Mandaguaris cultivam fungos promissores

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Todo mundo sabe que muitas espécies de formigas cultivam jardins de fungos em seus formigueiros. É de onde tiram seu alimento. Elas não vivem sem os fungos e os fungos não existem sem elas, logo ambos mantêm um tipo de relação chamada pelos biólogos de simbiose, com benefícios para todos. Mas uma abelhinha sem ferrão cultivando fungos? Isso é novidade absoluta para a Ciência! Acaba de ser publicado o primeiro artigo científico revelando esta descoberta, feita quase por acaso quando o entomólogo Cristiano Menezes ainda fazia seu doutorado na Universidade de São Paulo (USP).

Cristiano estudava o desenvolvimento da abelhinha nativa sem ferrão mandaguari (Scaptotrigona depilis) desde a postura e eclosão dos ovos e notou o crescimento de um fungo branco ao redor das células onde ficam as larvas, antes de se transformarem em abelhas adultas. Chegou a temer que o fungo infestasse as larvas e causasse problemas, mas então percebeu que as larvas se alimentavam do fungo. Para ter certeza disso, fez alguns testes, monitorando as larvas mais de perto: metade delas recebeu um alimento estéril sem o fungo e a outra metade, com o fungo.

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Pronto! Estava confirmado: os fungos não crescem nas células das larvas por acaso, eles são a comida das futuras abelhinhas! As larvas criadas em laboratório, com o alimento mais os filamentos do fungo, apresentam uma taxa de sobrevivência de 76%. Já a maioria daquelas que recebem só o alimento, sem o fungo, não sobrevivem: só 8% completam o desenvolvimento.

“É a primeira vez que se encontra um caso de simbiose entre abelha e fungo”, confirma o entomólogo. “Já existia um relato, no Brasil, de simbiose entre uma abelha (mandaçaia) e uma bactéria, mas não se avançou nesse assunto, desde então. Agora (após a confirmação da simbiose entre o fungo e a mandaguari), o grupo da pesquisadora Mônica Pupo, da USP de Ribeirão Preto, está encontrando uma série de outros microrganismos associados a esse sistema. Pelo visto, a nossa descoberta é apenas a ponta do iceberg”.

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O artigo com a descoberta e as pesquisas feitas para confirmar a relação entre as abelhinhas e o fungo saiu nesta quinta feira, 22 de outubro de 2015, na revista científica Current Biology da Cell Press (EUA), assinado por Cristiano Menezes, Ayrton Vollet-Neto, Anita Jocelyne Marsaioli, Davila Zampieri, Isabela Cardoso Fontoura, Augusto Ducati Luchessi e Vera Lucia Imperatriz-Fonseca. As instituições envolvidas na pesquisa são Embrapa Amazônia Oriental, USP, Universidade de Campinas (Unicamp) e Instituto de Tecnologia Vale (ITV).

O fungo de filamentos brancos associado à abelhinha mandaguari é do gênero Monascus. Trata-se de um gênero de fungo pesquisado na Universidade de Santa Catarina (UFSC), por exemplo, por sua atividade antimicrobiana, contra três dos piores contaminantes de alimentos: Staphylococcus aureus, Escherichia coli e Salmonella enteritidis. É um gênero de fungo igualmente estudado como biocolorante para alimentos, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). E os pesquisadores suspeitam que outras espécies de abelhas sem ferrão também mantêm simbiose com fungos similares.

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Pelo visto, além de garantir a polinização especializada de muitas flores nativas; além de produzir diversos tipos de mel com propriedades diferenciadas e própolis valiosos, as abelhinhas brasileiras ainda nos reservam muitas surpresas promissoras no universo das moléculas com potencial para se transformarem em medicamentos e novos produtos! Dedicar tempo e pesquisa à conservação das nossas abelhinhas, portanto, não é só um hobby ou assunto exclusivo de amantes da natureza: é investimento no futuro!

Fotos: Cristiano Menezes (de cima para baixo: abelhinha mandaguari; ovo depositado em uma célula de crescimento da colmeia; larva cercada por fungos brancos e fungo Monascus ao microscópio)

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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