Justiça falha, tarda, mas, finalmente, reconhece o assassino dos ambientalistas Maria e Zé Claudio

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O pecuarista José Rodrigues Moreira está foragido. Ele também e seu irmão Lindonjonson Silva, que executou José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo (foto), em 24 de maio de 2011, em Nova Ipixuna, no Pará, a seu mando. Ele foi absolvido no primeiro julgamento, em 2013, mas, ontem, em novo julgamento – com júri popular – foi considerado criminoso e, se encontrado, será preso.

Demorou cinco anos para que a justiça fosse feita. Demorou, mas chegou o dia! Claro que a sentença não alia a dor da ausência, a dor da violência, da mesquinhez, nem trará o casal de seringueiros de volta. Mas traz paz para sua família que, desde 2011, tem sofrido com a prisão dos irmãos de José Claudio, acusados pelo pecuarista de outro assassinato na região. José Claudio só não foi preso porque já estava morto.

A sentença de ontem, também é um alento no cenário macabro que se desenha no Brasil há muitos anos e colocou o país na liderança do ranking de ambientalistas assassinados. Em junho deste ano, a ONG Global Witness divulgou informe que apontava o país como o mais perigoso para os ativistas ambientais. Em 2015, foram 50 mortes. Esse número, para a organização e todos que defendem os direitos humanos, é inaceitável, mas, para o Ministro de Agricultura Blairo Maggi, é bobagem. Na última conferência do clima (COP22), que aconteceu em novembro, em Marrakesh, ele ainda disse que a causa das mortes está ligada a “problemas de relacionamento”.

É importante também não perdemos a esperança de que existe Justiça, ainda mais num cenário político e econômico tão conturbado como o que vivemos agora no país. Por tudo isso, é preciso celebrar esta vitória ocorrida ontem, em Belém. E muito. Para não esquecermos de que só a RESISTÊNCIA pode ajudar a conquistarmos Justiça de verdade e a nos desviar do conformismo, do “é assim mesmo”, porque não é assim, mesmo!

Zé Claudio e Maria eram extrativistas e ativistas. Morreram porque defendiam a floresta a qualquer custo. O jornalista e cientista social, Felipe Milanez, amigo do casal (se considerava mais do que isso, na verdade: Zé Claudio era um irmão pra ele), falou disso em texto para seu blog no site da revista Carta Capital:

“Eles nunca se corromperam. Quando puderam, denunciaram as violações contra o meio ambiente. Foram vítimas do violento capitalismo colonialista que opera no sul do Pará misturado a uma opressão medieval e à omissão do Estado. A lógica que provocou esses e outros assassinatos foi exposta pelo ex-deputado Giovanni Queiroz (PDT-PA) no filme Toxic Amazon (Vice, 2011): “Às vezes eles são abusados e temos que excluí-los da sociedade brasileira”. Foi exatamente isso o que fizeram com meu irmão e minha cunhada: excluir é sinônimo de matar”.

Os dois sabiam que corriam risco de vida. Zé Claudio chegou a dizer que preferia “morrer lutando do que morrer omisso”. Esta semana, Lisa Gunn, do Greenpeace, lembrou dessa frase em seu perfil no Instagram e me emocionou demais. “A frase de Zé Claudio, dita em frente de uma gigante castanheira, chamada por ele apaixonadamente de Majestade, nunca, jamais vai sair da minha cabeça e do meu coração. Eu sei que, para os familiares, a dor da perda é, muitas vezes, insuportável. Nesse caso, Claudelice e Laísa, irmãs das vítimas, entre outras pessoas como eu, transformaram luto em luta”.

No final do seu texto, ela convida seus seguidores a conhecer mais sobre os projetos de assentamento extrativista como o que Zé Claudio e Maria lideravam: Projeto de Assentamento Agroextrativista Praia Alta Piranheira, no município de Ipixuna, no Pará. “Eles nos mostram caminhos para outra forma de produzir e de consumir”. Fica aqui o convite.

A foto de Maria e Zé Claudio, que ilustra este post, é de autoria de Felipe. Ela ilustra boa parte dos textos publicados na internet sobre o assunto.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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