Instituto Ecosurf retira mais de 50 mil itens (lixo!!) das praias da Jureia, no litoral sul de SP


Foram 53.099 itens recolhidos que encheram 519 sacos de lixo de 100 litros! Você consegue imaginar? Eu não consegui, quando João Malavolta, pesquisador e idealizador do Instituto Ecosurf comentou sobre esta ação comigo. Mas ao ver as fotos – que reproduzo neste post – entendi a dimensão do incrível trabalho realizado por esta instituição e a importância desta ação. Inacreditável!

Foi essa a quantidade de resíduos que o pessoal do Ecosurf- em parceria com Fundação Florestal, pesquisadores e voluntários – recolheu nas praias da Jureia Mosaico de Unidades de Conservação (UC), litoral sul de São Paulo, no final de setembro.


A ação de combate à poluição – chamada de Operação Jureia-Lixo Zero – foi a maior desse gênero no país, realizada por uma organização da sociedade civil para limpeza de uma praia, e chamou a atenção das comunidades caiçaras que vivem na região. Agora, precisa chamar a atenção dos brasileiros!

Situada entre Iguape, Miracatu, Itariri e Peruíbe e a 160 quilômetros da capital, a Estação Ecológica de Jureia-Itatins (EEJI) é uma UC de proteção integral, banhada por rios formados nas serras e nos morros da estação, que tem como missão a preservação da natureza e a realização de pesquisas científicas.

Quem conhece sabe da beleza e da riqueza natural dessa região, banhada por rios formados nas serras e nos morros, que dominam grande parte da planície costeira, que tem três bacias principais: do Rio Verde, do Rio Una do Prelado e do Rio Guaraú. As praias são de areia fina e se situam em meio a formações rochosas ou ocupam longas extensões.

Para-choques, capacetes, garrafas, isopor, restos de brinquedos… 

Os resíduos estavam por todos os lados, espalhados pela areia, presos à vegetação (restinga). Para recolher tudo, foram necessários sete dias de trabalho (8 horas/dia) realizado por 30 pessoas, entre técnicos e profissionais da área ambiental, moradores de comunidades e ativistas, em uma área de 21 km, nas regiões do Rio Verde, Itacolomi, Grajaúna e Praia do Una. A análise levou em conta as características dos resíduos ou ‘lixo marinho’, como tipo, composição, quantidade.

Otto Hartung, gestor do Parque Estadual do Itinguçu – uma das Unidades de Conservação do Mosaico da Jureia-Itatins – destaca a importância dessa ação na região devido à quantidade absurda de lixo acumulado e de seu impacto sobre a fauna e a flora. “O litoral do mosaico recebe muitos resíduos trazidos pela maré durante o ano, o que vem causando grandes impactos nos ecossistemas da região, ao longo do tempo”.

Havia de tudo: chinelos de borracha, lâmpadas (perigosíssimas!!), latas, para-choques de automóveis, capacetes (moto), garrafas, tampas, roupas, isopor, restos de brinquedos, tampas de privada, enfeites de Natal, escovas de dente e ficou claro que o grande vilão de todos é o plástico: a maior parte do lixo encontrado é feita desse material. “Ele chega como um resíduo macro e, por causa das intempéries, do sal e da radiação solar, se fragmenta em partículas menores, se misturando à areia da praia. Isso é muito preocupante porque causa grandes danos à microfauna”.

Dos 53.099 itens encontrados, 12.214 eram garrafas PET! De pedaços de plástico diversos, foram recolhidos 9.558 fragmentos. Depois do plástico, a borracha e materiais como restos de rede e corda se destacaram: chinelos (1.249 unidades, não pares) e apetrechos de pesca (2.043).

Para Amanda Suita de Moraes, bióloga do Instituto Ecosurf, que coordenou a pesquisa e a gestão de resíduos sólidos dessa operação, ficou provado que praias remotas são verdadeiros depósitos de plástico: “Foram mais de 60 horas de ação e o resultado é assustador quando se observa a quantidade de itens triados. São mais de 50 mil unidades de materiais bem variados, entre termoplásticos, em sua maioria, além de vidro, e metal, que agora não estão mais gerando poluição neste frágil ambiente”.

Após a triagem, que separou os resíduos por tipo, o montante recolhido foi encaminhado por trator e barco para uma vila na Barra do Una, onde um caminhão esperava os sacos que seriam encaminhados a cooperativa de reciclagem na cidade de Itanhaém.

Plástico, o inimigo público número 1

Os dados técnicos gerados pela Operação Jureia-Lixo Zero ajudaram os pesquisadores a identificar os principais materiais trazidos pelas correntes marítimas naquela área isolada. João Malavolta, pesquisador do Instituto Ecosurf, que há três anos estuda a ‘invasão’ de plásticos nas praias do litoral sul de São Paulo, a situação é mais que preocupante, não só pela quantidade e tipo de lixo recolhido nessa região, mas porque não há nenhuma política pública que vise articular ações para enfrentar problema tão grave.

“Tiramos cerca de 12 mil garrafas PET dessas praias! Já imaginou isso? Em média, uma garrafa de dois litros tem aproximadamente 35 centímetros, então, se colocarmos uma garrafa em cima da outra, alcançaremos mais de 4 mil metros, o que equivale a um prédio com cerca de 1.300 andares! A informação serve para ilustrar o volume de lixo encontrado e também a dimensão do problema, levando em conta que o plástico não é biodegradável”.

Fundo privado para despoluir os oceanos e ações de educação ambiental

Certamente, poucas pessoas pensaram nisso até agora, mas o pesquisador bem lembrou que só será possível frear o avanço da poluição nas praias e oceanos se o plástico for banido do dia-a-dia das pessoas! Radical e muito sábia essa reflexão. Não há outra saída, mesmo.

“É preciso criar leis mais firmes para que as empresas fabricantes de materiais plásticos assumam responsabilidade sobre o resíduo que geram a partir da comercialização de seus produtos”, propõe Malavolta “A criação de um fundo privado para despoluir os oceanos e investimentos robustos em educação ambiental para o consumo consciente podem ajudar nessa cruzada contra a poluição marítima”.

Todas as informações geradas a partir dessa ação e de outras ações para a despoluição das praias servirão de subsídios para a Base Nacional de Dados sobre Lixo Marinho que está sendo desenvolvida pelo Instituto Ecosurf em parceria com outras organizações e universidades.

Fotos: João Malavolta e Amanda Suita/Divulgação Instituto Ecosurf

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Um comentário em “Instituto Ecosurf retira mais de 50 mil itens (lixo!!) das praias da Jureia, no litoral sul de SP

  • 17 de novembro de 2017 em 10:11 AM
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    Não adianta culpar apenas a população, responsável direta pelo descarte irracional do lixo, precisamos responsabilizar também os órgãos públicos, que não promovem a coleta e o aterro e , principalmente, os geradores primários, que são as fábricas dos produtos embalados no plástico. Coca Cola, Ambev, Cargil e muitos mais se escondem atrás de ações insignificantes perto do volume absurdo de lixo que geram. Total falta de responsabilidade. A Ecoplaca de Sorocaba domina técnicas para transformação das garrafas PET coletadas em produtos escolares, que dariam um destino digno a este lixo e possibilitaria a doação de ferramentas de aprendizado a crianças carentes. Alguem se importa com isto ?

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