LAB Fantasma e Charlotte: uma bolsa e muita história

A relação entre moda e economia solidária não é nova. Eu já escrevi sobre isso aqui no blog. Vários estilistas já flertaram e ainda flertam com a produção de arte e artesanato solidários em suas coleções.

Na última edição da SP Fashion Week, semana de moda que reúne desfiles de várias marcas do país, uma bolsa chamou muito a minha atenção. Presente no desfile da LAB Fantasma, na coleção Avuá, a bolsa azul estampada em lona vinílica é resultado de uma parceria entre a LAB e o empreendimento Charlotte Brindes Sustentáveis.

Partiu de Daniela Gabriel, gerente de desenvolvimento de produto de moda e produção da LAB, a ideia de promover a aproximação: “Por ser a responsável pelas questões de desenvolvimento de produto na LAB, acabei fazendo a ponte entre marca e fornecedor. De qualquer forma, a marca tem um olhar humano e ético nas suas relações com parceiros e fornecedores, muito focado em sua filosofia, que é UBUNTU – que significa “Eu sou, porque nós somos”.

Daniela já conhecia o trabalho da Charlotte de um outro momento, quando trabalhava na Aliança Empreendedora. As peças, confeccionadas sob encomenda em grande parte das vezes, são produzidas a partir de reaproveitamento de longa vinílica e tecidos automotivos. Djenane Martins, a Nane, empreendedora da Charlotte, conta que Daniela se aproximou com o projeto de confeccionar uma bolsa em lona vinílica: “Como era necessária uma estampa exclusiva, enviamos a lona para uma gráfica digital e usamos cintos de segurança como alça. A bolsa ficou muito bonita, e quando Daniela nos disse que ela integraria um desfile da Fashion Week, ficamos paralisadas. E depois que descobrimos que era para a LAB Fantasma, do rapper Emicida, foi pra lacrar” define Nane.

“Eu conhecia o trabalho da Nane, feito todo em reciclagem de lona vinílica. Nunca tinha feito desenvolvimento de produto nesse material. Tínhamos uma demanda por conta do desfile e não conseguimos, nesse momento, usar a lona reciclada, até porque os processos de impressão se tornaram limitados. Fizemos então uma bolsa carteiro bem ampla para o desfile, de 50 cm de largura, 35 cm de altura e 15 cm de lateral, com estampa fullprint da coleção Avuá. O processo foi muito tranquilo. Passei a ficha técnica com os tamanhos e fomos discutindo algumas coisas sobre as dimensões no correr do trabalho. A parceria com a Charlotte foi bem bacana, e isso se vê refletido no resultado. A bolsa ficou linda e com ótimo acabamento”, define Daniela.

Embora já tenha trabalhado com grandes empresas, essa é a primeira vez que a Charlotte pisa o mundo da moda com uma grande grife. Para Nane, a experiência de ver seu produto em um evento tão grande e concorrido pelo público é motivo de muito orgulho e prova de que tudo é possível: “Para a economia solidária esse é um grande feito, pois ajuda a acabar com aquele estigma de que as pessoas que fazem a economia solidária são coitadinhas e trabalham por hobby. Somos trabalhadoras e trabalhadores que temos produtos muito bons, que podem estar em qualquer lugar. A cada dia conseguimos estar em mais destaque e mostrar que nossos empreendimentos podem atender a qualquer demanda de grandes empresas e grifes”, completa.

Para o desfile foram confeccionadas duas bolsas. Mas a Charlotte já está fazendo orçamento para a produção de uma quantidade maior: “Fizemos inicialmente uma quantidade mínima para atender a produção de moda do desfile e estamos no momento de entender a viabilidade comercial dessa peça, inclinados a desenvolver esse produto com foco em atender nossa demanda comercial”, diz Daniela.

Essa bolsa é do meu tamanho. Cabe o mundo e tem muitas histórias em cada costura.

Agora, pra quem quiser conhecer melhor a Nane e o trabalho da Charlotte, recomendo a leitura de um texto.

Abaixo, vídeo do desfile da coleção Avuá, da LAB Fantasma, no último Fashion Week SP.

Foto: divulgação LAB Fantasma

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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