Lucila Egydio: um olhar para as futuras gerações e para o envelhecimento feminino

Quando terminava a faculdade e fazia estágio focado em algas marinhas, a futura bióloga Lucila Maria Barbosa Egydio leu uma reportagem sobre o Refúgio Ecológico Caiman, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, e os trabalhos dos guias de ecoturismo. Se encantou com a possibilidade de passar um ano em uma paisagem idílica como aquela e enviou seu currículo para lá.

A paulistana ainda não sabia, nesse início dos anos 1990, que ao ser aceita no novo trabalho estaria mudando totalmente sua vida. Assim, por quase uma década, Lucila conviveu diretamente com os pantaneiros e sua cultura, e aprendeu a importância do ecoturismo como oportunidade de conservação do meio ambiente. Não se intimidou com o fato de ser mulher e forasteira em um ambiente bastante masculino, e conquistou seu espaço se integrando, ao máximo, aos costumes locais.

A experiência adquirida como guia na gestão do hotel e no desenvolvimento de manuais e trilhas fez com que fosse convidada, em 2000, para trabalhar no Ministério do Meio Ambiente, em um programa de desenvolvimento do ecoturismo na Amazônia. Depois disso, coordenou um projeto de desenvolvimento de ecoturismo na Mata Atlântica para a Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, além de dar aulas e consultorias sobre o tema.

Em 2011, foi convidada por Roberto Klabin, presidente do Instituto SOS Pantanal, para ser diretora executiva da instituição. De volta a Mato Grosso do Sul, teve que aprender a lidar com o mundo do agronegócio, sobretudo da pecuária, alvo das ações da organização. Conheci Lucila nessa época, quando liderava longas expedições para o conhecimento de práticas sustentáveis aplicadas por proprietários rurais e iniciativas de conservação do bioma para poder disseminá-las.

Em 2015, de volta a São Paulo, um pouco frustrada com as dificuldades de atuar com o setor agro, ela deu uma guinada que a colocou em uma outra frente de ativismo, o do envelhecimento. Convidada pela prima Silvia Scagliarini para ajudar a desenvolver um projeto voltado a idosos, foi seduzida pelo tema. Passou a frequentar eventos e foi estudar o envelhecimento feminino. “Briguei muito pelas futuras gerações e agora estou lutando pela minha”, brinca ela.

Em pouco tempo, se engajou no movimento Lab 60+ e passou a ser convidada para dar palestras. Hoje, está totalmente envolvida com o dilema de como garantir uma longevidade digna no país.

Nesta entrevista ao blog Mulheres Ativistas, no Conexão Planeta, Lucila fala de ativismo como uma postura de vida, presente em todas as escolhas que faz, da sua trajetória e de sua nova aventura, o recém-lançado projeto Juntando Pontas.

Em que momento de sua vida se percebeu como ativista?

Embora me dissessem que eu era muito militante, não me via assim. Achava que estava apenas fazendo o justo, o correto. Mas, quando comecei a trabalhar com a Amazônia, no Ministério do Meio Ambiente, e a sentir que meu discurso reverberava, percebi a responsabilidade da minha atuação e que o que dizia tinha que ser bem claro, ter conteúdo, para que a leitura do interlocutor fosse realmente o que eu pretendia comunicar e que tinha fundamento científico.

Conviver com universos diferentes, que envolvem governo, políticas macro, agências internacionais, me mostrou a relação disso tudo com o meu fazer diário e que era, sim, ativismo.

Ao mesmo tempo, entrei em uma busca espiritual que vinha de família – meu tio fundou um terreiro de candomblé em São Paulo que é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). Em Brasília, morava em uma comunidade onde fazíamos meditação, experimentações. Tudo isso me fez pensar muito nas questões planetárias, em qual é o nosso papel neste planeta e o impacto da nossa presença.

Nunca fui panfletária, sempre atuei pelo trabalho, que puxou o desenvolvimento de uma postura que inclui as escolhas de minhas relações, comida, música, leituras. Nada é separado, é uma coisa só.

Você atuou em áreas tradicionalmente machistas, como o universo de peões pantaneiros e produtores rurais. Enfrentou dificuldades por conta disso?

Quando fui para o Pantanal, ser mulher no mundo agro pesava um pouco. Trabalhar com turismo diluía o problema em alguma medida, mas era constantemente testada pelos pantaneiros. Tive, no entanto, a felicidade de me integrar muito bem, porque a cultura local me interessou, gostava de passar minhas folgas com os moradores da fazenda. Tenho facilidade em ser adotada.

Quando me tornei gerente de manutenção na Caiman, o fato de ser mulher trouxe mais dificuldades, porque tratava com caminhões, peças… Mas soube usar isso a meu favor, pedia ajuda, oferecia a gestão e eles as partes práticas.

Senti mais pressão quando trabalhei no Ministério do Meio Ambiente, mas estava mais cascuda. Era uma mulher jovem e negra em um cargo relativamente alto, liderando o programa de Ecoturismo na Amazônia, tendo que conversar com prefeitos e governadores de nove estados.

Tive contato com algumas realidades bastante machistas, porém, como esse era um tema “novo” e eu tinha experiência prática, percebiam que eu tinha conteúdo, ganhava o respeito das pessoas rapidamente.

Na SOS Pantanal, creio que foi a experiência mais difícil porque me relacionava diretamente com o mundo agro, bem mais machista. Em alguns momentos, cheguei a ter a sensação de que não ia dar para salvar o mundo, mesmo.

Foi por isso que resolveu mudar totalmente de área e se envolveu com o tema envelhecimento?

Minha ideia era trabalhar com consultorias e voltar a estudar. Mas me encantei quando surgiu a oportunidade de aproximar idosos solitários de acompanhantes para atividades socioculturais – uma espécie de Uber de acompanhantes para ir ao cinema, ao teatro, ao parque. A ideia era treinar pessoas, também aposentadas, para atividades remuneradas por hora, tudo via aplicativos, uma atividade tecnológica voltada a uma necessidade social dos idosos, com geração de renda em novas bases.

Minha prima, Silvia, me convidou para ajudá-la a desenhar e viabilizar o projeto. O Sebrae se interessou e nos convidou para a escola de negócios, com mentoria de seis meses. Conseguimos uma parceria com a ONG israelita B’Nai B’Rith São Paulo e desenvolvemos o projeto Juntando Pontas, lançado em 25 de setembro.

O projeto é financiado por patrocinadores via renúncia fiscal, a partir de convênio com a Conselho Estadual do Idoso, da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social.

Você continua ativista, mas, agora, pela causa da longevidade…

Resolvi me aprofundar em gerontologia e fui estudar o que é envelhecimento, por meio de uma extensão na PUC, em 2017. Me apaixonei por essa questão e resolvi fazer mestrado na USP Leste, onde estou desenvolvendo um projeto sobre o envelhecimento feminino, para identificar se precisamos ou não de políticas públicas específicas para a mulher idosa.

Precisamos olhar a velhice como um processo. O que eu faço ou como está o mundo hoje influencia a velhinha que serei amanhã. Em geral, mulheres vivem mais, cuidam de todos e, quando idosas, não têm quem cuide delas. Além disso, estamos em uma fase de perda de direitos. Reformas na previdência são necessárias, mas precisam ser justas. Como estão, são justas apenas para o empregador.

Tudo isso me trouxe maior clareza sobre meu ativismo, o que influenciou diretamente a escolha do meu mestrado: entender questões relativas a mulher, justiça e políticas públicas. Novamente, abracei um tema no qual há muitas forças lutando contra. Comecei a participar de eventos e naturalmente fui me engajando. Um dos movimentos com os quais me envolvi é o Lab 60+ que, agora, se transformou em um instituto. Participo como ativista, faço palestras, entrei na causa de cabeça.

Com essa atuação, você abandonou o ecoturismo?

Imagina! Isso não é uma causa que se abandone. Somei. Ainda faço palestras sobre sustentabilidade para empresários de turismo de aventura e sou consultora da Raízes Desenvolvimento Sustentável, uma empresa social fundada por um grupo de turismólogas, cujo objetivo é desenvolver o turismo como vetor de transformação social.

No momento, estou envolvida em um projeto de ecoturismo na Serra do Roncador, no Vale do Araguaia, no Mato Grosso. É um lugar incrível, que precisa ser conservado. Vou voltar a conversar com produtores rurais…

Foto: Seppia

Edição: Mônica Nunes

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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