Macela, planta calmante, antisséptica, digestiva e antioxidante, finalmente ao alcance dos agricultores

Nos estados da região Sul, a madrugada da Sexta-feira Santa é dedicada à colheita de macela (Achyrocline satureioides), uma planta da biodiversidade brasileira de amplo uso medicinal e cosmético. Também chamada de macelinha, marcela, macela-de-travesseiro ou carrapichinho-de-agulha, ela cresce espontaneamente em campos e áreas de vegetação mais aberta, chegando a ser considerada invasora em pastagens degradadas, lavouras abandonadas e terrenos baldios.

Não é difícil reconhecer a espécie: com cerca de um metro de altura, a touceira se destaca pelas folhas alongadas, de um verde claro, meio prateado, meio aveludado, que se cobre de gotículas de orvalho no outono e inverno. As inflorescências são pequenas e abundantes, de um amarelo-pálido, parecendo palha seca.

Para quem vê a planta pela primeira vez e tem dúvida se é a macela mesmo, recomendo fechar os olhos e recorrer ao olfato: o suave aroma é inconfundível. Ele faz parte da infância de muita gente, como recheio de travesseiros, almofadas, colchões e bonecas de pano. É só deitar a cabeça e cair num sono tranquilo!

Pois agora, enfim, a macela poderá ser plantada comercialmente. Uma variedade pesquisada entre 1994 e 2006 por Ílio Montanari Júnior, do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas Biológicas e Agrícolas da Universidade Estadual de Campinas (CPQBA/Unicamp), acaba de ser licenciada e será multiplicada pela empresa gaúcha Isla, visando o fornecimento para agricultores.

A demora em licenciar as sementes deve-se ao azar de o pesquisador ter iniciado a domesticação da macela antes de existir uma lei de biossegurança. Quando a lei entrou em vigor, em 2001, ele tentou registrar a pesquisa, mas os órgãos responsáveis não tinham um protocolo para trabalhos já iniciados. Todos os formulários presumiam pesquisas por iniciar. Além disso, como a planta nunca havia sido cultivada, ainda foi preciso elaborar os termos técnicos apropriados (descritores) no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Só isso demorou quase seis anos até a Unicamp obter autorização para comercializar a licença.

Daqui para frente, a produção em escala de medicamentos ou cosméticos à base de macelinha deixa de depender do puro extrativismo e pode ser feita sem depredar o patrimônio natural. E sem atrapalhar a colheita amadora de Karfreitachstee, como os sulistas descendentes de alemães chamam a espécie. A tradução é: Kar=santo, Freitach=sexta-feira (corruptela de Freitag) e Tee=chá, ou seja, Chá da Sexta-feira Santa.

A parte da macela utilizada em chás caseiros e como enchimento de travesseiros é a inflorescência. Seja para quem toma ou para quem descansa, a planta tem efeito relaxante. Se for feito um extrato das mesmas flores, o efeito chega a ser sedativo, amenizando cólicas menstruais e espasmos da barriga ou mesmo dores de parto. Das folhas e dos ramos se obtém um chá amargo, considerado digestivo e auxiliar no controle de diarreias. E uma versão de extrato seco teve efeito contra o vírus de herpes (Herpes simplex ou HSV1), num estudo conduzido na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) pela pesquisadora Valquíria Linck Bassani. Em tempo: a variedade utilizada nessa pesquisa foi essa mesma licenciada, produzida por Ílio Montanari Jr.

Em formulações cosméticas, a macela é utilizada por sua ação clareadora, iluminadora e fortalecedora, em xampus; anti-inflamatória e calmante, em tônicos capilares, e antioxidante, em cremes para a pele. Tais indicações constam da revisão de literatura feita por quatro pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com base em publicações de congressos e simpósios brasileiros sobre plantas medicinais e aromáticas: L. E. S. Barata, A. A. J. Alencar e M. Tascone, do Instituto de Química, e J. Tamashiro, do Instituto de Biologia.

Tomara que as sementes comerciais cheguem logo ao mercado para ampliar o uso da macela-de-travesseiro entre consumidores urbanos. Com certeza é uma alternativa bem mais barata e menos viciante de combater o estresse e a insônia. Além de mais cheirosa e sustentável, claro!


Fotos: Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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