Jovem brasileira vence competição internacional de ciências com projeto que transforma cascas de macadâmia em curativos para peles queimadas

A estudante gaúcha Juliana Davoglio Estradioto, de 18 anos, já foi notícia duas vezes, aqui, no Conexão Planeta. 

A primeira foi em novembro do ano passado, quando ganhou o Prêmio Jovem Cientista com o projeto de plástico feito a partir da casca do maracujá. Ela queria encontrar substituto para as tradicionais embalagens plásticas de mudas para plantas, que geram muito resíduo. A segunda foi em janeiro deste ano: Juliana havia sido convidada para assistir a cerimônia de entrega do Prêmio Nobel, na Suécia, representando os 25 jovens cientistas mais promissores do mundo. O convite aconteceu por causa de outras premiações – na Feira Internacional de Ciência e Tecnologia, que acontece em Novo Hamburgo, RS – pelo desenvolvimento de biomaterial a partir de resíduos das cascas da macadâmia, capaz de se transformar em curativos que ajudam a reconstituir peles queimadas. 

Sim, ela foi à Suécia por causa do mesmo projeto que, agora em maio (17), recebeu o prêmio máximo de uma das principais categorias – Materiais de Ciência-, da Intel Isef 2019 (International Science and Engineering Fair), em Phoenix, Estados Unidos. Durante quatro dias de competição – que é a maior feira de ciência do mundo-, ela esteve entre os 1.800 jovens pesquisadores de todo o mundo, com idades entre 15 e 19 anos, que apresentaram projetos inovadores para uma comissão formada por cientistas renomados de vários países. 

Quando ouviu seu nome, Juliana não acreditou. Demorou um pouco para se dar conta da sua indicação e, mesmo chorando muito, subir ao palco gritando “É Brasil!”. E assim emocionada recebeu o prêmio de US$ 3 mil.

Faz quatro anos que a jovem coleciona prêmios e menções honrosas. Até agora, são 40 no total.

É pra aplaudir Juliana de pé, mesmo! Ainda mais no momento que estamos vivendo, no qual o governo não reconhece a importância da educação e do conhecimento e fez cortes drásticos nas universidades e escolas públicas, encerrando bolsas de estudo e todo o apoio à pesquisa, afetando inclusive a manutenção dos hospitais universitários, que atendem a população mais carente. 

Ciência e agentes transformadores

Juliana falou sobre sua formação em escola pública e a importância da pesquisa para o país. “Estudei a vida inteira em escola pública e tem sido muito especial. Depois do ensino fundamental, ingressei no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), no campus Osório, para cursar técnico em Administração. Quando entrei no IFE, não imaginei que jovens da minha idade, eu tinha 14 anos, faziam pesquisa e já estavam oferecendo contribuições à Ciência. Ver isso me marcou e mudou muito a minha vida. E ter feito pesquisa no ensino médio não só me mostrou a paixão que tenho pela Ciência, mas também o quanto quero continuar pesquisando e trabalhar com isso, seguir uma carreira cientifica”. E acrescentou: “Trabalhar com pesquisa incentiva muito o pensamento crítico, o senso crítico, além de compreender tudo que envolve o processo cientifico”. 

Para a estudante, é imprescindível incentivar os jovens a fazer pesquisa no ensino médio porque “a educação e a Ciência são agentes transformadores da vida. Não só da vida pessoal do jovem que estuda, mas porque ele pode impactar toda a sociedade com a pesquisa que fizer. Tem uma frase que eu gosto muito de falar que é assim: os jovens não são só o futuro da nação, o futuro do mundo, a gente é o presente, a gente pode mudar o mundo agora, através da ciência, de projetos sociais, de tudo que a gente tem paixão. No meu caso é a pesquisa, mas tem muitos outros jovens fazendo coisas diferentes e que estão realmente lutando para mudar a realidade”. 

A pesquisa

O motivo que provocou Juliana a pesquisar a casca da macadâmia veio de uma das maiores agroindústrias do Brasil que processa essa noz para exportação. A empresa procurou um professor amigo de sua orientadora, a professora Flávia Twardowsky, e relatou o problema, solicitando pesquisa para que encontrassem uma saída para o resíduo: 75% do processamento da macadâmia vira resíduo que é descartado no lixo comum porque não tem utilidade para a indústria.

A questão chegou até a garota, que ainda cursava o último ano do ensino médio técnico em Administração, e ela ficou muito empolgada com a missão. A partir daí, dedicou-se às pesquisar junto com sua orientadora para encontrar uma solução econômica, sustentável e que ainda tivesse relevância social

“Aideia de utilizar a noz com microorganismos surgiu porque eu sou vegetariana. Na época, eu buscava alternativas para o couro na internet e encontrei roupas que eram produzidas com microorganismos”, explicou. “Comecei a aprofundar a pesquisa e fiquei muito curiosa e fascinada pela biotecnologia. Testei com outras cascas, de outras nozes, mas não deu certo. Com a casca da macadâmia foi que obtive o melhor resultado”. 

No final, Juliana havia encontrado indícios de que essa casca pode ser usada como uma espécie de alimento para bactérias, capazes de formar material orgânico (como um tecido) ao se desenvolverem. E assim chegou no material que pode ser usado como curativo para ajudar a cicatrizar e a reconstituir peles queimadas. 

Além do apoio precioso de sua orientadora, Juliana também recebeu apoio institucional, imprescindível para a realização e finalização da pesquisa, como foi o caso do Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que cedeu o laboratório onde foram realizados todos os testes.

Nome num asteroide

Além do prêmio em dinheiro, todos os finalistas do primeiro e segundo lugares de cada categoria da competição da Intel ISEF  2019 recebem um outro reconhecimento muito bacana por sua genialidade e contribuição científica: seu nome num asteroide.

Isso é possível graças à parceria do evento com o laboratório Lincoln Lab, que estuda astronomia no Massachussets Institute of Technology (MIT). 

“Ah, isso é muito incrível porque cientistas como Albert Einstein e Marie Curie têm seus nomes em asteroides e eu também vou ter. Então, é muito significativo pra mim˜, comemora Juliana. 

Ela não sabe, ainda, qual sobrenome seu será utilizado, nem quando isso acontecerá, mas não importa. A honraria já é digna de muita celebração. Um reconhecimento e tanto que ficará eternizado. 

Fotos: Arquivo pessoal e Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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