Lideranças indígenas vão à Europa para denunciar o governo Bolsonaro

De 17 de outubro a 20 de novembro, comitiva formada por sete líderes indígenas visitará 18 cidades de 12 países europeus para encontrar autoridades políticas, ativistas e outras lideranças e denunciar graves violações contra os direitos dos povos indígenas e o meio ambiente desde o início deste ano, quando Bolsonaro tomou posse como presidente.

O Vaticano será a primeira parada do grupo formado por Sônia Guajajara (coordenadora da APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), Dinaman Tuxá, Angela Kaxuyana (na parte de cima da foto que ilustra este post), Elizeu Guarani Kaiowá, Célia Xakriabá, Kretã Kaingang e Alberto Terena (na parte de baixo da foto). Eles foram escolhidos para representar todos os povos indígenas brasileiros nesta jornada. No Vaticano, vão conversar com o Papa Francisco e falar no Sínodo dos Bispos pela Amazônia, que começou em 6 de outubro com declarações do pontífice que pediu “respeito à cultura indígena e rejeitou ‘colonizações ideológicas’ destrutivas ou redutoras”.

Em seguida, os integrantes desta jornada linda vão para Roma,Turim e Bolonha (Itália, de 18 a 23/10), Berlim e Munique (Alemanha, 23 a 27), Estocolmo (Suécia, 26 a 28)), Oslo (Noruega, 27 a 29), Amsterdam (Holanda, 29 a 31), Bruxelas (Bélgica, 3 a 6/11), Genebra e Berna (Suíça, 6 a 10), Paris (França, 10 a 13), Porto (Portugal), Londres (Inglaterra, 13 a 17) e Barcelona, Madri e Valença (Espanha, 17 a 20), onde se encontrarão com ativistas, ambientalistas, artistas, empresários, autoridades e lideranças políticas, membros do alto comissariado de órgãos de cooperação internacional e de tribunais internacionais.

Diálogo, pressão, denúncia, conscientização

Organizada e realizada pela APIB, em parceria com organizações da sociedade civil, esta jornada recebe o nome da campanha Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais, lançada em janeiro deste ano com diversas mobilizações pelo país e pelo mundo. Eles querem promover diálogos e realizar ações de impacto junto à comunidade europeia para mostrar a trágica realidade que o Brasil vive com o governo de Bolsonaro. No final deste post, assista ao vídeo lindo da campanha produzido por Mídia Ninja e Design Ativista.

Na pauta, informações detalhadas a respeito do desmatamento, dos incêndios florestais, de conflitos provocados por invasores de terras, a estagnação e o retrocesso das demarcações, os planos do governo para ocupar terras indígenas para produção, sem autorização dos mesmos. Eles querem mostrar que a maior parte dos produtos brasileiros importados tem origem em áreas de conflitos e em terras indígenas. Ou seja, carregam muito sangue e dor dos povos tradicionais.

Em parceria com a ONG Amazon Watch, a APIB produziu o relatório Cumplicidade na Destruição – Como Consumidores e Financiadores do Norte permitem o ataque do governo Bolsonaro à Amazônia brasileira.

O documento reúne informações que comprovam que corporações europeias e norte-americanas – como madeireiras e bancos, entre outrosfinanciam a devastação da Amazônia.

O estudo focou nas empresas brasileiras que cometeram crimes ambientais na Amazônia e foram multadas, desde 2017. Durante a pesquisa, foram identificados interesses comerciais de países do Norte nesse tipo de negócio – sem nenhuma preocupação ambiental ou social – e denúncias contra empresas que operam em áreas de conflitos e extraem recursos de territórios indígenas, sem lei.

A comitiva também estará munido com o relatório sobre violência contra os povos indígenas produzido pelo CIMI – Conselho Missionário Indigenista, que será apresentado hoje (11/10) durante o Sínodo pela Amazônia. O mesmo documento foi entregue à Alta Comissária da ONU, em março deste ano.

Nele, o CIMI denuncia que, entre janeiro e setembro deste ano, aconteceram 160 invasões de madeireiros e garimpeiros em terras indígenas, o que representa aumento de 44% em relação a todo o ano de 2018.

Para a APIB, não há mais tempo a perder. O genocídio dos povos indígenas no Brasil está em curso. Este é o momento para ampliar a visibilidade desta realidade ameaça a sobrevivência dos povos da floresta e a vida do planeta. As vozes desses povos estão começando a ser mais ouvidas justamente por por conta dos ataques declarados de Bolsonaro e de seu governo, em qualquer ocasião. Essas atitudes inconsequentes têm contribuído para aumentar a indignação do mundo – só lembrar de seu discurso na ONU, em setembro.

E não podemos esquecer que o cacique Kayapó Raoni Metuktire tem contribuído, há anos, para essa consciência. Ele esteve recentemente na Europa para pedir ajuda para implementar mais segurança e proteção na Terra Indígena do Xingu e denunciou Bolsonaro. Por isso, tem sido tão atacado pelo presidente.

Agora, é urgente uma campanha de articulação e de comunicação no exterior, uma campanha de diálogo, pressão, denúncia, divulgação e conscientização sobre o contexto em que os povos indígenas vivem no Brasil, para sensibilizar ainda mais os governos e os importadores dos produtores brasileiros no continente europeu. O boicote ao Brasil já começou, sabemos – marcas internacionais suspenderam compra de couro da Amazônia e rede sueca de supermercados boicotou produtos brasileiros por causa do excesso de agrotóxicos – mas essa reação precisa ganhar corpo. Os povos indígenas precisam de aliados em sua luta, de fato.

Em nota, a APIB destaca também que continuará pressionando o governo brasileiro e as empresas do agronegócio para que cumpram os acordos internacionais sobre mudança do clima e direitos humanos dos quais o país ainda é signatário, tais como a Declaração Universal sobre Direitos dos Povos Indígenas (ONU), de 2007 (aqui, a íntegra do documento), o Acordo de Paris e a Convenção 169 (Organização Internacional do Trabalho – OIT), entre outros.

Acompanhe e apoie a Jornada

Uma viagem de 35 dias com sete lideres indigenas e uma equipe de apoio, por mais econômica que seja, tem custos. Por isso, a APIB está divulgando sua campanha periódica de crowdfunding no site Vakinha. A meta é de R$ 300 mil, mas qualquer valor é bem vindo para ajudar nesta viagem e em outras iniciativas, claro!

Em sua página no Facebook e em seu perfil no Instagram, a APIB divulgará o dia a dia da Jornada Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais. Acompanhe, divulgue, espalhe.

A luta dos povos indígenas é de todos nós.


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Fotos: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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