Mamona garante o clima em aviários

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A espécie não é nativa, é originária da Ásia ou da África. Para o Brasil, veio de carona com os primeiros africanos, usada como purgante. Então se espalhou por estas terras e hoje cresce espontaneamente em terrenos baldios, de norte a sul do país, fornecendo espinhosa munição para a molecada que ainda é adepta de jogos de guerra nada eletrônicos. Também viceja em plantações comerciais nos estados da Bahia, Ceará, Minas Gerais e Pernambuco, cujo objetivo é extrair o óleo de rícino para diversos usos na indústria química.

Estamos falando da mamona (Ricinus comunis), uma oleaginosa da família das euforbiáceas. A planta tem folhas largas e, em média, atinge 2 a 3 metros de altura. Os frutos dão em cachos e são bolotas espinhosas, cada uma com três sementes, das quais se extrai o óleo.

O grande diferencial desse óleo é ser o único de origem vegetal com uma hidroxila (OH), o que lhe garante uma viscosidade ideal para a produção de graxas, lubrificantes, tintas, vernizes, espumas e materiais plásticos. O óleo serve ainda para a fabricação de biodiesel e de uma resina em duas fases, para serem misturadas no momento da aplicação.

A resina de mamona viabiliza, por exemplo, a produção de placas isolantes para uso como forro em aviários, conforme conta o zootecnista Júlio César Machado Cravo. Em geral, os galpões para a engorda de frangos de corte são grandes e o controle do conforto térmico é crucial para o bom desenvolvimento das aves. Portanto, uma opção barata e eficiente de forro para isolar o calor é mais do que bem vinda.

Júlio trabalha com o conforto térmico de aviários desde a graduação, na Universidade Estadual Paulista (Unesp), tendo desenvolvido novas opções de forros no mestrado (2013) e no doutorado (2016), ambos na Universidade de São Paulo (USP), campus de Pirassununga, com orientação de Juliano Fiorelli e recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). “A intenção era trabalhar com materiais alternativos, de modo a garantir o conforto térmico nos aviários e também agregar valor aos resíduos agrícolas, abrindo a possibilidade de o agricultor ter uma segunda fonte de renda”, resume o pesquisador.

Sua primeira pesquisa foi com dois resíduos agrícolas: casca de amendoim e fibras de coco. A intenção era fabricar placas isolantes de baixa densidade (leves) e alta resistência, capazes de aguentar tanto um acidente – como uma eventual telha quebrada – quanto a alta umidade do interior dos galpões. As placas feitas apenas com cascas de amendoim e resina de mamona revelaram-se frágeis demais, então foi acrescentada a fibra de coco, com densidade de 500 kg por metro cúbico, sendo cada placa quadrada, com 40 centímetros de lado e 1,5 cm de espessura. As avaliações feitas em laboratório indicam tanto a boa resistência do material como sua eficiência no isolamento do calor em aviários.

Na segunda pesquisa, os resíduos estudados foram sacos de cimento e embalagens tipo longa vida. Depois de limpos em batedeiras e centrífugas de laboratório, os sacos de cimento foram dissolvidos em água e secos em estufa, de forma a se recuperarem apenas as fibras de celulose. Três opções de placas isolantes foram produzidas: a primeira apenas com sacos de cimento e resina de mamona; a segunda com acabamento em verniz e a terceira com revestimento de embalagens tipo longa vida por cima e por baixo.

Estudos comparativos foram realizados em protótipos reduzidos de aviários e a terceira opção – placas de fibras de sacos de cimento com resina de mamona e revestimento de embalagens longa vida – foi a de melhor desempenho. Com esse tipo de isolamento no forro, os aviários chegam a ficar até um grau centígrado mais frescos nas horas mais quentes do dia. Parece pouco, mas representa muito em termos de conforto térmico para as aves e mais ainda em economia da energia gasta com ventiladores e umidificadores de ar.

Assim é que a mamona – munição de tantos combates entre moleques – ajuda também a combater o excesso de calor nos criadouros de frangos, seja na mistura com o brasileiro amendoim e o coco abrasileirado, seja na mistura de embalagens usadas de cimento e produtos longa vida!

Agora só falta uma fábrica interessada em produzir esses forros em escala comercial para o clima melhorar de vez nos aviários. E a custo baixo!

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Fotos: Liana John (furtos e folha de mamona, ao alto, cascas de amendoim, acima)

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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