Koko, a gorila treinada na linguagem dos sinais – e exemplo de empatia -, morre na Califórnia

Koko chegou a milhões de pessoas como embaixadora de todos os gorilas e um ícone de comunicação e empatia entre espécies. Ela foi amada e deixará saudades”. Este é um trecho do comunicado que a Gorila Foundation divulgou na última quinta, 20/6, após a morte da gorila – naturalmente, na terça, enquanto dormia -, que ficou conhecida no mundo todo por se comunicar com os humanos pela linguagem de sinais.”O impacto foi profundo e o que ela nos ensinou sobre a capacidade emocional dos gorilas e suas habilidades cognitivas continuará mudando o mundo”.

Ela vivia em uma espécie de refúgio nas montanhas de Santa Cruz, na Califórnia.

Koko nasceu em 4 de julho de 1971 no zoológico de São Francisco. E logo foi reconhecida por sua sua inteligência e habilidades. No ano seguinte, começou a ser treinada para se comunicar com seres humanos pela psicóloga Francine “Penny” Patterson (na foto acima) e June Moore, especialista em linguagem de sinais. E, assim, ela se transformou em embaixadora de sua espécie, ameaçada de extinção na África Central. Rapidamente, ela ainda revelou ser muito sensível.

“Koko assistia a filmes, mas se recusava a ver uma cena triste de novo como, por exemplo, quando um casal se despedia e a mulher chorava. Koko tinha mais empatia que muitos humanos”, conta José Sabino, biólogo e professor de Evolução e Comportamento Animal, na Uniderp, que também assina o blog Sapiens e Outros Bichos, aqui no Conexão Planeta. “Falo dela em minhas aulas para quebrar o falso estereótipo de que apenas humanos têm emoção e empatia. Sem falar em sua inteligência incomum”.

Seus cuidadores diziam que, além de se comunicar por sinais, Koko também entendia algumas palavras em inglês.

Por sua trajetória inusitada, foi protagonista em inúmeros documentários. Para a capa da National Geographic ela posou duas vezes. Para a de 1978, fez uma selfie na frente do espelho. Em 1985, voltou a ser estrela na revista, mas não sozinha: posou com All Ball, gato que escolheu como presente de aniversário (abaixo, uma das fotos feitas para registrar a ocasião).

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E suas peripécias não pararam por ai: em 1998, conversou com astronautas – com a ajuda de um intérprete – por meio de um chat. Esta certamente foi a primeira conversa via internet realizada entre espécies diferentes, de que se tem notícia.

A emotividade de Koko também chamava a atenção. E, assim, ensinou aos seres humanos sobre a capacidade afetiva dos gorilas. Reagiu com extrema sensibilidade em momentos marcantes. Quando seu gato morreu, expressou profunda tristeza numa conversa com sua treinadora, Patterson, gesticulando algumas palavras como tenho pesar e pranto relacionadas ao bichano.

Também ficou muito tocada quando o ator Robin Williams se suicidou, no ano passado. Eles se conheceram em 2001, durante evento da fundação, e logo se gostaram. Williams ficou tão emocionado que gravou vídeo com Koko para apoiar a causa da instituição. Ao saber da morte do amigo, por sua treinadora e “mãe adotiva”, se recolheu, ficou quieta e cabisbaixa. Chorou e disse isso por sinais.

No comunicado divulgado após a morte da gorila famosa e querida, a Fundação Gorila prometeu que honrará sua memória e “legado” com a construção de um santuário para gorilas no Havaí, em Maui, e também por meio de projetos de conservação da vida selvagem no continente africano.

A instituição ainda informou que pretende investir em um aplicativo para disseminar a linguagem de sinais, forma de comunicação que garantiu um relacionamento duradouro e muito amoroso entre Koko e todos os humanos que a conheceram. Era por meio desses sinais, também, que ela chamava a atenção dos visitantes do zoológico para que não dessem alimentos para os animais.

Empatia: muito além de se colocar no lugar do outro

Em conversa sobre Koko com José Sabino, ele ressaltou que no quesito empatia, é possível aprender muito com Koko.

“Desde o significado da capacidade de falar a frase “eu sei que é difícil, mas estou aqui para ajudar” e de ficar triste ou alegre, ou mesmo chorar equando via alguém em algumas dessas situações. A tal conexão que nos permite perceber os sentimentos dos outros, com motivação genuína para cuidar.

É uma das mais incríveis capacidades humanas, mas não só nossa, como demonstrou Koko (e outros gorilas). Existe um vídeo de uns dois ou três anos atrás, em que um macho alfa (sim, eles existem) cuida da travessia da família em uma estrada e ainda ensina um jovem gorila como se faz isso.

Assim, empatia vai além da capacidade de se colocar no lugar do outro: ela nos conecta com as pessoas (ou outros seres) sem preconceitos ou julgamentos rasos. Que as lições de Koko nos inspirem cada vez mais a sermos humanos – ou animais”.

Fotos: Divulgação/Gorilla Foundation

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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