Luz de celular

luz de celular

Desde muito novo gosto de olhar para o céu estrelado, deixando os pensamentos soltos e tentando imaginar como são as estrelas, se há outros planetas como o nosso e quão pequenos somos diante da grandeza infinita do Universo, que criou nosso mundo e um dia o levará.

Fotógrafo desde minha adolescência, já naquela época tentava registrar nos filmes, a beleza infinita do céu estrelado.

Depois de horas de exposição, durante madrugadas ao lado da câmera, revelava os negativos com resultados, na maioria das vezes, frustrantes.

O tempo passou e vieram as câmeras digitais. As primeiras, ainda com uma tecnologia ruim, não permitiam boas fotos finais, com a pouca luz das estrelas.

Todavia, mais recentemente, com o lançamento de câmeras digitais de última geração, com lentes de qualidade, aliando-se conhecimento técnico, é possível conseguir resultados surpreendentes!

Para facilitar o trabalho dos fotógrafos, existem vários aplicativos para smartphones, que indicam os melhores pontos de visão da Via Láctea ou o horário exato onde o sol vai se por, por exemplo, num determinado dia para um local escolhido, criando condições nunca imaginadas antes para as chamadas “astro fotografias”.

Alguns locais são muito especiais para este tipo de registro fotográfico. Um deles é o Salar de Uyuni, maior deserto de sal do mundo, que fica na Bolívia, próximo à Cordilheira dos Andes. A visão do céu estrela de lá é algo simplesmente espetacular. Perde-se a noção de escala num “mar” de sal, com aproximadamente 70km de diâmetro, cercado de montanhas e com “ilhas” no seu interior. A mais visitada delas é a Isla Incahuasi, onde ocorre o cacto-gigante (Echinopsis atacamensis), que pode chegar a 10m de altura!

O mais impressionante é que ve-se a formação de corais fossilizados no topo da ilha! Isso a 3.600 m de altitude! Mas como pode? Esta é uma das provas da deriva continental. Há mais de 40 mil anos, toda a costa oeste da atual América do Sul era mar e em alguns locais com a presença abundante de corais. Com a deriva continental para oeste, toda a costa da América do Sul aos poucos foi sendo empurrada para cima. Com ela, partes dos antigos corais se ergueram junto com a rocha.

No local do Salar formaram-se então lagos gigantesco com água salgada do mar. O lago secou e o sal ficou. É uma das regiões mais planas do mundo, com desníveis entre os extremos, que não chegam a um metro e por isso, são utilizados como lugar para calibrar o altímetro dos satélites de observação da Terra.

Tá bom. Mas e a foto? Vamos lá então ao que interessa.

Desde que comecei a utilizar câmeras digitais, em 2005, venho estudando e testando a melhor forma de fazer fotos de estrelas, luar e outros desafios fotográficos.

No caso desta foto, procurei um local, onde depois do por-do-sol, poderia registrar a transição do dia, mas já com a Via Láctea visível e o cato-gigante.

Para isso, um bom tripé foi indispensável, bem como uma lanterna potente para poder me orientar e montar o equipamento. Escolhi uma “super grande angular” 15mm, que cobre um ângulo de 110º. Para registrar com qualidade, utilizei ainda o ISO 1000 e com a ajuda da lanterna fiz a composição e determinei o foco. Este um dos pontos críticos da fotografia de estrelas, por não ter um ponto forte de luz, o foco sempre é difícil de ser feito.

Para as estrelas não ficarem como pequenos riscos com o movimento da terra, a velocidade deve ser escolhida levando em consideração a distância focal da lente. No caso, 30 segundos era o limite para esta lente.

O novo desafio foi iluminar o cacto de forma a ficar equilibrado com a luz do crepúsculo e das estrelas.

Fiz algumas tentativas com a lanterna potente. Muito forte. Depois com a lanterna do celular. Ainda não me agradou. Por fim, usei a luz do display do celular e a foto ficou perfeita.

Esta foto representa bem a imensidão do salar, contextualizando o local com o relevo, o cacto, a profusão de estrelas e o crepúsculo, com destaque para as montanhas. Caso eu tivesse feito a imagem um pouco mais tarde, seria escuro demais, sem visibilidade para as montanhas. A Via Láctea mergulharia num mar de escuridão, tirando o diferencial que esta foto proporcionou.

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Equipamentos utilizados – Nikon D800 – ISO 1000 Lente Sigma 15-30mm em 15mm com 30seg de exposição. A iluminação do cacto com luz do display do celular. Tripé.

Zig Koch

Fotógrafo profissional com ênfase em imagens de natureza, turismo e viagens. Autor de 14 livros e 25 exposições individuais, sendo quatro internacionais. Percorreu todos os biomas brasileiros, viajou para vários países de outros continentes, fotografando para revistas, ONGs e empresas.

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