Legado das Águas: maior reserva privada de Mata Atlântica, é exemplo de biodiversidade e conservação

Conheci o Legado das Águas em 2014. Uma reserva privada quase do tamanho de Curitiba, com mais de 31 mil hectares de pura Mata Atlântica, que fica no Vale do Ribeira, sul do estado de São Paulo, entre as cidades de Juquiá, Miracatu e Tapiraí. Ele guarda cerca de 1,5% dos 9% que ainda restam desse bioma no estado.

Mais do que uma área de proteção da água na região, é “um território raro e em estágio avançado de conservação”. É como uma continuidade do Parque Estadual do Jurupará e de outras unidades de conservação, com os quais forma “um extenso e importante corredor ecológico entre o interior e o litoral do Estado”, como está apresentado em seu site.

Dá pra ver parte da imensidão dessa área pela foto da abertura deste post – de autoria de Luciano Candisani, que registra a biodiversidade do Legado das Águas desde 2012 –, mas, quando me encantei com a reserva, conheci apenas um pedacinho dessa riqueza natural. Ela me foi revelada pelas trilhas, pela paisagem que cercava os alojamentos (lembro da quantidade infinita de aves que por lá passavam), pelos trechos do rio Juquiá por onde passeei de barco, e em partes da mata reveladas pelo caminho, na estrada que corta a reserva.

Destaco, aqui, que, para reunir e disseminar o resultado do trabalho de pesquisa e documentação desenvolvido no Legado, Candisani criou o projeto Floresta Viva sobre o qual já falamos, aqui, no Conexão Planeta, em 2015.

Lá, no Legado das Águas, vi que é mais que viável conciliar conservação e desenvolvimento, visto que a reserva é mantida por uma empresa, que visa lucro, sim, mas entende que precisa da mata para manter sua perenidade. Isso está em seu “DNA”, desde o início de sua história, com Antonio Ermírio de Moraes, há mais de 50 anos.

Ele sabia que, sem água, nada feito. Precisava de água para criar uma usina hidrelétrica e gerar energia para sua fábrica. Mas quando a herdou, a degradação em seu entorno era gigante. Comprou todas as terras à volta – alguns lotes, mais de uma vez! -, cercou tudo e deixou a floresta voltar. Com ela, voltaram os bichos, o equilíbrio, o ecossistema se recompôs.

É o que a gente vê ao passear por lá a pé, de carro, de barco… Imagina de helicóptero ou avião! O fotógrafo Luciano Candisani, já sobrevoou a região algumas vezes (a foto que abre este post foi feita em uma dessas viagens) e conta que é incrível ver o corredor de Mata Atlântica que se formou com a preservação dessa área. Abaixo, prainha no Rio Juruá.

Ali, a biodiversidade é pulsante, exuberante, rica. Sim, a mata foi preservada para produzir a água necessária para manter o negócio. Mas essa é a água que também abastece a região – as três cidades que citei no início deste post. Sem falar da energia que as abastece também. Mas não para por aí.

A sustentabilidade também está no envolvimento do Legado com as comunidades, que envolve capacitação e contratação de funcionários, aplicação de projetos sociais e de educação ambiental, sem a mínima sombra de assistencialismo. Também se revela na parceria científica que mantém com mais de 50 instituições e iniciativas (como o Instituto Pró-Carnívoros e o Instituto Manacá), universidades e pesquisadores.

Aquele é o ambiente perfeito para se estudar a flora e a fauna desse bioma, sem dúvida. De tão preservado, ali já foram encontradas espécies de topo da cadeia alimentar (como a onça parda – olha só a foto belíssima de Candisani, abaixo – e a onça pintada), como também espécies raras (a anta albina, também fotografada por Candisani, veja logo depois da onça), ameaçadas de extinção (cachorro-vinagre) e espécies já julgadas extintas (como a borboleta Godartiana byses).

A volta ao Legado

De 2014 pra cá, tenho acompanhado as ações dessa iniciativa, de longe. Mas, no último fim de semana (19 e 20/5), fui ver e ouvir sobre as transformações e as novidades de perto, além de rever a beleza comovente desse lugar. Voltei ao Legado das Águas a convite de Candisani e de Frineia Rezende, gerente de sustentabilidade e responsável pela gestão da reserva.

Fiz parte de um grupo muito diverso, formado por jornalistas (João Fellet, da BBC, e Daniela Chiaretti, do Valor Econômico), um biólogo (Thiago Telatin Tognolo, mais conhecido como Fogo, e que animou os dias com seu humor delicioso), uma especialista em Mata Atlântica e oceanos que trabalha na WWF (Ana Carolina Lobo), empresários engajados (Alex Seibion, da Positiva, que fabrica produtos de limpeza veganos, Francine H. Leal Franco e Paulo Zanardi, da GSS, consultoria em direito ambiental, e Álvaro Almeida, do evento Sustainable Brands), um educador/especialista em plantas, árvores e hortas, que em breve vai lançar um curso online sobre abelhas sem ferrão (Renato Suelotto), um fotógrafo muito talentoso (Jésus Tadeu Lopes) e três documentaristas (Sylvio Rocha; que acaba de lançar série está produzindo série para o canal Love Nature além de João Daniel Donadelli, da produtora Crioula Câmera – ele registra tudo o que acontece no Legado, desde 2014 -, e Guilherme Haruotambém ecólogo, que cobriram o encontro). 

A natureza está ainda mais majestosa, claro. Os alojamentos foram reformados e a área onde fizemos todas as refeições ganhou um terraço gostoso para aproximar os visitantes das aves que habitam a mata do Legado e ali gorjeiam, gritam, causam um alvoroço maravilhoso. Prato cheio para os amantes de birdwatching. Para fotógrafos também. Imagine o que a gente registrou com nossos celulares!! Fiz a foto abaixo durante um dos cafés da manhã.  Delícia de companhia! As maritacas não paravam de comer banana e de gritar. Mas não foram só elas que apareceram, claro.

Com o objetivo de promover cada vez mais as espécies de plantas da Mata Atlântica, o Legado criou um viveiro super bem organizado – com “maternidade” e uma Casa de Sementes –, que está sob a coordenação (recente) de Silas César.

Para dar mais vida ao telhado do viveiro, Frineia chamou o paisagista Ricardo Cardim, que criou uma parede verde com frutíferas (moranguinho silvestre, entre elas), ao lado da escada, e uma exuberante Floresta de Bolso, ideia genial sobre a qual já contei aqui, no Conexão, em 2016. Na foto que fiz, abaixo, flagrei a jornalista Paulina Chamorro, que coordena as redes sociais do Legado, admirando os morangos.

Também foi criado um orquidário lindo, ao lado do viveiro – que, entre inúmeras mudas, guarda uma espécie centenária e outras raríssimas –, em parceria com o especialista Luciano Zandoná, que já escreveu, aqui, no Conexão Planeta sobre o risco de extinção dessa espécie e ministra anualmente, no Legado, um curso muito bacana, de três dias.

Ele conta com o apoio precioso do técnico de campo Miguel Flores de Jesus, morador da região, que entende muito das plantas e dos bichos do Legado. Ter sua companhia nas trilhas é uma benção porque você pode perguntar tudo.

Em suas andanças pela mata, Zandoná e Miguel recolhem espécies de orquídeas mais raras encontradas caídas pelo caminho, para tratá-las no orquidário e devolvê-las recuperadas à natureza.

 

A pesquisa científica cresceu. As espécies de animais que circulam pelo Legado também. A onça pintada é descoberta recente. O Instituto Manacá, dirigido pela pesquisadora Mariana Landis, está lá estudando e acompanhando as antas desde 2016. Ela fala com um carinho tão gigante sobre essa espécie, que conseguiu fazer alguns convidados mudarem de ideia sobre a expedição noturna que acompanhariam no sábado.

Visitar a pedreira e seu charco para observar e fotografar cobras e sapos na companhia de Candisani fazia parte do programa. Mas metade do grupo escolheu acompanhar Mariana na observação de antas. Não encontraram nenhuma pelo caminho, mas se divertiram muito e aprenderam outro tanto sobre esta que é a jardineira das florestas.

Meu grupo também mergulhou no passeio com Candisani e Thiago, “nosso” divertido e compenetrado biólogo. Num breu danado e ao som do coachar delicioso de sapos e pererecas, ele nos mostrou algumas espécies, comentando especificidades, entre elas o sapo Cururú (deu logo vontade de cantar a música… e olha ele abaixo) e a Pererequinha do Brejo.

Nessa noite, o documentarista Sylvio também se revelou um ótimo caçador de pererecas e o fotógrafo Jésus fez uma foto incrível da paisagem, na companhia de Candisani. Os dois miraram quase a mesma cena. Este é o registro de Jésus:

A imagem feita por Candisani está abaixo e foi publicada por ele, em sua página no Facebook com esta legenda sensível:

“Nos últimos dois dias tive o privilégio de compartilhar meu trabalho no Legado das Águas – Reserva Votorantim com um seleto grupo de profissionais ligados à conservação ambiental e à economia criativa. Na foto, a saída noturna de ontem. Sob a luz das lanternas, no canto inferior esquerdo da imagem, caminhavam os autores de idéias e ações das mais positivas para a humanidade. Pairava uma coisa boa no ar”. 

Foi uma noite muito especial, realmente. Um presente este registro de um dos maiores fotógrafos de natureza do mundo. Que privilégio fazer parte dessa expedição!

Voltando às iniciativas do Legado… com foco no ecoturismo, mais trilhas foram abertas e, em breve, será lançado o projeto coordenado por Pietro Scarascia, do Instituto Manacá, com trilhas maiores que a Dezembro (2,5 km), a Figueira e a Cambuci: elas terão entre 8 e 22 km, com direito a acampamento no caso das caminhadas mais longas.

Em 2014, fiz as três trilhas originais, mas a Dezembro foi minha favorita  Voltei às três agora, mas esta não perdeu minha preferência, principalmente porque é a mais longa, que exige mais atenção, mais selvagem. Hoje, ela está manejada e é possível percorrê-la mais rapidamente, sem perder o encanto.

No caminho, além de inúmeras espécies de aves e uma flora exuberante, vimos alguns opiliões – aracnídeos – e um filhote de jararaca, dormindo. No final da trilha, o presente continua sendo uma linda cachoeira, que convida ao banho (na foto que reproduzo abaixo, dá pra ver um pouco dessa lindeza).

Pena que estava muito frio para um banho. Quer dizer… o cinegrafista João Daniel e o biólogo Thiago não se intimidaram com o frio e se sentiram inspirados quando subimos para um outro nível da cachoeira, veja só…

Essas atividades trarão mais público pra dentro da reserva, assim como acontece com os passeios de bike e o programa Legado Experience, que promove visitações de um dia. E tem mais: perto de uma figueira gigante, de mais de 200 anos, talvez a mais alta do Legado – que abracei muito na minha primeira visita, há quatro anos.

Na entrada para a passarela que leva à ela, foi instalado um Jardim Sensorial, com inúmeras plantas e um caminho com texturas diferenciadas. Fri contou que criou esse projeto de inclusão para pessoas com necessidades especiais inspirada por um amigo cego. “Durante uma viagem, ele me pediu que descrevesse o que eu via. Fiquei tocada”. Ficamos, ali, um tempo, apreciando as espécies escolhidas para a experiência e ouvindo informações curiosas sobre algumas delas.

Seguimos, então, pela rampa que dá acesso à passarela que circunda a figueira. Agora, não é mais possível vê-la de baixo e sentar em suas majestosas raízes, mas a experiência de passear a seu lado, em outra altura, é sensacional. Chegamos lá no final da tarde, portanto, já estava meio escuro. A visita rendeu fotos interessantes iluminadas pelas lanternas de alguns colegas de expedição.

Paraíso na Terra

Como já contei, o Legado mantém mais de 50 parcerias com instituições e iniciativas que “realizam projetos e geram informações e conhecimento público sobre a Mata Atlântica”. Em sua área, já foram identificadas mais de 765 espécies de plantas, além de animais que indicam o alto grau de conservação ambiental da reserva, São eles: o macaco-muriqui , o maior das Américas, a onça-parda, o cachorro-vinagre e a raríssima anta albina, “a única encontrada em seu ambiente natural no mundo”, segundo o site do Legado.

E a gente não pode esquecer que a Mata Atlântica é um dos biomas mais ameaçados do país (ao lado da Caatinga) e o que possui a maior biodiversidade do mundo. Dá pra entender a dimensão da importância do Legado das Águas para a região onde está localizado e para o estado de São Paulo?

Fotos: Luciano Candisani (imagem que abre este post, da onça parda, da anta albina e da expedição noturna, na pedreira); Jésus Lopes (expedição noturna à pedreira); Paulina Chamorro (orquidário); as demais são de minha autoria

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Um comentário em “Legado das Águas: maior reserva privada de Mata Atlântica, é exemplo de biodiversidade e conservação

  • 23 de maio de 2018 em 4:44 PM
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    Monica, uma delícia seu relato do Legado das Águas. Que vontade enorme tive de estar com vocês nessa empreitada. Vou sim visitar assim que possivel essa maravilha de lugar com tantos atrativos e de tanta importância pra vida da nossa tão ameaçada Mata Atlântica. Parabéns.

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