Iniciativas aproximam agricultor familiar e consumidor e garantem segurança e acesso a alimentos saudáveis

Por estar, de algum modo, sempre perto dos agricultores familiares e suas cooperativas e associações em São Paulo, seja no contato direto ou consumindo suas hortaliças e verduras, tenho conhecido muitas plantas não-convencionais (PANCS), que não são encontradas em supermercados e quitandas com facilidade.

Por intermédio da Cooperapas – cooperativa de produtores orgânicos do extremo sul de São Paulo – conheci e provei várias delas, muitas das quais entraram para o meu cardápio de refeições diárias. Sempre que aparecem como opções na lista da cesta semanal de alimentos que compro, são as primeiras que escolho. A última novidade que experimentei foi uma beterraba laranja, de sabor e textura ligeiramente diferentes da vermelha, muito saborosa.

As cestas de alimentos orgânicos e familiares têm se multiplicado em São Paulo. São uma boa opção para os consumidores porque os aproximam de agricultores e agricultoras, além de garantir uma alimentação mais saudável.

Mas existe um sistema ainda mais interessante para estreitar essa relação: a Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA), que pode ser definida como uma parceria entre agricultores e consumidores, na qual riscos, benefícios e responsabilidades são compartilhados.

Funciona assim: por meio de uma cota fixa mensal, quem integra uma CSA se transforma em co-produtor, ou co-agricultor, recebendo – com frequência periódica – uma caixa com produtos agrícolas oferecidos pelo agricultor ou associação, em acordo com a estação e a safra do período, ou seja, respeitando sazonalidade e o produtor.

Desse modo, os agricultores contam com uma renda mais estável e segura e as pessoas se beneficiam com alimentos frescos e saudáveis, além de conhecerem mais sobre essa produção por conta da proximidade com os produtores, o que resulta numa relação de maior confiança.

Em São Paulo, por exemplo, essa modalidade existe na região do Grajaú graças à Casa Ecoativa, centro eco-cultural localizado na Ilha do Bororé, às margens da Represa Billings, que promove o acesso a cultura e a práticas sustentáveis. Chama-se CSA Sítio Paiquerê e surgiu a partir de uma reflexão sobre os desertos alimentares (locais sem acesso a alimentos nutritivos).

O extremo sul de São Paulo, rico em produção agrícola, sempre vendeu grande parte de sua produção para locais mais centrais da cidade, e os alimentos orgânicos não estavam facilmente acessíveis aos moradores da região, que é caracterizada como um deserto alimentar e não conta com a realização de feiras orgânicas. Para mudar essa situação, em 2017, a Casa Ecoativa implantou um sistema de assinatura de cestas, criando o projeto da CSA Sítio Paiquerê, com cotas mensais, voltado aos moradores locais.

Receitas para mudar o mundo

O modelo de CSA pode se expandir também para outros formatos, envolvendo diversos arranjos comerciais. É o caso, por exemplo, da Articulação entre Chefs e Agricultores (A.Ch.A), com apoio de docentes e residentes de agronomia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO. A iniciativa é estimulada pela Cambucá Consultoria junto a chefs do Instituto Maniva e agricultores da Baixada Fluminense e Centro Sul do estado do Rio.

Segundo Francine Xavier e Flávia Brito, idealizadoras e articuladoras da A.Ch.A, o projeto é financiado por chefs que assumem os riscos de produção e distribuição. Por outro lado, eventuais excedentes de produção ficam também com eles, sem custos adicionais.

O financiamento inclui ainda assistência técnica agroecológica, viabilizando o cultivo e a pesquisa de produtos singulares, desenvolvidos a partir do banco genético da universidade (que guarda amostras de diversos alimentos, como uma espécie de garantia para o futuro alimentar).

Tudo isso estimula a biodiversidade alimentar e a troca, dentro de um modelo de comércio justo, local e transparente.

Em 2018, a A.Ch.A produziu oito variedades de tomate, com diversidade de cor, sabor e textura. Oito chefs financiaram o projeto e três famílias de agricultores orgânicos produziram os alimentos. Toda a produção foi destinada e utilizada. Em 2019, a cesta de produtos foi ampliada, com triplicação da quantidade de alimentos e do número de chefs participantes.

Essas informações sobre a A.Ch.A estão disponíveis na publicação Isto não é (apenas) um livro de receitas – é um jeito de mudar o mundo, elaborado pelo Instituto Comida do Amanhã em parceria com UNIRIO e a Fundação Heinrich Böll Brasil.

O livro traz conteúdos sobre os principais impactos do sistema alimentar vigente no Brasil e se propõe a levantar desafios desse sistema, além de soluções, como o projeto desenvolvido com a A.Ch.A.

Tem também dezenas de receitas desenvolvidas em território brasileiro, destacando a importância do sabor e dos saberes e da cultura alimentar.

Além de revelar como os chefs podem ajudar nessa equação, o livro traz questões de empoderamento feminino, alimentação infantil, biodiversidade, desperdício, desafios de produção de alimentos e a relação entre comida, tradição e sustentabilidade.

Recomendo a leitura e o preparo das receitas deliciosas!

Foto: Rezel Apacionado/Unsplash

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

2 comentários em “Iniciativas aproximam agricultor familiar e consumidor e garantem segurança e acesso a alimentos saudáveis

  • 30 de outubro de 2019 em 9:29 AM
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    Pero Vaz de Caminha já havia descoberto que “na terra, em nela se plantando, tudo dá” e seguindo esse parâmetro não haveria fome no mundo nem se precisaria matar animais para o consumo dos pedaços dos cadáveres deles, à exemplo de como veganos se comportam, muito bem obrigado. Ideal mesmo é essa agricultura sem veneno, herbicidas, defensivos, agrotóxicos, tudo o que a gente deseja longe do cardápio porque impossível estar seguro consumindo o que a médio e longo prazo vai trazer doença, quiçá morte. Alimentos saudáveis não devem ser ingeridos junto com substâncias exógenas, não nascidas com eles mas a eles agregadas sob o argumento de mantê-los “saudáveis” (?) ainda que prejudiquem o ser humano, diminuindo-lhe a qualidade e o tempo de vida. Uma contradição o uso dos pesticidas que, comprovadamente, possuem opções não letais para os agricultores conscientes e ecologicamente corretos que podem perfeitamente evitar pragas em suas lavouras sem os defensivos agrícolas que não nos defendem deles, muito pelo contrário.
    https://www.ecycle.com.br/3671-agrotoxicos.html
    https://bbel.uol.com.br/decoracao/solucoes-para-substituir-os-agrotoxicos/
    https://bbel.uol.com.br/decoracao/solucoes-para-substituir-os-agrotoxicos/

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  • 1 de novembro de 2019 em 4:53 PM
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    Navegando nos sites indicados na reportagem e nas respectivas bibliotecas, percebemos o quanto a biodiversidade da Mata Atlântica do sudeste é pouco conhecida , estudada e divulgada. Cambuci, grumixama, uvaia, cambucá e outras frutas nativas que poderiam ser usadas para uma restauração florestal produtiva não são mencionadas. Principalmente o cambuci, em virtude de uma produtividade alta poderia ser uma alternativa de renda para os agricultores familiares dos morros do Vale do Paraíba.

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