Luz de Oca

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Michelangelo Merisi (ou Amerighi), nasceu no ano de 1571. Caravaggio era o nome da aldeia natal de sua família e foi escolhido por ele como seu nome artístico.

Foi um dos mais notáveis pintores italianos, atuante em Roma, Nápoles, Malta e Sicília, entre 1593 e 1610.  Seu trabalho exerceu grande influência sobre o estilo barroco, se tornando o primeiro grande representante desta arte.

A pintura de Caravaggio acabou por influenciar minha fotografia e minha busca incessante pela luz perfeita. A luz que o amigo e fotógrafo Du Zuppani definiu como Luz de Oca. Isso porque ela é encontrada apenas em ambientes escuros como o interior de uma oca.

A técnica consiste em utilizar-se do mínimo da luz que entra em um ambiente e fazer desenhos, se perdendo na escuridão.

Para este post, selecionei algumas imagens do meu acervo para comentar e tentar revelar um pouco dos detalhes desta técnica e de como ela acontece. Aproveitem!

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Tepori Yawalapiti tece sua rede feita com fibra de buriti. Acompanhei todo o processo que geralmente se realiza dentro das casas.
Se disparasse flash ou usasse luz artificial, certamente iria tirar toda a atenção de Tepori sobre seu trabalho e, assim,
perderia a simplicidade de seus gestos

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Nesta fotografia, o cacique Awalucumã Waurá faz uma grande panela de cerâmica. Nesse momento, ele se encontrava logo
na entrada de sua casa. A sombra e a pequena luz que entrava pela porta fundiram homem e barro nesta imagem

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O jovem Waurá é pintado para o ritual do Kuarup e se concentra em frente a um pequeno pedaço de espelho.
É neste momento que foco e desenho com a pouca luz que ali existe

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O velho Krahô – já cego por uma catarata – conta que, quando jovem, foi um dos melhores caçadores de veado Campeiro da região.
Diz isto com orgulho pois, em seu tempo, tinha de correr e caçar com arco e flecha. Tinha que saber olhar e se posicionar
conforme o vento. “A luz de meus olhos se apagaram, mas ainda enxergo os Veados no campo!”, comenta.

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O instante para cada imagem é único. Nesta foto, durante a festa do  Kuarup do sertanista Orlando Villas Bôas, em 2003,
usei uma máquina Pentax 6×7 e filme chromo Velvia 50 iso. O filme chromo não permitia muitos erros, por isso,
tinha que saber exatamente aquilo que estava fazendo

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Trabalhar nestas condições de luz, me permitiu ousar, até mesmo à noite, porque aprendi a aproveitar a luz de fogueiras.
Neste caso, a luz é mista. Explico. Durante a realização desta foto na aldeia Kuikuro, alguém acendeu o farol de uma moto,
criando esta sensação etérea.  Mas tive de ser muito rápido, pois logo ela foi apagada, voltando a pequena luz vermelha da fogueira

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Cada fotografia é um novo instante e isto me fascina pois, de alguma maneira, deixo para a posteridade não apenas uma cultura,
mas também um simples olhar. Quando for idosa, a pequena Kamayurá vai poder mostrar, a seus filhos e netos,
que um dia também foi criança

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No ritual das Yamurikumã, na aldeia Kamayurá, percebi o encantamento e a alegria das mulheres em conversas longas
e de muitas gargalhadas. Mas a verdade é que estavam rindo do único homem que ali dentro se encontrava e
não posso dizer o que elas comentavam pois, nestes dias, falam muita besteira

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Durante anos usando a mesma linguagem e aperfeiçoando-a, posso dizer que a técnica não é a parte mais importante
da fotografia, mas, sim, a construção de um trabalho. Aos jovens fotógrafos, eu diria que os temas são diversos,
mas façam aquilo que o coração pede. A “fotografia do coração” é aquela que mexe não apenas com você,
mas, 
também, com as pessoas. Por trás de cada fotografia existe uma grande responsabilidade:
temos um compromisso sério com os personagens retratados. Somos parte disso!

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de “Diário de Campo”. É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

Renato Soares

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de "Diário de Campo". É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

7 comentários em “Luz de Oca

  • 16 de setembro de 2016 em 9:41 AM
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    Bálsamo para os olhos e refrigério para a alma! Show de fotografias! Lindas! Parabéns, Renato!

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  • 16 de setembro de 2016 em 10:37 AM
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    Adorei saber mais sobre a Luz de Oca… Especialmente das ricas histórias contadas com tanta delicadeza por alguém comprometido em mostrar também as diferentes luzes de homens e mulheres desse Brasil profundo. Valeu, Renato Soares! Essa é a verdadeira Conexão Planeta!

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  • 19 de setembro de 2016 em 8:39 AM
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    Excelente teu trabalho!!! Parabéns pelos ensinamentos passados… Abraço!

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  • 20 de setembro de 2016 em 10:12 PM
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    Ouvi o próprio Renato dizer, no Revela Bertioga, que gosta de trabalhar com ISO100 … é como são preciosos estes foques e desfoques, obrigada, Renato!

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  • 22 de setembro de 2016 em 8:15 AM
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    Lindo Trabalho! Delíciado e Respeitoso…amei!

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    • 26 de setembro de 2016 em 10:27 AM
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      Obrigada por sua mensagem, Nadirá!
      O fotógrafo Renato Soares ficou feliz com seu comentário.
      Grande abraço

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  • 14 de julho de 2017 em 3:25 PM
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    Maravilha de relato. Pude sentir daqui o amor que com o Renato fez essas lindas fotografias. Aprendizado pra mim.
    Parabéns Renato.

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