Para não engavetar o tempo

obra de Los Carpinteros

Eles fizeram um carrinho de supermercado-lixeira. Como se os nossos já não fossem. Cheios de embalagens para matar a sede visual das nossas vistas cada vez menos acostumadas ao simples e real.  Pesados de lixo em forma de conservantes, aromatizantes. Mais um pouco e só teremos antes. Nosso futuro dissolvido em caldo artificial. Com aquele cheiro e gosto tão horríveis, os pozinhos e cubos mágicos comuns usados na culinária da preguiça moderna são bem capazes de impregnar o corpo, a alma e a assombração. Assustam as papilas gustativas e como que desativam o paladar.

Ai que medo! Medo também da proliferação de uma rede de supermercados catarinense que vai derrubar um enorme bosque do antigo Hospital Psiquiátrico Bom Retiro, em Curitiba, já demolido.  Depois os loucos são os que frequentaram a instituição…

É… Tantas construções que nos engavetam… E nos desconectam da natureza… E aqui me torna imagem solitária que pode aparecer numa foto mal feita, querendo virar poesia para ganhar casa e conforto na sombra de obra alheia.

O coletivo cubano Los Carpinteros as codifica assim. Em aquarela, em madeira, em sentimento de opressão civilizatória mais do que metafórica. Marco Castillo, Dagoberto Rodríguez e Alexandre Arrechea formaram o trio Los Carpinteros em 1992, mas o coletivo segue hoje com os dois primeiros. Depois de percorrer outras cidades brasileiras, suas obras estão em exposição agora em Curitiba.

Acho engraçada a utilização da aquarela não só porque os temas das obras carregam ironia e bom humor.
É que as sigo sempre com um olho nas obras em madeira intimamente ligadas ao nome do coletivo que discute, por exemplo, a função e não função dos objetos de ofício.

A história da técnica da aquarela está muito ligada a uma questão funcional. Era de bom tom as mulheres das classes altas britânica e americana do século XIX saberem utilizar a aquarela. Mas, a técnica que confere agilidade e rapidez, também era usada nos desenhos topográficos militares.

Num ensaio sobre o coletivo, a historiadora da arte e curadora Helen Molesworth resgata a história das aquarelas:

“A aquarela surgiu durante o Renascimento sob o manto do naturalismo, apreciada pela sua capacidade de adicionar cor aos desenhos principalmente monocromáticos. Albrecht Dürer era um colorista altamente qualificado e usava o meio como uma das muitas flechas em sua aljava para representar fielmente as maravilhas do mundo natural, a ponto de rivalizar com essas criações naturais. Lebre, a partir de 1502, é um dos exemplos mais famosos das habilidades prodigiosas de Dürer.”

Percorro as aquarelas em passo de tartaruga procurando função em imagens que não existem, mas parecem tão concretas nas soluções que me apontam.


Esta mão de tijolos faz meus pés entrarem carregados no caminho para os faróis arranhados pelas trilhas que tem as digitais com função certa: iluminar e dar um norte para essa vida de navegação incerta e observação limitada pelo compasso vertiginoso do balanço sensorial que procura se instalar no peito rígido e na cabeça dura do ser humano fadado a construir tijolo por tijolo a sua prisão e a prisão dos que os cercam.

Desses que poderiam voar livres, mas são obrigados a se encaixar no cotidiano de tentativas de voos que não decolam por falta de naturalidade e expressão e muita firula e penduricalho.

Quem sabe se a música não se derretesse em compassos repetitivos e bobos…

Quem dera fosse fácil os dogmas artísticos, políticos e sociais não limitarem os artistas.

Quem dera mais sons fossem inventados a partir do deslocamento do buraco negro primordial.  E que novos homens fossem sendo criados a partir de micros big-bangs internos, evolutivos. Reflexivos. Para não nos tornarmos tão solitários a pontos de precisarmos nos sentir abraçados apenas por objetos, máquinas, preceitos, ideias.

Sem nos deixar engolir pelo tempo. Sem tentar prender momentos em compartimentos estanques, necessitando repetir boas histórias com medo de que novas não surjam mais.

Exposição “Los Carpinteros – Objeto Vital”
Data: 
até 3/12
Horário: terça a domingo, das 10h às 18h e toda quarta gratuita com programação especial, 10h às 18h
Local: 
Museu Oscar Niemeyer
Endereço: Rua Marechal Hermes, 999. Curitiba – PR
Ingressos: R$ 16 e R$ 8 (meia-entrada)
Fotos: divulgação (abertura) e demais arquivo pessoal 
Jornalista cultural apaixonada por temas ambientais. Colaborou para várias revistas como Bravo!, Isto É, Nova e jornal Gazeta do Povo. Em TV, foi editora-chefe do programa Gente.com. Trabalhou como produtora e editora nos programas QI na TV, Com a Palavra, Aqui entre Nós, É Cultura. Foi repórter de TV por 12 anos e jornalista responsável pelo Guia Cultural Curitiba Apresenta. Mantém o blog de crônicas Nunca precisou de chão firme.

Karen Monteiro

Jornalista cultural apaixonada por temas ambientais. Colaborou para várias revistas como Bravo!, Isto É, Nova e jornal Gazeta do Povo. Em TV, foi editora-chefe do programa Gente.com. Trabalhou como produtora e editora nos programas QI na TV, Com a Palavra, Aqui entre Nós, É Cultura. Foi repórter de TV por 12 anos e jornalista responsável pelo Guia Cultural Curitiba Apresenta. Mantém o blog de crônicas Nunca precisou de chão firme.

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