‘Janeiro Lilás’ promove e celebra o respeito às pessoas transgênero

Sim, estamos no século XXI, no ano de 2018, e ainda é necessário (urgente!) lutar para vencer o preconceito e a discriminação – não só de raça, mas de gênero, não só contra as mulheres, mas também contra não heterossexuais. A base da intolerância que mantém esse quadro, como sabemos, é a falta de empatia, de se colocar no lugar do outro, de não aceitar o que é diferente de si, é a falta de informação sobre questões de gênero. Também por conta do fanatismo religioso e da moral exacerbada, como se houvesse um único caminho pra tudo. E a onda conservadora que tem se expandido pelo mundo e, aqui, no Brasil, abriu precedentes para mais violência, discriminação e mortes de pessoas LGBT. Dentro desse grupo à margem da sociedade, transexuais e travestis são as mais vulneráveis.

Para ajudar a reivindicar ações de proteção, segurança e dignidade para as pessoas transgênero, em 29 de janeiro de 2014, o Ministério da Saúde lançou a campanha Travesti e Respeito. Nesse dia, representantes da Articulação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) ocuparam o Congresso Nacional, em Brasília, para participar da celebração oficial, o que inspirou o movimento a escolher esse como o Dia da Visibilidade Trans e contra a Transfobia.

Não demorou muito para que o primeiro mês do ano ganhasse um apelido colorido – Janeiro Lilás -, assim como existem o Outubro Rosa (para a luta contra o câncer de mama) e o Novembro Azul (que fala do câncer de próstata), entre outros.

Em São Paulo, no dia 27, sábado, será realizada a caminhada “Sou trans! Quero dignidade e cidadania!” na Avenida Paulista, a mesma que abriga a Parada Gay, todos os anos, em junho, e Parada do Orgulho LGBT, em dezembro. E na sua cidade? Como serão as celebrações? Compartilhe nos comentários deste post.

Poesia e engajamento

Há casos em que datas comemorativas se perdem, mas, há outros muito beneficiados por elas. O Dia da Visibilidade Trans ainda é uma sementinha que precisa crescer. E será amparado – e vice-versa – pelo movimento, que tem conquistado mais adeptos e força – e mais compreensão – , nas redes sociais, na mídia (principalmente alternativa e por meio de alguns colunistas), nas ruas. Fala-se e ouve-se mais sobre o assunto.

Formadores de opinião simpatizantes ou engajados nessa causa também têm contribuído para que sua visibilidade cresça. A trajetória do estilista mineiro Ronaldo Fraga é marcada por poesia e engajamento, desde que fez seu primeiro desfile, nos anos 90. Sua moda é manifesto, cheia de história.

Ele já falou de política e do talento da estilista Zuzu Angel, morta pela ditadura. Inspirou-se em Carlos Drummond, Guimarães Rosa, nos artistas Athos Bulcão e Cândido Portinari, nos cantaores Noel Rosa e Nara Leão. No ano passado, transformou pessoas mais velhas – idosas ou da “terceira idade”, como se diz por aí -, índios e deficientes físicos em modelos de sua nova coleção, na Fashion Week, em São Paulo.

Mas o debate sobre inclusão social já estava presente em seu desfile de 2016 (foto acima), quando vestiu trans com suas sempre incríveis criações. O icônico Teatro São Pedro quase veio abaixo. Emoção pura.

Daniela, Leona e Paula: muita coragem e desejo de mudança

Além dessas manifestações, há também a garra de algumas pessoas trans – ou “T”- que têm contribuído para que essa visibilidade cresça. Munidas de muita coragem e de desejo de mudança, elas contam suas histórias inspiradoras e desbravam, conquistam espaço dia a dia, empreendem, vao além do discurso, da verborragia, transformando a realidade.

É o caso de Daniela Andrade, ativista pelos direitos transexuais, que, junto com dois amigos militantes, criou o primeiro portal de empregabilidade trans no país: o Transempregos. Nele, as empresas divulgam oportunidades de trabaoho para travestis e transexuais. E, em seguida, lançou o Transerviços, no qual são oferecidos serviços para quem não tem formação e a indicação de profissionais interessados em atender esse público.

Trabalho é essencial para a inclusão das pessoas “T” na sociedade. É uma oportunidade que tira esses indivíduos da vulnerabilidade, da violência e da discriminação e, consequentemente do caminho da prostituição. Muitas vezes, esse é a única jornada possível para eles. Por isso, também, Daniela atua como membro do Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero (GADVS) e está cursando pós em direito (para saber mais sobre ela, leia esta reportagem).

A atriz e ativista Leona Johvs, escreveu em seu perfil no Facebook, um dia destes: “Hoje, pessoas travestigêneres ainda estão à margem da sociedade, sendo a população mais excluída. Somos mortos todos os dias, o suicídio é a segunda causa de morte, a crise do pânico está presente na vida da maioria de nós. Em torno de 90% dessa população tem, na prostituição, sua única forma de sobrevivência (ahhh a prostituição pode ser legal, desde que seja uma opção e não somente condição) e, sim, somos o país que mais mata pessoas como eu no mundo”.

Hoje, ainda há histórias tristes como a de Dandara, que foi espancada até a morte e nunca será esquecida. E também a de outra brasileira, Laura Vermont, que sofreu violência similar e morreu, tornando-se símbolo do aplicativo da bandeira trans (o site do aplicativo viralizou rapidamente com sua morte).

Mas há também inúmeras histórias interessantes pra contar, histórias de resistência como a de Paula Beatriz, professora que dirige uma escola estadual na periferia de São Paulo há mais de dez anos, foi reconhecida recentemente pelo governo do estado por seu trabalho transformador com crianças e adolescentes.

Ontem, na página da Visibilidade Trans, no Facebook, encontrei um post que contava a primeira aeromoça trans tinha acabado de ser contratada no Brasil. Por aqui, as empresas têm se mostrado atentas à importância da diversidade no ambiente de trabalho, dessa vivência. E, além de criar programas de contratação de pessoas LGBT, têm investido na educação e orientação de seus funcionários, assegurando a continuidade desses programas.

No final deste post, você pode assistir ao vídeo realizado pelo jornal Meio e Mensagem, que apresenta experiências positivas em três empresas: no Carrefour, na IBM e na P&G.

Leona Johvs também contou, no mesmo post no Facebook (que citei acima), uma experiência interessante que viveu, naquele dia, no Instituto Moreira Salles de São Paulo, recém-inaugurado num prédio imponente e moderno na Avenida Paulista. Ela foi convidada para conversar com 50 funcionários da instituição para um encontro de (des)construção do conceito de transgeneridade: “Tive o prazer e a sorte de poder trabalhar e, para além disso, me encontrar e trocar ideias com esses queridxs da foto (ela fez uma selfie, que ilustrou o post) e também outros mais. Falei, troquei, pontuei, instruí, desmitifiquei, problematizei, mexi, contei, reeduquei, desconstruí, me posicionei e até chorei, tudo isso pra trazer mais sobre os nossos corpos travestigêneres (transexuais, travestis e transgêneros)”.

E o IMS ainda pediu à Leona uma indicação para uma vaga para pessoa trans em seu quadro de funcionários. “Sim! Empregabilidade é importante, fundamental e necessária pra mudar a realidade da nossa população”, bradou a ativista.

Ah…, chegará o dia em que não será mais preciso comemorar cada vitória, não será preciso contar que a primeira aeromoça foi contratada ou que um instituto cultural de prestígio abriu vaga para uma pessoa trans, não será preciso ter o Dia da Visibilidade Trans. E não será mais preciso porque será normal, corriqueiro, natural.

Agora, assista ao vídeo do Meio & Mensagem: nele, @s entrevistad@s contam um pouco de suas histórias, falam de angústias, de detalhes de suas contratações e o que é imprescindível nessa relação. Vale muito assistir

Imagem de destaque: Divulgação/Facebook / desfile Ronaldo Fraga: @balialebeis/Instagram, montagem bandeira trans: Reprodução

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

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