Jovem fazendeira, sem experiência na área ambiental, chefiará uma das unidades de conservação mais importantes do país

Jovem fazendeira, sem experiência na área ambiental, chefiará uma das unidades de conservação mais importantes do país

Infelizmente, nada mais soa como surpresa nas decisões do Ministério do Meio Ambiente. Desde a campanha eleitoral do agora presidente Jair Bolsonaro, ficou claro que a intenção era enfraquecer os órgãos de preservação ambiental e fortalecer o agronegócio no país. A qualquer custo.

Na  semana passada, uma nova e polêmica indicação provocou consternação entre os que defendem a natureza e a biodiversidade brasileiras. O ministério anunciou o nome de uma produtora rural, sem experiência alguma na área ambiental, para chefiar o Parque Nacional (Parna) da Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul, uma das unidades de conservação mais importantes do país.

A informação foi divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo, na última sexta-feira (12/07).

Segundo a reportagem, a escolha de Ricardo Salles para o nome de Maira Santos de Souza, de 25 anos, é um afago na bancada ruralista. O ministro atendeu um pedido do deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

Ainda de acordo com a matéria do Estadão, Maira “é filha de fazendeiros conhecidos na região de Mostardas. Formada em Engenharia Agrônoma, ela trabalha na produção de arroz e soja na propriedade de sua família. Seu avô, Sidney Antônio Pereira de Souza, é grande produtor rural da região”.

Rota migratória e berçário da vida marinha

Criado em 1986, o Parque Nacional da Lagoa do Peixe é administrado pelo  Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão do Ministério do Meio Ambiente.

Com mais 36 mil hectares de extensão, foi transformado em Unidade de Conservação (UC) com o objetivo de proteger espécies de aves migratórias e amostras de ecossistemas litorâneos do Rio Grande do Sul, que deles dependem para seu ciclo vital.

Sua importância é tanta, que em 1999, foi considerado Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Localizado em uma extensa planície costeira arenosa, situado entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico, o parque tem mata de restinga, banhados, campos de dunas, lagoas de água doce e salobra, além de praias e uma área marinha.

Jovem fazendeira, sem experiência na área ambiental, chefiará uma das unidades de conservação mais importantes do país

O parque é refúgio para centenas de aves

O local é um berçário de diversas espécies marinhas, entre elas, camarão-rosa, tainha e linguado, e atrai um sem número de aves, algumas ameaçadas de extinção, que encontram ali refúgio e alimento, durante sua rota de migração.

Reclamação de agricultores

A criação do parque há mais de 30 anos não agradou os produtores rurais da região. Muitos dizem que até hoje não foram indenizados e outros reclamam do tamanho da UC.

Em entrevista à Rede Globo, o deputado Alceu Moreira disse que os agricultores querem alguém local, (no caso, a fazendeira de 25 anos), para “fazer a mediação correta com o governo federal para fazer uma proposta de ou continuar sendo um parque e estabelecer um plano de manejo ou ter utilização turística para que suas terras tenham valor para serem vendidas”.

Em nota, a Associação Nacional dos Servidores Ambientais (Ascema), afirmou que “a nomeação da jovem produtora rural viola os princípios de impessoalidade, moralidade e transparência na gestão pública”.

Em abril, o antigo chefe do Parque Nacional da Lagoa do Peixe havia sido exonerado por Ricardo Salles após uma visita do ministro ao Rio Grande do Sul, quando ele chegou a ameaçar funcionários do ICMBio por não estarem presentes em reunião.

No “toma lá da cá” do atual governo com a bancada ruralista, a preservação de uma das nossas maiores riquezas – nossas florestas, nossa biodiversidade e a vida selvagem -, fica cada vez mais fragilizada e na mão daqueles que pouco (ou nada) estão interessados em sua conservação.

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Fotos: Adriano Nygaard/Wikimedia/Creative Commons e Juarez de Andrade Junior/Wikimedia/Creative Commons

*Com informações adicionais do ICMBio

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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