Justa Troca: o mais novo banco comunitário brasileiro

Justa Troca foi criado há um ano. É o mais novo banco comunitário do Brasil, que se juntou a mais de cem iniciativas similares espalhadas por todo o território brasileiro. Localizado em Vila Nossa Senhora Aparecida, em Porto Alegre, uma das pioneiras na região em implantar um banco comunitário de desenvolvimento, o Justa Troca tem moeda própria e linha de crédito para pequenos projetos da economia local, e é uma conquista da união das pessoas do bairro.

Hoje, existem no Brasil mais de cem bancos comunitários, todos geridos pelas comunidades onde surgem. O Justa Troca é administrado pela Associação Comunitária Nossa Vila Aparecida (ACONVI), com participação ativa das cooperativas Justa Trama, Univens e Nova Geração. Conta também com apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul por meio do Núcleo de Estudos em Gestão Alternativa e do Conosud (Cooperação Internacional Norte Americana) e CERAI (Centro de Estudos Rurais e de Agricultura Internacional).

A moeda social local é o Justo, criada para estimular o consumo de produtos e serviços dentro da comunidade. As imagens impressas nas moedas foram inspiradas nas ruas e na cultura do bairro (ao lado, a nota de 2 justos). A moeda circula apenas na Vila Nossa Senhora Aparecida, baseada na confiança mútua dos empreendimentos e consumidores. Seu uso é gerenciado pela comunidade, por meio do Banco Justa Troca, com o aval da Rede Brasileira de Bancos Comunitários

“O Banco Justa Troca surgiu justamente pra gente buscar uma forma de integrar as iniciativas do ponto de vista de desenvolvimento dentro da nossa própria comunidade. Percebemos que além de todas as iniciativas que temos, necessitávamos de algo que nos unificasse, que nos trouxesse juntos para olhar o desenvolvimento da Vila. Já que, segundo nosso inspirador Joaquim de Melo Neto, criador do Banco Palmas, as vilas não são pobres. Elas são empobrecidas porque o dinheiro dos moradores é gasto fora de suas vilas e, portanto, a riqueza não fica dentro da comunidade, que fica pobre e sem os serviços necessários”, explica Nelsa Néspolo, integrante da Justa Trama e da Univens.

O Justa Troca oferece microcrédito produtivo para que surjam mais pequenos negócios de gente empreendedora do bairro e para consumo local em moeda social; realiza levantamentos dos comércios, produtos e serviços do bairro e sobre consumo e riquezas da comunidade; realiza cursos e capacitações, apoiando os pequenos empreendedores para o melhor desenvolvimento de seus negócios; e promove feiras comunitárias para promover compra, venda e troca de produtos e serviços do bairro.

“Para conhecermos melhor a própria comunidade, fizemos uma pesquisa sobre quais as iniciativas econômicas existem, quais as que comunidade dizia que era importante ter, para que o banco pudesse dar retorno nesse sentido. Em seu primeiro ano, a ACONVI foi formada somente por mulheres. Agora, no segundo mandato, temos um homem fazendo parte da Associação, e isso é muito bom porque buscamos a paridade com equidade“, conta Nelsa. “E estamos avançando agora com as feiras. Todo mês temos feiras da comunidade, para que todos possam conhecer as iniciativas locais e ter acesso a produtos de qualidade. O banco vem sendo um amadurecimento, um processo muito importante para todos e, com certeza, vai nos ajudar a promover desenvolvimento dentro da Vila pra que possamos sanar necessidades importantes, não só do ponto de vista econômico, mas do ponto de vista cultural, da integração, que possa dar oportunidades de modo muito especial aos jovens e às mulheres”, avalia.

Primeiro banco comunitário – referência no Brasil – surgiu há quase 20 anos

Na comunidade de Palmeiras, em Fortaleza, surgia em 1998 o primeiro banco comunitário do Brasil, o Palmas (como comentei, acima). E a moeda social é a Palma, cujo principal objetivo é fazer o dinheiro circular no próprio bairro. Se um morador tem reais, nada assegura que gastará esses reais no local. Mas, se tem Palmas, é certo que sim, pois a moeda só é aceita na comunidade. Assim, o dinheiro circula localmente e aumenta as possibilidades de trabalho, emprego e renda.

Hoje, o banco comunitário cearense replica a metodologia de implantação em diversos locais do Brasil por meio do Instituto Banco Palmas. Inclusive no Justa Troca, no sul, e em São Paulo, no Banco União Sampaio, localizado no Jardim Maria Sampaio. Assim como o Palmas, o União Sampaio surgiu dentro de um espaço de muitas lutas e carências. Foi inaugurado em 2009 e tem como moeda social o Sampaio.

Atualmente, existem no Brasil mais de cem moedas sociais. As diferenças entre os bancos tradicionais e os comunitários são bem importantes quando se trata de contribuir para a manutenção da riqueza produzida por uma comunidade no próprio território, ensinar novas formas de lidar com finanças por meio de valores como confiança mútua e solidariedade, ou ainda estimular soluções associativas baseadas no comércio justo e na economia solidária. Veja só:

– No banco convencional, há donos ou acionistas; no comunitário, o dono é a própria comunidade;
– Enquanto o banco convencional gera lucro, o comunitário desenvolve a comunidade;
– O banco comunitário é controlado pela associação, enquanto a economia controla o banco convencional;
– O banco convencional se justifica pelo lucro, já o comunitário se justifica pelo desenvolvimento social;
– O banco comunitário promove a colaboração, a cooperação e a solidariedade, enquanto o convencional promove a concorrência, competição e disputa;
– O banco tradicional acredita nas garantias (renda, patrimônio, fiador), e o comunitário acredita na responsabilidade das pessoas (confiança);
– O banco comunitário reorganiza e motiva as economias locais, já o convencional promove a disputa entre os empreendimentos do território;
– Enquanto o banco convencional é centralizado, grande, poderoso e distante das pessoas, o comunitário é descentralizado, perto das pessoas;
– No banco comunitário a decisão é coletiva, e no convencional é centralizada.

Para saber mais sobre a história do Banco Palmas e do Banco União Sampaio, leia sobre a implantação de ambos no documento produzido pela UFScar.

Fotos: Divulgação

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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