Livros infantis velhos e esquecidos… e preciosos

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*Por Jussara Mangini

Livros Infantis, Velhos e Esquecidos” é uma exposição pensada para adultos e crianças de todas as idades. Reúne exemplares dos primeiros livros infantis publicados no Brasil, no século XIX e princípios do século XX, entre eles clássicos, romances adaptados, contos populares, revistas, almanaques, álbuns ilustrados e publicações de difusão científica.

São obras de literatura universal, traduzidas ou adaptadas para o público brasileiro, assim como aquelas de autores nacionais, que estão na mostra da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, com visitação até 30 de outubro, na USP, em São Paulo.

As publicações estão expostas em vitrines e podem ser consultadas em iPads distribuídos em vários pontos da sala. A curadoria é de Patrícia Tavares Raffaini, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo na área de História da Cultura, e Gabriela Pellegrino Soares, professora livre-docente do Departamento de História da USP na área de História da América Latina nos séculos XIX e XX e autora do livro Semear horizontes – uma história da formação de leitores na Argentina e no Brasil1915 a 1954.

Para elas, crianças e adultos que visitarem a exposição vão perceber que a infância leitora daquela época era muito diferente da de hoje, afinal vivia-se em outro contexto social e cultural, não existiam TV, rádio, internet e, portanto, o livro tinha finalidade educativa e recreativa.

“Se muitos desses livros foram também comprados para uso escolar, não se limitaram a finalidades pedagógicas. Dos contos de fadas aos romances de aventuras, das historietas divertidas à sedução para as ciências, foram livros que ajudaram a construir repertórios culturais e olhares para o mundo das crianças de outra época. E embora estivessem ao alcance de poucos, é verdade, suas narrativas encontraram surpreendentes caminhos de circulação”, disse Pellegrino.

Busca pelos livros esquecidos

A exposição é uma amostra do que Raffaini encontrou durante três anos de investigação em seu pós-doutorado, concluído em 2016, com apoio da FAPESP.

A história dos livros analisados corresponde à trajetória das primeiras casas editoriais sediadas no país, especialmente nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, a publicarem coleções voltadas para crianças.

“Eram coleções com frequência lindamente encadernadas, ilustradas com gravuras em branco e preto, algumas poucas coloridas, em que se guardavam tesouros para a imaginação e o conhecimento dos jovens leitores”, disse Raffaini.

O período do estudo também corresponde à infância das gerações de dois escritores brasileiros, Monteiro Lobato e Olavo Bilac. Eles dedicaram parte de sua produção literária às crianças e jovens e são conhecidos por declarações apaixonadas pelos livros que leram na infância e juventude.

Bilac, que viveu de 1865 a 1918 e, entre outras obras, escreveu livros escolares e a tradução de alguns clássicos infantis: “O que mais desenvolveu minha imaginação e o que consolou as vagas e indefinidas tristezas da minha adolescência foi a leitura de Verne”, dizia ele.

Lobato, que viveu de 1882 a 1948 e é reconhecido por ter modernizado a literatura infantil brasileira, declarava que “gostaria de criar livros nos quais as crianças pudessem morar como ele havia morado no Robinson Crusoé e nos Filhos do Capitão Grant” na sua infância.

Diferentes versões das obras mencionadas por eles estão expostas. “Muitas obras lidas pelas gerações desse período eram provenientes da França e da Alemanha e eram traduzidas cerca de dois anos depois de terem sido lançadas em seus países de origem”, explicou Raffaini.

Esses títulos chegavam ao país por intermédio de várias editoras, entre elas, duas estabelecidas no Rio de Janeiro: a Garnier, filial carioca da editora francesa de mesmo nome, e Laemmert, que editou boa parte das obras provenientes de regiões germânicas.

Seguindo as pistas iniciais dadas por Pellegrino, Raffaini encontrou catálogos da Garnier de 1903 a 1912 no acervo da Biblioteca Brasiliana, assim como alguns exemplares de obras adaptadas por Carlos Jansen para a editora Laemmert, entre eles o Robinson Crusoé na edição que Lobato provavelmente havia lido quando criança.

A partir daí, foram três anos de pesquisa que iniciou com a localização de 20 títulos e finalizou com 106 exemplares que representam uma diversidade considerável de títulos e formatos à disposição do público leitor infanto-juvenil brasileiro.

No entanto, a localização desses exemplares não foi tarefa fácil. “Tanto a infância era curta quanto a vida dos livros. Era comum os livros passarem de um irmão para o outro até se desgastarem e sumirem. Como nesse período não existia biblioteca pública infantil, a busca foi feita em sebos, acervos pessoais e alguns públicos”, disse Raffaini. Sendo assim, parte deles, 54, foi adquirida com recursos de Reserva Técnica Institucional concedida pela FAPESP e outros 52 foram localizados em acervos públicos.

O que ver

Quatro vitrines estão dedicadas a títulos relacionados nos catálogos da Garnier nas seções Álbuns Ilustrados e Biblioteca da Juventude. Entre os Álbuns Ilustrados estão: Os últimos empregos de Maria dos Tamancos (Jordic), A viagem do alto Mandarim Ka-li-kó e de seu fiel secretário Pa-tchu-li (Eugene le Mouel), Os amores do Sr. Jacarandá (Rudolf Toffler), Escutem!, O Fundo do Sacco e Scenas da Vida Privada dos Animaes (os três de Benjamin Rabier).

A Biblioteca da Juventude está composta com obras clássicas como Fábulas de La Fontaine, Contos do Doutor Sam (Henry Berthoud), O Bazar das Creanças (Mme Leprince Beumont), Os noivos (Manzoni), A cruz de madeira e o menino perdido (Cônego Schmid), Contos do Cônego Schmid, Contos das Fadas (1893), Contos dos Irmãos Grimm (1926), As aventuras de Robinson Crusoé (Daniel Defoe), Aventuras de João Choppart (Luiz Desnoyers), História de um Bocadinho de Pão (provavelmente traduzido por Visconde de Taunay), A Novena da candelária (Carlos Nodier), entre outros.

Dos catálogos da Laemmert estão expostos títulos que circulavam pela Europa como Contos selectos das mil e uma noites, que tem prefácio de Machado de Assis. Também foram selecionados exemplares de obras que foram lidas por Lobato, como Aventuras do Barão de Munchhausen e o já citado Robinson Crusoé.

Estão expostas ainda versões em alemão de Crusoé, Don Quixote e Gulliver, todos da editora Thiennemans, que possibilitam a comparação entre a edição alemã e a que circulava no Brasil, sem distinção no cuidado com o acabamento gráfico.

No centro da exposição está uma vitrine com a coleção Thesouro da Juventude, com exemplares que ajudam a entender a origem da coleção e como ela chegou ao Brasil. Conforme explica Gabriela Pellegrino, que tem um projeto de pesquisa apoiado pelo CNPq sobre a Thesouro da Juventude nas Américas, essa coleção surgiu na Inglaterra, foi muito lida nos Estados Unidos e, além de um conteúdo científico, ela incorpora um conceito de enciclopédia.

Como não poderia deixar de ser, há uma vitrine dedicada exclusivamente a Jules Verne: um exemplar de 1879 de Grandes Viagens e dos Grandes ViajantesOs filhos do capitão GrantDa Terra à LuaDescobrimento prodigiosoVolta ao Mundo em 80 dias e Vinte mil léguas submarinas.

Livros divertidos

Muitas das obras expostas usam a fórmula “instruem enquanto divertem” e outras, de muito sucesso, fogem do padrão de livros com moralidades, repletos de bons exemplos e doçura e retratam crianças nada boazinhas, obedientes e piedosas. É o caso de João Felpudo, escrito pelo médico Heirinch Hoffmann para seu filho de três anos. Lançado na Alemanha em 1844, ficou conhecido como o livro predileto de meninos e de meninas. Chegou ao Brasil pela Laemmert em 1860, e por aqui também fez muito sucesso.

Essa data foi descoberta por Raffaini enquanto pesquisava jornais antigos e encontrou um anúncio publicado na edição de 4 de dezembro de 1860 do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, que dizia: “João Felpudo – Histórias alegres para crianças travessas com vinte e quatro pinturas esquisitas”.

O anúncio de lançamento revelou que, ao contrário do que dizia a bibliografia, a tradução não era de 1890 nem de Olavo Bilac e, sim, de 1860 e do desembargador Henrique Velloso de Oliveira. Outra curiosidade é que na tradução literal do alemão o nome Der Struwwelpeter seria Pedro descabelado. Raffaini acredita que o Brasil seja o único país que trocou o nome original para João, para evitar associar o nome do imperador com o de um menino controverso.

Obras nacionais

Entre os destaques brasileiros estão exemplares da coleção de José Mindlin das revistas para crianças O Tico Tico, publicadas de 1905 a 1950, que traziam contos, narrativas sobre ciência, brinquedos de papel para recortar e histórias ilustradas, chamadas posteriormente de quadrinhos.

Da coleção de Mindlin também estão expostos quatro exemplares das primeiras edições de Lobato dos anos 1920: Jeca TatuzinhoFábulas,Narizinho arrebitado e a versão fac-similar de Narizinho arrebitado na edição escolar.

Outros escritores brasileiros estão representados na vitrine que reúne obras publicadas pela editora Francisco Alves, que era mais voltada ao mercado escolar.

“Havia uma linha tênue entre a literatura escolar e a literatura infantil. Na verdade, todos desejam vender para escolas, mas a Francisco Alves reunia parte da intelectualidade brasileira que estava preocupada com a formação da Nação e da identidade nacional, identificada em títulos como contos pátrios, e obras que exibiam a bandeira nacional na capa, por exemplo”, disse Raffaini.

Os visitantes poderão ver obras como Álbum das Crianças (Figueiredo Pimentel), Era uma vez (Julia Lopes de Almeida), Era uma vez (Viriato Correa e João do Rio), Juca e Chico (Olavo Bilac), Theatro Infantil (Olavo Bilac e Coelho Netto), Histórias do reino encantado (Grimaldi), Contos infantis em verso e prosa e Galleria pittoresca dos homens célebres de todas as nações e épocas.

A curadoria também quis estabelecer uma relação entre obras iniciais de Lobato, incluindo traduções e adaptações feitas por ele com obras que eram alvos de sua crítica como as que compunham a chamada Biblioteca Infantil, da editora Melhoramentos.

Segundo as pesquisadoras, eram adaptações bem simplificadoras de contos de fada, fábulas, entre outros. Essa coleção está representada na exposição por diversos livrinhos, com destaque para uma versão fac-similar do Patinho feio, de 1915.

“Acredito que pode haver um estranhamento por parte das crianças em relação aos temas, às ilustrações, talvez haja uma sensação de distância temporal, mas também de aproximação com a identificação com os almanaques e histórias em quadrinhos e uma percepção de que histórias de personagens como Gulliver estão ali, em livros de capas formais, mas também estão no cinema e continuam sendo contadas em outros formatos”, disse Raffaini.

Território imaginário

Para as pesquisadoras, os livros para crianças delimitam um território imaginário onde adultos e crianças podem jogar juntos. É claro que cada idade tem uma recepção da obra. O conhecimento e as experiências pelas quais já passou o adulto faz com que a recepção de um e outro sejam diferentes.

Mas a recepção de um não é melhor do que a do outro, são somente diferentes. A criança ao ler se entrega ao jogo de forma muito mais plena que o adulto, enquanto o adulto consegue manter distância do que está lendo. No entanto, o próprio objeto material, o livro, coloca crianças e adultos em contato próximo.

A leitura entre gerações possibilita que os livros sejam apreendidos pela audição, pela visão e pelo tato. Mesmo que alguns livros infantis não tenham grandes ambições estéticas eles possuem o mérito de oferecer um grande prazer ao leitor.

“A exposição é uma forma de recompor o que era o repertório cultural daquele período, quais eram os temas, as narrativas, quais eram os suportes. Há elementos importantes na exposição para perceber que conteúdos imaginários eram esses com os quais as pessoas se nutriam”, disse Pellegrino.

LIVROS INFANTIS VELHOS E ESQUECIDOS
Data
: até 30/10
Horário: segunda a sexta-feira, das 8h30 às 18h30
Local: Biblioteca Brasiliana Guita e José  Mindlin (BBM)
Endereço: Rua da Biblioteca, sem número, Cidade Universitária, USP, próximo ao prédio da Faculdade de História
Entrada gratuita
Monitoria: agendamento pelo e-mail educativo@bbm.usp.br
Mais informações no site ou pelo telefone 2648-0310

*Texto publicado originalmente em 03/10/2017 no site da Agência Fapesp de Notícias

Ilustração: Dirigível caça moscas n.1, de O’Galop, editora Garnier

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