Foto: Gabriel Nascimento, Riotur / Fotos Públicas

Ao lado dos 12 apóstolos, numa coreografia vigorosa, o ator global Humberto Carrão assumiu bem o papel de Cristo, contando com o apoio de um genial carro alegórico, que se transformou em diversos cenários, da Santa Ceia ao morro da favela, e ainda abrigou cenas de violência interpretadas por carnavalescos vestidos de policiais.

Foto: Gabriel Nascimento, Riotur / Fotos Públicas

Cristo, mulher

O Cristo da Mangueira também é mulher, personificada pela Rainha da Bateria, Evelyn Bastos, que, horas antes de entrar na passarela, contou em suas redes sociais que, para assumir o papel que lhe havia sido atribuído, não iria sambar. Depois de sua passagem pela avenida, afirmou à reportagem do UOL que “trazer Jesus em uma figura feminina foi um grande desafio” e, não sambar, “uma experiência transformadora”.

Evelyn preenche todos os requisitos para ser rainha da bateria da mangueira: entre eles, atributos corporais e samba no pé. Mas também é ativista: feminista, luta contra o racismo e a violência policial. Por isso, decidiu abrir mão do samba na avenida e se preparou durante um mês pra isso.

Divulgação

“Tive certeza de que abdicar do que a gente ama para propagar algo é uma mensagem de amor. Quero passar a mensagem de que Jesus pode estar em todos os lugares, em todos os gêneros, pra lutar contra o machismo, a objetificação da mulher. Para nós, sambistas, o ato de sambar é cultural, mas muitos não enxergam assim e sexualizam a mulher que vem na frente da bateria”. E acrescentou: “Cresci como pessoa e como sambista. O samba é revolucionário e nós precisamos trazer mensagens como essa para a maior festa do mundo”.

E ela estava linda! Sua presença marcante e o figurino discreto – túnica roxa e coroa de espinhos estilizadas – chamaram a atenção e emocionaram, derrubando o estereótipo de rainha de bateria. Em entrevista à Rede Globo (que destaco abaixo no Twitter da jornalista ex-deputada federal Manuela d’Ávila), Evelyn deixou mais uma mensagem: “Se fossemos ensinados desde pequenos que Jesus poderia ser uma mulher, será que estaríamos no topo do feminicídio?. Esta é mensagem que eu deixo, com muito amor e muito carinho”.

Leandro Vieira, carnavalesco da escola, contou que eles quiseram inovar com a reformulação de um dos postos mais tradicionais do samba. “Uma rainha de bateria pode mais do que só sambar. É um personagem importante e, muitas vezes, desmerecido. A ideia de que a rainha de bateria é uma gostosa que tem que vir seminua à frente já está ultrapassada”. Novos tempos. Muito bacana!

Cristo negro, pregado e baleado na cruz

Foto: Gabriel Nascimento, Riotur / Fotos Públicas

Por fim, na ala Bandido Bom é Bandido Morto, o Cristo negro oxigenado, crucificado e com o corpo cravejado de balas, exibido no majestoso carro alegórico O Calvário, lembrou as principais vítimas da violência (principalmente policial) no Brasil: jovens pobres e negros.

Ronaldo Nina, RioTur / Fotos Públicas

Faz tempo que a Mangueira optou por fazer desfiles com temáticas sociais, que denunciam a desigualdade, o preconceito, o racismo, o machismo e a violência que dominam diariamente nosso país, mas governos têm feito de tudo para encobrir. Levando em conta a fama do carnaval do Rio de Janeiro, que ainda atrai turistas de todo o mundo, esta é uma belíssima oportunidade para dizer o que se passa na terra deste “povo tão gentil”.

No ano passado, Mangueira foi a campeã do Carnaval carioca ao contar sobre os heróis da resistência: negros, indígenas e a vereadora assassinada Marielle Franco. Foi apoteótico, maravilhoso, lindo!

Este ano, carnavalescos da escola escolheram a figura e a história de Jesus Cristo para fazer sua crítica social já que tem muita gente que usa sua imagem para mostra seu poder e aviltar outras crenças. E é impossível fazer essa crítica sem lembrar das decisões políticas que legitimam esse cenário. “Estão matando gente nas favelas. É o recado que Jesus dá com o retorno dele. Ele fala da favela que é o povo dele. O povo oprimido“, resume Manu da Cuíca.

Em comparação com o ano passado, parece que a Mangueira não emocionou tanto. Talvez porque não fale de alguem que foi assassinado recentemente, como Marielle. A identificação com a vereadora é emocionante sempre. Não vi o desfile deste ano de perto para poder confirmar ou refutar essa sentença, mas não importa a vitória dada pelo júri porque a escola já saiu vitoriosa por seu ativismo. Realmente, não é qualquer escola que arrisca e propõe que sua rainha de bateria desfile na passarela do samba sem sambar. Arrisco dizer que, talvez por este momento tão grave de nossa história, valha mais investir no discurso, na mensagem, e não tanto no show neste Carnaval. E a mensagem foi dada. Agora, fique com a letra e o vídeo do samba-enredo deste ano:


A verdade vos fará livre

Mangueira,
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra no buraco quente
Meu nome é Jesus da gente

Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão

E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque de novo cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais na escuridão

Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão

Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão

Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E ressurgi no cordão da liberdade

Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também.

https://www.letras.mus.br/mangueira-rj/samba-enredo-2020-a-verdade-vos-fara-livre/#autoplay

Fotos: RioTur, Fotos Públicas: Gabriel Nascimento, (abertura, entre outras) Rafael David, Ronaldo Nina e Dhavid Normando

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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