Jardim de chuva: pequeno oásis urbano


Entusiasmados com a ideia de transformar as ilha de concreto das ruas de São Paulo em jardins de chuva, em novembro de 2015, Uli (meu parceiro na vida e neste blog), eu e um grupo de amigos resolvemos fazer um projeto na Lapa, Zona Oeste de São Paulo.

Mas o que é um jardim de chuva, afinal?

Uli explica sob o ponto de vista da arquitetura, que é sua área: “jardim de chuva é uma espécie de retrofit de um canteiro verde convencional feito com o objetivo de se criar uma área multifuncional com infraestrutura verde. É um conceito internacionalmente aplicado para contribuir com a drenagem urbana sustentável. Ou seja, além de esses jardins serem bons para os efeitos das mudanças climáticas e combater enchentes, são pequenos oásis que atraem biodiversidade e favorecem o aparecimento das PANCs (plantas alimentícias não-convencionais) e o cultivo de ervas, frutas e flores”.

Avisamos a subprefeitura, falamos com os vizinhos da ilha de concreto localizada na rua Tonelero, esquina com rua Croata, e convocamos os moradores da região para um mutirão. Quem quisesse colocar mãos à obra seria muito bem vindo!

Arrecadamos mudas e ferramentas. Uli e João Pedro David, seu sócio no Incriatório, fizeram o planejamento e, Uli, o desenho para a implantação do sonhado jardim.

O trabalho foi pesado. Era preciso quebrar e remover o concreto do meio fio, recolocar a terra e fazer o paisagismo. Como a ilha ficava bem na descida de uma rua movimentada, foi preciso sinalizar bem e contar com gente o tempo todo alerta para que ônibus e carros não provocassem acidentes.

Chegaram pessoas de diversos bairros, inclusive acompanhadas por crianças. Todas levaram plantas e muita disposição para o trabalho. No final do dia, o grosso do serviço estava finalizado e a turma realizada por participar de um projeto tão inspirador.

O estranho foi que, mesmo convidados, os moradores mais próximos do jardim praticamente não se interessaram pela iniciativa. Nem mesmo o dono do bar da esquina, que era quem mais se beneficiaria de um jardim bonito e útil.

Depois dessa parte finalizada, João e Uli ainda trabalharam muito para concluir o projeto. Algumas vezes, Uli chegou a ir para lá à noite. Chegou a levar galões de água no carro para regar as plantas e garantir o sucesso do jardim. Veio a chuva e, assim, confirmamos que o jardim iria funcionar muito bem.

Mas a felicidade durou pouco. Numa manhã, encontramos todas as mudas arrancadas e jogadas no canteiro central da rua. Além disso, a abertura feita no meio fio da ilha – que levaria água para o jardim – foi bloqueada. Certamente, isso foi obra de alguém que não “deu a cara” no mutirão porque não estava nem um pouco feliz com a ideia do jardim.

O sentimento de frustração foi grande, mas a lição aprendida também. Apesar de morarmos e trabalharmos no bairro, não tínhamos feito a lição de casa direito, ou seja, na ânsia de fazer o jardim florir não demos prioridade ao envolvimento de toda a comunidade no projeto. O melhor era virar a página e começar de novo.

Mas como explicaria um livro de autoajuda, no fracasso do jardim de chuva da Lapa estava a semente do sucesso do jardim de chuva da Vila Jataí, que é um bairro vizinho, reconhecido pelo senso de pertencimento da comunidade e pela iniciativa de transformar a Vila e a vizinhança em ecobairros.

A nossa ação chamou a atenção de seus moradores já que têm uma visão de mundo diferente da dos nossos vizinhos. Thais Mauad e Jussara, umas das mais ativistas participantes das iniciativas daquele bairro, vieram conhecer o projeto. Se encantaram e, assim, surgiu o convite para que Uli e João Pedro (na foto ao lado, na primeira visita ao local) participassem da iniciativa que iria transformar várias ilhas de concreto da Vila Jataí em jardins ricos de biodiversidade. Elas queriam testar o modelo desenhado pelos dois paisagistas para a nossa região.

Do projeto inicial ao picnic de plantio, tudo foi planejado e feito em comum acordo com a comunidade e, até, com o apoio da então subprefeitura de Pinheiros, hoje prefeitura regional.

Esse sim, virou uma história de sucesso e inspiração. O texto que Uli escreveu sobre essa experiência conta como foi todo o processo que, agora, é um exemplo e recebe visitas de estudantes e de programas de TV.

Se quiser o conhecer o jardim de chuva, anote: ele fica no cruzamento da Rua Livi com Rua Padre Cerda, na Vila Jataí, Pinheiros. No momento, está com muitas ervas, flores e mamões amadurecendo.

As fotos abaixo mostram como era a ilha de concreto nessa vila simpática, o envolvimento dos funcionários da subprefeitura de Pinheiros na construção, o plantio com mutirão e festa da comunidade, e o resultado nove meses depois.

O primeiro dia de trabalho com a comunidade
A preparação do jardim

O dia do plantio

Assim que o plantio terminou, a placa do projeto foi colocada
(veja abaixo os detalhes)


Três momentos do jardim de chuva lindo, vivo! (acima e abaixo)

Fotos: Casal Verde

Zuzu é jornalista pioneira na área de comunicação sobre sustentabilidade. Criou programas e séries mostrando como viver de forma sustentável no dia-a-dia. Conselheira de várias ONGs e instituições, dirige a Planetária Casa de Comunicação

Maria Zulmira de Souza

Zuzu é jornalista pioneira na área de comunicação sobre sustentabilidade. Criou programas e séries mostrando como viver de forma sustentável no dia-a-dia. Conselheira de várias ONGs e instituições, dirige a Planetária Casa de Comunicação

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