Leite e fralda para uma alma

Madeira sob imitação de xilogravura. Com camada de gesso para dar textura e variar a cor. Para respirar na vírgula, tem que ter cabo de pincel e ar. Para gotejar do céu tem que ter mar. Para folha orvalhar também. Para o chão se espraiar se for em sua suja sola, em indigna mola, haja amortecedor aparador do ar entre essas grandes frestas e arestas pesadas de injustiça e desigualdade. Não hão de descansar em assento falso, desequilibrante, que não despenca nem no inferno de Dante.

Ah, os omissos. Pingam aqui, ali. São aquelas criaturas que o inferno e até Deus desprezou e que terão, como castigo, permanecerem nuas, sendo picadas por moscas e vespas durante toda vida eterna… Sei que não estou sendo terna. O que faremos na taverna da baderna perigosa do judiciário político, nem um pouco moroso quando o assunto é benesse, favorecimento e troca descarada? Que fraude. Enquanto isso, bebê sem fralda. Só com a alma. Sem leite, nem enfeite.  Só aceite.

Na Avenida Água Verde. Foi ali que ele me abordou, bem na esquina com a Castro, quase na frente de uma das trocentas farmácias que se espalham de quadra em quadra na região. Pertencem a quem aposta na população doente ou que vai ficar bem doente porque não anda duzentos metros para comprar as drogas. Ele, magrinho, também não me pareceu gozar daquela saúde. Bom… Se não tem dinheiro para comprar leite e fralda para o filho, isso mesmo leite e fralda, não acho que se alimente lá muito bem. Veio de bicicleta com esse quadro pendurado no ombro. Era uma porta de armário que achou numa caçamba qualquer. Uma outra porta como essa – ele me lembrou – pode estar, agora, atravancando mais lixo num rio da cidade. Ia dizer que essas malditas fraldas também. Ia comentar que as antigas fraldas de algodão eram melhores para o meio ambiente e para a pele do bebê.  Mas, quem sou eu, que nem filho tenho, para argumentar? Quem sou eu para querer que ele e a mulher não usufruam das maravilhas e comodidades da modernidade? E olha que ele me deu deixas. Já estava com um pacote de fraldas na mão, mas disse que precisava trocar porque a marca da farmácia provocava alergia na criança.

Entre a indecisão de falar, a observação do quadro (por entre o plástico bolha que o protegia por causa do verniz molhado) e os cálculos para ver se aceitava um escambo entre a obra e uma lata de leite e um pacote de fralda, ele não precisou muito para me convencer. Deve estar na minha cara que eu gosto de arte, sou chata e dura, às vezes, mas tenho é um coração mole. Minhas resistências foram sendo comidas pelas beiradas, nas vírgulas silenciosas do discurso.

Fui gostando da obra devagar. Fiquei querendo tirar o plástico, mas ele me disse que só dois dias depois para poder secar o verniz. Engraçado como ele arranjou um jeito de esculpir não esculpindo a madeira ou esculpindo a seu modo, assim, no molinho, no suave, na massa. A obra que eu primeiro achei que queria ser uma xilo me ganhou. Talvez porque ela só queira ser ela. Ele inventou o símbolo com a intenção que transmita a paz. Mas… Diante de tudo, duvidei. Zaz… Acreditei. Jaz. O que a gente leva dessa vida? Troquei. Ele me recomendou sem muita convicção, que,  tirasse as dobradiças. Muito singela essa delicadeza que nasce do limbo em que o artista se vê ao se dobrar às concessões em relação à própria obra. Claro, não tirei. Talvez a dúvida nele tenha surgido porque eu perguntei se não iria precisar dos fios para por outras obras no ombro enquanto estivesse dirigindo a bicicleta.

Estou aqui pensando. Será que ele ficou sabendo que por essa região morava alguém que escrevia sobre arte? Teria visto algum texto? Não sei… Só sei que uns minutos depois eu, atrasada, já estava na farmácia comprando uma lata de leite por vinte e cinco reais e um pacote de fralda por um preço parecido.

Se eu tivesse filho, provavelmente estaria gastando sola na rua, trocando texto poético por alguma necessidade. O simpático moço do caixa dividiu minha compra em duas vezes e saímos, o artista de rua Leandro Silva Dias e eu, a pé, em direção à casa de uma amiga que me daria carona para os sambas de coco. Por uma outra graça vinda da cultura, quatro espetáculos aconteceram na cidade a semana toda para aliviar a ressaca da eleição.

Como é lindo o resgate que os grupos fazem. Quando os pescadores da praia do Iguape, no Ceará, entram no palco descalços com suas roupas tingidas pela casca do cajueiro azedo, contando o porquê da fruta ser escolhida, a gente se embasbaca com a sabedoria da tradição popular.

A roupa, feita com o mesmo tecido das velas das jangadas, é mergulhada nas cascas de caju cozidas e vão para o varal. Secam e voltam para o mergulho. E voltam para o varal. E vão para o mergulho… Quatro, cinco vezes. As propriedades da casca mais grossa do caju azedo  acabam conferindo resistência e impermeabilidade às roupas dos pescadores que precisam enfrentar chuva no mar.

No chapéu de palha impermeabilizado com tinta especial eles recolhem a água da chuva para poder beber durante o trabalho. “O samba do coco do Iguapé tem um andamento mais acelerado e uma dança mais pulada. A música tem refrões fixos, apresentados pelos mestres e tem também as chamadas estrofes emboladas, criadas no calor da brincadeira. A dança acontece em pares. Um de cada vez entra no meio da roda…”, diz o texto de divulgação.

Tenho mais histórias de outros grupos de samba de coco, mas vou deixar para outra oportunidade, assim a gente viaja aos pouquinhos nas culturas que resistem. Elas serão o meu e se você quiser, nosso exemplo para resistir nos próximos anos. A nossa porta de resistência tem vários jeitos, sotaques, cores e formas. É diversa como a vida que não pode ser encaixotada dentro de ideias concebidas no chão falso da falta de conhecimento e compreensão do ser humano.

Como não ficar atento ao outro lado, ao que não se vê, ao que não se diz. No avesso da obra, pesca-se a natureza do material lixo que vira outra ideia, que desengessa o caminho e chega, com trabalho e vontade, ao céu que pode despencar numa chuva de diamantes. Ninguém tem um nome com essas iniciais à toa.

Fotos: arquivo pessoal 

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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