Lagarto recheado quando temos casa cheia

lagarto recheado

E, de repente, a casa está cheia.

E, então, o cardápio era lagarto recheado – que vinha sendo preparado há alguns dias, que cozinhou por algumas horas, desta vez, blindado de ataques caninos -, salada, arroz e purê de batata, torta de legumes, creme de mandioquinha. Comida de mãe, pra uma casa que logo estaria cheia de mães e avós, porque a avó do Theo não seria a única avó a jantar conosco.

– Posso levar a outra vó? – disse o enteado mais velho.
– Pra jantar?
– É.
– Claro!
A outra vó é a vó deles, mãe da ex-esposa do meu marido.

E ela veio, trouxe flores, trouxe carinho. Quis ver o quintal. Fomos até lá e ela comeu pitanga do pé, que ela adora.

Então, de repente, a casa cheia. Um jantar, quase festa: vô, vó, outra vó, a amiga da outra vó, o filho da outra vó, o enteado e a namorada, e as crianças amigas e as mães das crianças, amigas, se revezando em ajuda e degustação.

Na entradinha – queijo coalho com melado, algumas nozes, já nas mãos as taças de vinho – me reservei à cozinha para finalizar o jantar. Na sala, falavam de um passado que eu não vivi. Falavam dos netos da primeira safra.

Então, lagarto fatiado no forno, chamei os comensais. Ofereci, primeiro, um creme de mandioquinha quentinho. Chips de parma crocante sobre cada cumbuca pra todos, menos pra vó vegetariana.

Depois, a salada caprichada, o purê de batatas, o lagarto recheado (tão bonito quando se fatia, deixando ver o colorido do recheio, um rocambole), arroz branquinho e a torta de legumes. Jantamos. E conversamos muito assunto bom, que acalma a alma.
As recordações dos avós sobre a infância amorosa dos netos são histórias lindas de se ouvir. Avós têm amor expandido.

E tudo estava em harmonia: os temperos, o cardápio, a família de antes, a de agora. Tudo na mesma panela.

P. S: Lalita ficou muito bem comportada no quintal.
Só latiu quando viu o movimento da despedida.
Muito abraço, muita gratidão.

E foi assim que eu fiz o lagarto recheado para um jantar com duas sogras.

LAGARTO RECHEADO

INGREDIENTES

1 peça de lagarto – 1, 3 kg mais ou menos
200 g de fatias finas de bacon
200 g de linguiça toscana ou calabresa
100 g cebola
100 g de cenoura
salsinha a gosto
azeitona e pimenta (opcional)

Marinada
um copo de vinho tinto
1/2 copo de aceto balsâmico
folhas de louro
ramos de alecrim
pimenta do reino em grão

Tem duas maneiras de abrir o lagarto para o recheio.

Uma delas, cortando a peça ao meio, começando o corte pelo meio mesmo, sem rasgar as laterais. Coloca o recheio neste buraco.

A outra, mais trabalhosa, mas eu prefiro, é abrir o lagarto em manta. Imagine um cobertor ou uma toalha em rolinho. A carne vai ter que ficar assim depois do recheio. Então, temos que cortar a peça de modo a desdobrá-la. Um corte raso no meio da carne, de cima pra baixo, não profundo; gira a faca para a esquerda e vá girando, até embaixo, depois para a direita, esquerda, consecutivamente, desdobrando a carne, até que ela fique como se fosse um bife extenso.

Já, já, nós vamos amarrar esta carne recheada. Então, antes de abrir a carne sobre a bancada, corte pelo menos seis tiras de barbante culinário, na medida para amarrar o lagarto e deixe por perto. Aí, coloque a carne sobre a bancada e comece a rechear com as fatias de bacon, depois a linguiça. Se for usar toscana, refogue antes com cebola e alho. Se for a calabresa, é só fatiar – ou processar – e espalhar sobre a carne. E depois, cebola, cenoura e salsinha. Pode usar azeitona, se quiser. Eu sempre acrescento pimenta dedo de moça, sem semente.

Feito o recheio, enrole a carne, como se fosse um rocambole e amarre bem firme.

Coloque a carne na marinada e deixe em repouso por, pelo menos 12 horas na geladeira. Ela pode marinar até por 24 horas, fica melhor ainda. Não salgue. Tudo isto de tempero, dentro e fora, já vão dar um sabor muito bom pra esta receita.

Depois deste tempo, retire a carne da marinada. Reserve a marinada.

Aqueça um pouco de óleo numa panela de fundo grosso e sele a carne. 2 minutos de cada lado. Na hora de selar, aí, sim, pode usar um pouco de sal e alho. Depois de selar a carne, acrescente a marinada na panela. E ponha caldo de carne ou água até chegar à metade da altura do lagarto.

Tampe a panela, mantenha o fogo baixo e deixe cozinhar por 3 a 4 horas.

É. Leva tempo. Confira, neste longo intervalo, como está o caldo do cozimento. Regue a carne algumas vezes. Acrescente mais água se secar. Você pode fazer na panela de pressão, leva uns 40 minutos. Mas, ela pode desmanchar; não fica bonita como feito em cozimento lento. Não queremos ragu, certo?

Depois de cozida ( confira se está macia), retire da panela, deixe esfriar e só depois corte em fatias.

O caldo que ficou na panela vai virar molho. Se secou muito, acrescente água ou caldo de carne, descole o que ficou grudado no fundo. Esta “rapa”é muito gostosa e é o sabor do molho. Reduza este caldo até ficar numa consistência cremosa. Coe e reserve. Pode acrescentar um pouco de mostarda no molho. Ao seu gosto…

Na hora de servir, leve o lagarto já fatiado para o forno por 15 minutos, para aquecer. Regue com o molho e, bom apetite! Se sobrar, ainda vira sanduíche.

Foto: Mike Tinnion on unsplash 

Mulher de marido, mãe de filho, madrasta de enteados. Começou a carreira profissional vendendo pinga e pão com mortadela na venda dos pais, em Minas. Foi bancária, revisora de jornal, rádio escuta, repórter, editora e apresentadora de TV. Hoje é especializada em media training, com foco para entrevistas em TV e vídeo. Fez jornalismo na PUCCAMP, pós graduação em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas na USP e Análise do Discurso na PUC SP. Tudo isto sem tirar o pé da cozinha

Cássia Miguel

Mulher de marido, mãe de filho, madrasta de enteados. Começou a carreira profissional vendendo pinga e pão com mortadela na venda dos pais, em Minas. Foi bancária, revisora de jornal, rádio escuta, repórter, editora e apresentadora de TV. Hoje é especializada em media training, com foco para entrevistas em TV e vídeo. Fez jornalismo na PUCCAMP, pós graduação em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas na USP e Análise do Discurso na PUC SP. Tudo isto sem tirar o pé da cozinha

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