Londres cria “corredor de abelhas”, com 11 quilômetros de flores, para atrair e preservar insetos polinizadores

Desde a Segunda Guerra Mundial, 97% dos prados de flores silvestres do Reino Unido desapareceram, revela relatório publicado no mês passado na revista Nature, Widespread losses of pollinating insects in Britain (Perdas generalizadas de insetos polinizadores na Grã-Bretanha, em tradução livre), que embasou um projeto lindo do Brent Council, conselho no bairro de Brent, no norte de Londres.

Por conta desse estudo e de um relatório divulgado pela ONU no ano passado (sobre o qual falo mais adiante), os integrantes do órgão tomaram uma decisão que pode inspirar a cidade, a Inglaterra e o mundo: criar uma espécie de corredor de abelhas com sete milhas de extensão – o equivalente a 11 km -, que envolvem 22 prados nos parques do bairro e outros espaços abertos. Juntos, somam 50 mil m2 de novos espaços para floração de espécies silvestres – entre elas, prímulas e papoulas -, que ajudarão a impulsionar o crescimento da população de insetos polarizadores já neste verão, que começa oficialmente em 21 de junho. Imaginou o colorido intenso e diverso que esse corredor vai criar? Com certeza, muito inspirador.

Essa iniciativa começou a ser pensada e debatida no ano passado, logo que a FAO – agência da ONU para temas relacionados á alimentação e agricultura –  divulgou, em 20 de maio, Dia Mundial das Abelhas, o relatório It’s a bee thing (or not), com detalhes sobre o impacto devastador dos seres humanos sobre a biodiversidade e os polinizadores (assista ao vídeo produzido para a ocasião).

A questão é que sem os insetos polinizadores, não será possível produzir alimentos. Ao tocarem as flores, abelhas, libélulas, mariposas e besouros, entre outros insetos – como também pássaros, morcegos – contribuem para a reprodução das plantas. Eles são vitais para a manutenção da saúde do ecossistema e para a segurança alimentar global. Garantem a existência de 75% das espécies de culturas existentes no planeta, 35% por cento da produção agrícola global e até 88% por cento das espécies de plantas com flores.

E que ironia! Boa parte desses insetos poilinizadores é exterminada pela agricultura intensiva, pela monocultura, pelos agrotóxicos – que, no Brasil, estão sendo liberados com uma velocidade nunca antes vista, para favorecer indústrias químicas nacionais e estrangeiras – e pelas mudanças climáticas, entre outros motivos. A falta de visão dos produtores (e da humanidade, em geral) não os deixa entender que, se as abelhas forem extintas, as plantações não serão polinizadas e a produção de alimentos estará condenada.

“Devemos fazer tudo o que pudermos para ajudar esses insetos a prosperar. Estou orgulhosa do compromisso de Brent de aumentar a biodiversidade no bairro e estamos ansiosos para ver os prados floridos. Isso se dará logo, em apenas alguns meses”, destaca Krupa Sheth, membro principal do Brent Council.

Semana passada, a Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) divulgou relatório no qual revela que um milhão de espécies de animais e plantas estão ameaçadas, como noticiamos aqui, no Conexão Planeta. Cerca de 82% da população de mamíferos silvestres declinou desde 1980 e os ecossistemas naturais foram reduzidos à metade. Tudo como resultado das atividades humanas.

Pra quem não sabe, o IPBES é um órgão independente, criado em 2012 no Panamá, para estudar a biodiversidade no planeta e fornecer informações cientificas para os governos. Sua coordenação está a cargo do Pnuma, em parceria com outras três agências da ONU: Unesco, a FAO e o Pnud.  

E o mais bacana de tudo! Este projeto do Corredor de Abelhas Brent não é o primeiro a ser idealizado na cidade de Londres para torná-la mais verde e mais saudável. Como noticiamos aqui, no ano passado, o movimento iniciado pela prefeitura e que conquistou o coração dos londrinos vai de vento em popa. Em dezembro, inúmeras pessoas participaram do plantio e a inauguração será em 22 de julho. Com ele, Londres será a primeira cidade do mundo a receber o titulo de National Park City.

E, assim, a capital inglesa vai ficando mais verde, mais saudável e mais colorida. E ainda vai ganhar alguns zumbidos muito bem vindos. Assista aos videos produzidos sobre o Corredor de Abelhas Brent, com Krupa Seth, e o National Park CIty (ambos em inglês):

Fotos: Nick Rivers/Pixabay (destaque) e Kupra Seth/Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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