Mangueira homenageia heróis da resistência: negros, indígenas e Marielle Franco

Mangueira homenageia heróis da resistência: negros, indígenas e Marielle Franco

A escola de samba carioca Estação Primeira da Mangueira deu um show ontem (04/03), no Sambódromo da Sapucaí, com o enredo História pra Ninar Gente Grande.

Em seu primoroso desfile, a Verde e Rosa homenageou figuras importantíssimas da história brasileira que nunca receberam a atenção e o valor que merecem: os povos indígenas e os negros. Além deles, a escola levou também para a avenida Marielle Franco, a vereadora carioca, brutalmente assassinada no ano passado. O caso, até hoje, ainda não foi resolvido e seus criminosos continuam soltos.

Mônica Benício, viúva de Marielle Franco, na Sapucaí

A intenção do carnavalesco Leandro Vieira foi contar o lado “B” da narrativa construída pela história oficial, onde estão nomes de gente comum, que deveriam estar nos livros, mas curiosamente, ou propositalmente, foram deixados no anonimato, como o líder dos tamoios Cunhambebe, a companheira de Zumbi dos Palmares, Dandara, a escrava Luiza Mahin e o chefe indígena Sepé Tiaraju, dentre outros.

“A proposta é questionar acontecimentos históricos cristalizados no imaginário coletivo e que, de alguma forma, nos definem enquanto nação. Essas ideias de “descobrimento”, “independência” e “abolição” postas em cheque ou questionadas para possibilitar o entendimento do desprezo pela cultura nacional e as razões de uma sociedade pacífica ou, porque não, passiva”, diz Leandro.

Para o carnavalesco, o Brasil teria sido dominado e saqueado e não “descoberto”. A abolição da escravatura, por exemplo, seria o resultado de muitas lutas e não “o fruto da concessão de uma princesa”.  

“Comemoramos 500 anos do país sem refazermos as contas que apontam para os mais de 11 mil anos de ocupação amazônica, para os mais de 8 mil anos da cerâmica mais antiga do continente, ou ainda, sem olhar para a civilização marajoara datada do início da era Cristã. Somos brasileiros há cerca de 12 mil anos, mas insistimos em ter pouco mais de 500, crendo que o índio, derrotado em suas guerras, é o sinônimo de um país atrasado, refletindo o descaso com que é tratada a história e as questões indígenas do Brasil”, critica Leandro.

Essa reflexão foi belamente traduzida no samba enredo:

… A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato…

Na Sapucaí, carros alegóricos e fantasias lindíssimas da Mangueira ajudavam a recontar a história do país.

Fantasias criadas pelo carnavalesco Leandro Vieira

Uma bandeira do Brasil, nas cores verde e rosa, estampava as palavras: índios, negros e pobres. Havia ainda diversas outras bandeiras tremulando com o rosto de Marielle Franco.

A vereadora foi lembrada ainda por outras escolas, tanto no Rio, como em São Paulo. Sua memória e sua luta estão e vão continuar vivas sempre, como representou tão bem a menina negra que segurava as palavras Presente, sobre o ombro de dois indígenas, logo na Comissão de Frente.

Homenagem emocionante da Mangueira

A Mangueira mostrou neste Carnaval que, além de alegrar o povo, a cultura popular tem outro papel fundamental: denunciar e cumprir sua função social e política, de maneira poética e estética, mas contundente. Parabéns, Verde e Rosa!

Abaixo, o clipe oficial da Mangueira com o samba enredo de 2019:

Imagens: reprodução Twitter/transmissão TV Globo e divulgação Mangueira

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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