Jane Fonda apoia a desobediência civil pelo clima – “mesmo com o risco de sermos presos” – e convida os brasileiros a aderir

Atualizado em 23/12/2019

contamos aqui, no Conexão Planeta, que desde outubro a atriz Jane Fonda, de 81 anos, foi presa quatro vezes em protestos contra a inação dos governantes em relação às mudanças climáticas e aos combustíveis fósseis, e chegou a dormir na cadeia. Pois ela continua firme e forte em seu propósito: diz que não pretende parar e prevê, inclusive, que vai passar seu aniversário, em 21 de dezembro, atrás das grades

(este texto foi atualizado em 23/12/2019: a atriz e ativista climática, comemorou seus 82 anos na cadeia, após participar de manifestação do movimento Fire Drill Fridays, do qual faz parte, que pede um novo acordo verde. Todas as sextas-feiras – como Greta Thunberg e seus seguidores – os apoiadores desse movimento protestam contra as mudanças climáticas na capital de Washington). 

Jane trocou Nova York por Washington, temporariamente, para participar das manifestações pelo clima toda semana. Ela vai ao congresso americano e, na frente do edifício, se junta ao público para protestar. Discursa e sai em caminhada pelas ruas da cidade, com faixas de alerta.

“Estarei no Capitólio toda sexta-feira, faça chuva ou faça sol, inspirada e encorajada pelo incrível movimento que nossos jovens criaram”, escreveu em seu site. “Não posso mais esperar e deixar que nossos funcionários eleitos ignorem – e pior ainda – empoderem – as indústrias que estão destruindo nosso planeta em busca de lucro. Não podemos continuar defendendo isso”, publicou. 

Nas últimas manifestações, ela tem aparecido com um casaco vermelho que ela diz ser a última peça de roupa que comprou, já que deixou de ser consumista pelo meio ambiente.

“Nós passamos muitos anos fazendo abaixo assinados, participando de marchas e manifestações, e os nossos representantes – que foram eleitos por nós -, não nos escutaram. Então, agora é hora de aumentar nosso ativismo, que significa apelar para a desobediência civil e correr o risco de ser preso“, disse ela à reportagem do programa Fantástico, na TV. “Quanto mais gente estiver disposta a fazer isso, maior é a chance de que a gente consiga fazer o governo mudar”.

Jane também comentou sobre o Brasil e fez um “convite”: “Vocês têm a mesma situação que nos temos por aqui. E têm a floresta amazônica, que o presidente está permitindo que seja queimada, Então, a desobediência civil é uma coisa que vocês brasileiros também podem fazer. Mas eu reconheço que é mais difícil porque o governo brasileiro está disposto a usar a violência”.

Presos, com todo respeito

Sobre o Brasil, Jane Fonda está certa nas duas observações que fez. Precisamos lutar, desobedecer, mas a polícia aqui é truculenta. Com que coragem o faremos se, cada vez mais, libera a policia para matar e tenta afrouxar as leis?

Repare em Jane Fonda detida. É assim, como todo o respeito, que policiais prendem manifestantes em Washington, independente de sua fama. Eles são imobilizados, sem algemas, só com tiras plásticas, e conduzidos de forma firme, mas com cuidado. Aqui, isso não existe.

Em Washington, manifestantes podem ser detidos e passar algumas horas presos. Na quarta vez, podem dormir na cadeia, como aconteceu com Jane Fonda. Mas nem ela, nem seus colegas de manifestação se importam com as sequelas de seu ativismo.

Por isso, o número de manifestantes que aderem aos protestos e ao convite da atriz engajada (para desobedecer) tem crescido, principalmente entre os mais velhos. Alguns acreditam que isso chama a atenção das pessoas para a causa das mudanças climáticas e é isso que eles querem, como é o caso de seu amigo Sam Waterston, também ator e seu colega na série Gracie & Frankie, que logo depois de discursar (abaixo), também foi preso. 

Sobre celebrar 82 anos atrás das grades, ela ri e diz: “Eu provavelmente vou passar meus aniversário na cadeia, e tudo bem porque vai chamar muito a atenção e é isso que precisa ser feito. Nós temos que atrair toda a atenção que for possível porque os cientistas estão nos alertando, que nós precisamos acordar, que isto é uma emergência e que temos muito pouco tempo”.

Greta, fama e a guerra do Vietnã

Sempre que dá entrevistas pra falar de seu ativismo “radical”, Jane se declara inspirada pelos jovens e, principalmente, por Greta Thunberg, a adolescente sueca de 16 anos que começou a cabular as aulas na escola às sextas-feiras, em agosto de 2018, para protestar pelo clima sozinha, em frente ao parlamento de sua cidade, e, em poucos meses, criou o movimento Fridays for Future, com inúmeros jovens europeus e inspirou o mundo a sair às ruas pela mesma causa. Na semana passada, foi eleita pela revista Time como “a pessoa do ano” e discursou lindamente na Conferência do Clima, em Madri.

“Greta viu o que estava acontecendo com o clima e que ninguém estava se comportando como deveria, em uma crise. Eu sabia que a Greta estava certa e que estava na hora de sair da minha zona de conforto e fazer alguma coisa”, destacou.

O engajamento da atriz não é de hoje. Jane é uma veterana do ativismo, tendo se envolvido em alguns dos principais movimentos sociais dos Estados Unidos, como contra a Guerra do Vietnã, nos anos 70. Foi acusada de traição, inclusive, porque foi ao país se encontrar coms eu povo, que lutavam contra os soldados americanos.

Para a repórter do Fantástico, Jane contou que foram muitos os soldados de seu país que desertaram e foram morar em Paris, onde ela morava. E a procuraram para pedir ajuda financeira porque precisavam se tratar. Foi quando contaram o que acontecia na guerra. “Quando você sabe o que está acontecendo e não faz nada, você vira parte do problema e que não queria isso, por isso me tornei uma ativista”.

No final, comentou sobre os movimentos mundiais pelos direitos humanos, civis e das mulheres, dizendo que todos trouxeram mudanças importantes, mas não significa que a luta acabou. “Ainda há muito por fazer, mas pelo menos, eu vou morrer sabendo que dei o meu melhor e que usei a minha fama para tentar evitar um desastre”.

Quando Jane comentou sobre o Brasil, acertou nos dois pontos que comentou: precisamos desobedecer este governo, que nega as mudanças climáticas e está destruindo tudo; e o governo Bolsonaro está disposto a agir com violência. Grande dilema, mas precisamos decidir o que queremos. Aceitamos o convite de Jane?

Se quiser assistir à entrevista do Fantástico com a atriz, o link é este.

Fontes: G1/Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, site e redes sociais de Jane Fonda

Fotos: Reproduções do Instagram

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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