Luiz Badia e o véu da extinção

obra de luiz badia

Não há garantias para esse  mergulho entre  transparências, véus e formas. Se você não for rápido, sobreposições se acomodam bem no seu ponto de visão e aí o que era um objeto já é outra coisa. O carioca Luiz Badia apanha a imagem de vídeo e pinta. Apanha a tela e pinta. Apanha a vida e pinta. Tudo em fragmentos que se interpõem e se conjugam. Ou se separam. Cada pedaço vai formando uma historinha na cabeça do pobre espectador. Pobre porque é quase certo que você sai do museu sem notar algum detalhe da tela. A menos que você goste de dissecar obras como do pintor holandês Hieronymus Bosch (não me referindo aqui, lógico, ao estilo, mas apenas à quantidade de elementos.E olha que em Badia é bem menor).

Tela de Badia é para parar e ficar. É vídeo para se deixar levar. Não adianta assistir só para dizer que assistiu. Não adianta olhar só para dizer que viu. É uma viagem pelas várias camadas. É um passeio pelo movimento coreografado na fusão entre a pincelada e a foto. A beleza está em olhar e nem saber mais o que é o quê.  O que era sutileza na hora de fixar o primeiro foco vira batalha para escolher a próxima marca. Vira coreografia do olhar, entre fugas e encontros. Com trilha sonora composta pelo próprio artista.

A coreografia que embala a visão é para sonhar. Ou ter pesadelo ao tentar imaginar tudo que envolve a obra em vídeo Sonar, por exemplo. Sonar é aquele dispositivo utilizado em transportes aquáticos para determinar a profundidade dos oceanos, captar obstáculos e fazer imagens em preto e branco, por meio do fenômeno da reflexão da onda sonora emitida. É essa coisa usada nos navios para vasculhar as profundezas marinhas e detectar petróleo, numa época em que a exploração de combustíveis fósseis já deveria estar sendo banida para evitar que as calotas polares se derretam mais ainda com o aquecimento global.

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Entre os elementos, Badia gosta de fazer referências à obras de artistas que já têm o nome registrado na história da arte. Cada forma que surge na tela parece fazer parte de um jogo. Um animal ali solto, está no meio do tudo civilizatório, do nada sem consciência, do vermelho do perigo, do sangue, da extinção.

A baleia também parece estar no nada. Não há habitat para ela. Não há rumo. Precisa dividir espaço com cadeiras de sol e birutas sem direção.

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As obras de Badia estão no Museu de Arte Municipal de Curitiba (MuMa) ao lado de pinturas de 13 artistas que fazem parte da exposição Arte Alerta, aberta durante a Virada Climática de Inverno, realizada pela 350.org Brasil, movimento internacional que denuncia as mudanças climáticas, luta contra o fracking e exige o desinvestimento em combustíveis fósseis. A exposição foi idealizada pela artista plástica Lesiane Lazzarotti Ogg e reúne telas produzidas pelo Grupo Baluarte, do Rio de Janeiro. Luiz Badia é o orientador do projeto.

balas e batons

 

Exposição Arte Alerta
Data
: até 14/08
Horário: 10h às 19h (3ª feira a domingo)
Local: Museu Municipal de Arte (MuMa) – Portão Cultural
Endereço: República Argentina, 3432 – Curitiba
Agendamento de escolas: (41) 33213275

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Fotos: divulgação Luiz Badia

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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