jaUbra: o aplicativo de táxi territorial desenvolvido por um motorista na periferia de São Paulo

No banco do carro, Alvimar da Silva, que sempre trabalhou como motorista, teve a ideia. Morador da Brasilândia, zona norte da cidade de São Paulo, percebia que motoristas de aplicativos evitavam a região, deixando moradores na mão. Como acontece em várias quebradas brasileiras.

Desse cenário, Alvimar criou o Ubra (União da Brasilândia) – versão territorial de um famoso aplicativo de táxi. Conhecido no bairro, motorista do Uber, ele distribuía cartões entre os moradores. Com a grande quantidade de chamadas recebidas, veio a iniciativa de montar uma espécie de central de atendimento improvisada, como ele diz.

A filha, Aline Landim (foto acima) que saiu do emprego em um banco para trabalhar com ele, anotava os pedidos de corrida por telefone, e ele pegava os passageiros, cobrando R$ 2 por quilômetro rodado. Funcionou tão bem que logo Alvimar incluiu outros amigos taxistas. A família comprou a ideia e passou a engrossar a equipe.

O negócio cresceu e outros motoristas começaram a dirigir para ele, com seus próprios carros, tirando 15% do valor combinado pela corrida. Os motoristas não têm medo de trafegar na quebrada, porque moram lá. Diferente dos aplicativos que interditam os bairros periféricos, porque os consideram ‘áreas de risco’.

Criada em fevereiro de 2017, a central recebeu cerca de duas mil chamadas nesse mês, muitas delas de pessoas querendo voltar de ensaios de escolas de samba que, antes, eram obrigadas a retornar para suas casas somente na manhã do dia seguinte, esperando a circulação dos ônibus. Já em outubro do ano passado, a média mensal de chamadas triplicou, e em dezembro chegou a 13 mil.

Também em dezembro do ano passado, o negócio se regularizou junto à administração municipal, passando a operar por meio de um aplicativo. Com isso, veio também a mudança de nome, adotando o nome jaUbrajá + Ubra, para dar a ideia de um serviço instantâneo.

Hoje, trabalham no negócio centenas de motoristas cadastrados e uma frota de dezenas de carros. Os requisitos para dirigir para a jaUbra são semelhantes aos dos outros aplicativos, tanto no quesito limpeza como documentação. Por serem da comunidade, os motoristas registram um fluxo de ocorrências de assalto contrário aos que trafegam em outras regiões: elas estão diminuindo. Conhecer o bairro vale mais do que qualquer GPS.

No início de 2018, a jaUubra foi selecionada pela Artemísia, que incentiva negócios de impacto social, para receber capital-semente do programa Ford Fund Lab: Inovação e Mobilidade. O investimento vai ajudar a melhorar a interface digital, ampliando a capacidade de atendimento.

Mas a central de atendimento por telefone é uma das funcionalidades que continuará operando. A prioridade, como aponta Alvimar, é atender bem o território.

Foto: jaUbra/divulgação

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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