Jabuti-tinga volta ao Parque Nacional da Tijuca depois de 200 anos extinto, e já está se reproduzindo

Devido a caça e ao desmatamento, os jabutis-tinga desapareceram quase que completamente da região do Parque Nacional da Tijuca, na zona norte do Rio de Janeiro. Estavam extintos há cerca de 200 anos; alguns pesquisadores falam em até 300 anos. Mas o trabalho para reintrodução da espécie Chelonoidis denticulatus nesse parque só foi iniciado em 2018 pelo projeto Refauna da Universidade Federal do RJ (UFRJ). Uma prática inédita no país com esta espécie.

Doze anos depois, em 16 de janeiro último, os primeiros 28 indivíduos foram levados ao setor Floresta do parque por pesquisadores, com chips e radiotransmissores para monitoramento. “É a primeira vez que estamos reintroduzindo o jabuti-tinga no Parque Nacional da Tijuca. Não há registros de reintrodução dessa espécie no Brasil, em locais onde deixaram de existir, como o Parque”, explicou Marcelo Rheingantz, biólogo da UFRJ e pesquisador do Refauna, à reportagem do G1. 

Jabutis-tinga são soltos no Parque Nacional da Tijuca após 200 anos extintos do local.

O projeto é uma iniciativa da UFRJ, UFRRJ e IFRJ, em conjunto com outras instituições de ensino. e está aplicando dois métodos de soltura, ao mesmo tempo, para que sejam comparados e embasem as futuras ações de reintrodução.

Dos 28 jabutis, 14 passaram por um processo de aclimatação em um cercado na área de preservação onde foram observados padrões e hábitos de alimentação, comportamento e deslocamentos, durante os últimos seis meses. Os outros 14 jabutis-tinga foram soltos sem passar pelo período de readaptação, ou seja, passaram direto do Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ibama para a floresta. 

Jabutis-tinga são soltos no Parque Nacional da Tijuca após 200 anos extintos do local.

Todos estão sendo monitorados diariamente (primeira etapa, por um mês) pelos pesquisadores. desde a soltura. “É quase uma caça ao tesouro. Aí a gente vai andando e, quando o sinal fica muito forte, a gente acaba encontrando o jabuti visualmente e aí marcamos a localização dele no GPS, passamos para um computador para depois ter um mapa com a localização de todos ao longo do tempo”, contou a bióloga Carolina Starling.

No total, serão liberados 60 jabutis-tinga no Parque da Tijuca. O próximo grupo será levado para o parque no período seco para que os pesquisadores possam “avaliar se as estações do ano também influenciam em sua sobrevivência”, explicou o biólogo.

A preocupação dos pesquisadores é “garantir que eles estão no habitat apropriado para se desenvolverem e depois nascerem os filhotes”, contou a bióloga Carolina Starling. Mas os jabutis-tinga foram mais afoitos, veja só!

Uma das fêmeas – marcada com o número 41 e batizada pelos biólogos de ‘Pedra Portuguesa’ – colocou quatro ovos! Os primeiros filhotes devem nascer dentro de seis a nove meses. “Foi uma surpresa muito grande ver esses ovos na floresta. Esse é o começo da primeira geração de jabutis que vão nascer livres, aqui na Tijuca”, destacou Starling.

Logo, logo, os pesquisadores saberão se, de fato, seu trabalho foi bem sucedido ou não. Os primeiros trinta dias são determinantes nesse sentido. “Depois, vamos continuar monitorando por uns dois anos, mas rareando o monitoramento cada vez mais, até passar a fazer uma vez por mês”, acrescentou a bióloga. O trabalho realizado por eles vai subsidiar a construção de um guia para translocações de jabutis em ambientes florestais.

Excelentes jardineiros

Se for bem sucedida – e será! – a reintrodução dos jabutis-tinga trará vigor para o Parque Nacional da Tijuca, visto que esses animais são ótimos dispersores de sementes, especialmente grandes.

Esse “trabalho de jardinagem“, feito ao distribuir sementes, é imprescindível para a perpetuação de inúmeras espécies de plantas nativas que compõem a Mata Atlântica. Além disso, eles também comem e pisoteiam plantas que poderiam se tornar pragas, o que garante seu controle e a preservação da diversidade vegetal.

É inacreditável, mas os jabutis-tinga já foram bastante abundantes na Mata Atlântica e praticamente dizimados devido à caça e ao desmatamento, principalmente. Foi o que aconteceu no parque carioca. Por isso, todo o cuidado com estes animais é necessário.

Muito cuidado com os jabutis!

Jabuti-tinga com radiotransmissor para monotonamente

Como o Parque Nacional da Tijuca é aberto ao público e os jabutis estão livres, suas equipes e os pesquisadores do Refauna fazem um apelo aos visitantes para que não mexam e nem retirem os jabutis da floresta, caso os encontrem pelo caminho. Mais: também pedem para que os visitantes não levem outros jabutis da mesma espécie ou de espécies diferentes para interagir com os novos moradores do parque.

E eis dois últimos apelos absurdos, mas, como a falta de bom senso e de cuidado prevalece, nunca é demais lembrar: que os visitantes trafeguem pelas vias internas ou que circundam o parque, respeitando a velocidade permitida para que os animais – principalmente os jabutis, que andam vagarosamente – possam atravessar tranquilamente. E nunca alimentem animais silvestres.

Bugios e cutias: extintos e reintroduzidos

Esta é a primeira vez que jabutis-tinga são reintroduzidos na natureza e no Parque Nacional da Tijuca, mas não é a primeira vez animais considerados extintos voltam à Floresta da Tijuca pelas mãos de pesquisadores do Refauna.

Macacos bugios e cutias também habitam o parque, depois de considerados extintos. Os bugios foram reintroduzidos em 2015, e as cutias, a partir de 2009, o que contribuiu para o retorno dessas espécies e também com a restauração dos processos ecológicos na mata.

Essa espécie de primata é herbívora e, por isso, também dispersa sementes, levando-as a longas distâncias. E ainda mantém uma “parceria” importante com besouros rola-bosta já que estes insetos – como o próprio nome diz – fazem pequenas bolas com fezes… em especial dos bugios, colaborando ainda mais com os processos de dispersão de sementes – eles as carregam e enterram – e de germinação.

Cutias, por sua vez, também são excelentes jardineiras, com um detalhe: são os únicos animais que enterram sementes de uma espécie específica de árvore conhecida como cutieira, exatamente devido à associação entre ambas as espécies. Onde não há cutias, as sementes dessa árvore ficam intocadas no chão e, geralmente, apodrecem.

Fotos: Tomas Silva, Agência Brasil (jabuti-tinga), Refauna (cutia), Ernesto Castro/ICMBio (bugio)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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