Livrai-nos de todo o E.V.A.!


As crianças estão permanentemente atentas a todos os detalhes ao seu redor. Elas prestam atenção em nossos gestos, movimentos, palavras, expressões. Da mesma maneira, observam os espaços: o que tem ali? Como está organizado? Como as pessoas criam relações naquele lugar?

E, muito mais que momentos pra ser ensinada, como se ela não fosse capaz de perceber o mundo por si mesma, a criança precisa ter bons espaços para viver, se relacionar, experimentar. E a partir da relação com o local onde está, aprender tudo sobre pessoas, sobre o ambiente, sobre o mundo, enfim!

Sendo assim, a importância da presença de seres vivos não humanos nos espaços de aprendizagem fica evidente. Muitos educadores nos procuram nessa época de volta às aulas com a pergunta: “como vou decorar a sala sem E.V.A.?”

Pra quem não sabe, E.V.A. é a sigla para etileno acetato de vinila, espuma sintética produzida a partir de um copolímero termoplástico, proveniente de petroquímicos, que está muito presente em espaços para crianças espalhados por aí: salas de aula e buffets infantis, entre eles. Aparece na forma de letras, personagens e figuras geométricas, colocado nas paredes, cobrindo o chão, ou até em brinquedos.

Esse material está tão presente na vida das crianças que, para muitas pessoas, uma sala repleta de E.V.A . de todas as cores é imprescindível para criar um ambiente adequado para que elas possam brincar. Mas esse pensamento segue na contramão do que acreditamos.

Não esqueçamos que o mundo que as crianças vão explorar e conhecer é o mundo que apresentamos para elas. E, nós, Rita e Ana Carol, do Ser Criança é Natural, acreditamos que as crianças só terão um desenvolvimento pleno se puderem conhecer o mundo real, vivo, diverso, potente de criatividade e cheio de possibilidades. E é essencial que as crianças experimentem esse mundo.

Só que isso nunca vai acontecer se, para os educadores, um único material proveniente de petroquímicos, muito pobre em texturas, temperaturas, cores. Se o E.V.A., for sua principal referência. Se prestarmos bem atenção, há muito pouco para aprender com esse tipo de material: não há o que intuir a partir do contato com ele, tudo é extremamente reduzida se comparada com materiais naturais, provenientes de florestas, bosques e jardins.

Um espaço para crianças é aquele em que ela se sente segura, ao mesmo tempo que instigada para experimentá-lo. E não é “espumando” tudo, que isso vai acontecer.

Por isso, ter materiais naturais à disposição é a garantia que se pode ter de apresentar às crianças a diversidade. Na natureza, mesmo elementos com características semelhantes são únicos. Quer ver? Você já parou pra coletar gravetos? Não é difícil observar que cada um tem uma forma, uma cor, marcas, tudo que o torna singular… e, mesmo assim, não deixam de ser gravetos, todos. E é assim que as crianças têm acesso a um mundo diverso.

É bem possível que, um dos argumentos que sustentam a preferência pelos materiais sintéticos, seja de que eles são estáveis, demoram muito para envelhecer e perder a forma e a cor. Por isso mesmo é que eles são mais pobres para a aprendizagem.

Um ambiente cheio de folhas, gravetos, palhas, sementes e terra é permanentemente mutante, está sempre se transformando, mudando a textura e a cor a cada dia. Desenvolver a sensibilidade pra perceber a dinâmica desses elementos com todos os componentes do ambiente – ar, solo, umidade -, é fundamental para que as crianças cresçam conectadas com os processos que acontecem em seu próprio corpo e no mundo ao redor.

Tudo está sempre se transformando e poder aprender a partir dessa condição, que é a condição de estarmos vivos, amplia o potencial de crescer com um vasto repertório sobre o mundo, e poder articular essas aprendizagens com os desafios de cada fase da vida.

Abrir mão do E.V.A. e optar pelos ambientes naturais é ampliar um imenso campo de criação e pesquisa. Buscar outras possibilidades amplia o repertório das crianças e também do educador, que certamente, a partir dessa experiência, vai se tornar mais inquieto e buscar sempre outros materiais, verificar o que está disponível: que cores, que texturas e que formas podemos escolher? Como vamos integrá-las? Como estimular as crianças para criar com esses materiais? Que mundo diferente é esse em que as crianças são livres para entrar em contato com essa diversidade de materiais que a natureza oferece?

É preciso parar de artificializar os espaços da infância e garantir que elas tenham direito ao mundo inteiro.

Foto: Renata Stort

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

3 comentários em “Livrai-nos de todo o E.V.A.!

  • 15 de fevereiro de 2019 em 10:33 AM
    Permalink

    Crianças de antigamente, mesmo sem celular, eram mais sábias. Algumas até sabiam o nome do passarinho, quando o ouviam cantar. Não tinham medo de barata nem de lagartixa e respeitavam o espaço delas quando caminhavam. Apreciavam a trilha das formigas matutando de onde vinham e para onde iam,trabalhadeiras e apressadas carregadas com mochilas de folhas. Subiam nas árvores para chupar manga e desciam dela, ágeis e sem medo como se nascessem sabendo fazer isso. Sabiam sim. Quando brincavam de cirandinha, adultos cantavam com elas, lembrando de quando eram crianças também. A começar pelas fraldas de pano que as mamães lavavam sem nojo, branqueavam e embandeiravam nos varais dos quintais ensolarados, como troféus aos maternais cuidados, crianças de antigamente que não usavam fraldas descartáveis e andavam descalças, também não descartavam seus brinquedos porque amavam eles e, mesmo quando quebravam, se agarravam a eles, recusando-se a trocá-los. Quando chegavam, eufóricas, das brincadeiras, se alimentavam mais e dormiam melhor, coradas e felizes, após acumularem em si próprias todas as riquezas depois de haverem vivido todos os seus sonhos.

    Resposta
  • 15 de fevereiro de 2019 em 11:24 AM
    Permalink

    Excelente artigo! Parabéns pela lucidez e perfeita colocação dos argumentos.
    É lamentável a artificializacão dos ambientes urbanos, desde o jardim da infância repleto de EVA, ao shopping center climatizado e sonorizado, onde não se sabe se é dia ou noite, passando pelas cápsulas metálicas de deslocamento familiar, também conhecidas como “carros”, e pelos dispositivos móveis de entretenimento, que virtualizam o universo de crianças e jovens.
    Educação, mobilidade urbana, convivência física, meio ambiente e outros aspectos são preteridos das listas de opções oferecidas à população, quando as próprias mídias propagam a esterilização dos ambientes.
    As visões econômicas se sobrepõem às sociais e, por conseguinte, às naturais.
    A pergunta é: A QUEM INTERESSA??

    Resposta
    • 14 de março de 2019 em 8:14 AM
      Permalink

      Vc nao vai no shopping? Nao tem dispositivo móvel de entretenimento e comunicação? Não usa ar condicionado neste inferno de calor? Não anda em cápsulas metálicas de deslocamento familiar? FALA SÉRIO!!! O que eu acho e que o excesso e o mal da sociedade… Crianças o dia todo com o celular ou tablet na mão, crianças confinadas o dia todo em salas de aula, sem contato com a terra, sem brincar com água, sem liberdade. As coisas precisam ser mediadas e nao condenadas.
      O Eva em questão é um eceleexce material, porém o excesso na sua utilização é o problema. De alguns anos pra cá só se usa EVA pra tudo! Tapetes de Eva, são uma ótima solucão para pisos frios e isso não vai de forma alguma influenciar no desenvolvimento da criança, mas tbm nao precisa forrar a casa toda com ele.
      Criança tem que conviver com outras crianças, tem que brincar na terra, subir em árvores, se apropriar do mundo que os rodeia e tbm ter acesso a tecnologias, pq não? Na medida certa! Sem atropelar e nem limitar o seu desenvolvimento.

      Resposta

Deixe uma resposta