Indígenas brasileiros ganham prêmio internacional da ONU por soluções inovadoras na preservação ambiental

Indígenas brasileiros ganham prêmio internacional da ONU por soluções inovadoras na preservação ambiental

Nós reconquistamos nosso território tradicional do povo Kīsêthjê, a Terra Indígena Wawi, em 1998. Em nosso território havia áreas desmatadas por fazendeiros que chegaram quando os irmãos Villas-Bôas nos levaram para o Parque Indígena do Xingu, em 1959. Usamos o pequi para fazer a floresta de novo, com fruta que a gente consome. O pequi é natural, orgânico, não usa veneno, a gente pode usar à vontade.

Plantamos nas roças e onde a floresta foi derrubada e aproveitamos para comer e tirar o óleo para passar na pele e pintar para as festas. Agora o pequi está sobrando, e começamos a tirar o óleo para comercializar. Esse trabalho fazemos só uma vez no ano, todo mundo junto, com um mutirão na época do pequi, de forma que não atrapalha a nossa convivência, cotidiano e atividades tradicionais. Essa atividade visa criar alternativas de trabalho e renda capazes de manter as próximas gerações na aldeia e na cultura tradicional nossa.

O relato acima é de Winti Kīsêthjê, um dos membros da Associação Indígena Kîsêthjê (AIK), localizada naTerra Indígena Wawi, no Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso.

Graças ao trabalho realizado na produção de óleo de pequi, aliando preservação ambiental e geração de renda, os Kîsêthjê foram um dos 22 ganhadores do Prêmio Equatorial 2019, concedido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

E há mais brasileiros entre os vencedores. O Conselho Indígena de Roraima, uma aliança que promove a “resiliência ecológica e social por meio da conservação da variedade de culturas agrícolas tradicionais, garantindo direitos em 1,7 milhão de hectares de terras tradicionais para 55 mil indígenas”.

Os brasileiros competiram com outros 847 concorrentes, de mais de 127 países. Os escolhidos foram indicados por um Comitê Consultivo Técnico de especialistas internacionais. O processo de seleção, com quatro estágios, priorizou abordagens comunitárias que servem de modelo de soluções replicáveis, que promovam a conservação ambiental e social, por meio do empreendedorismo e da preservação, e da variedade de culturas agrícolas tradicionais.

Pequi: ingrediente da culinária, rituais e mitos

Orgânico e fabricado de forma comunitária na aldeia dos Kīsêthjê, o óleo de pequi, ou Hwĩn Mbê na língua indígena, é essencial na cultura e alimentação desse povo. Está presente em seus mitos, rituais e festas.

A jornalista Liana John, já havia, inclusive, falado sobre o produto nesta outra matéria, no blog Bioconecta, aqui no Conexão Planeta.

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Diversas variedades de pequi, encontradas na região do Xingu

O óleo de pequi é comercializado por alguns parceiros do projeto, em São Paulo, como o Grupo Pão de Açúcar, no Programa Caras do Brasil, o Box Amazônia/Mata Atlântica no Mercado de Pinheiros, a New Harmony Cosméticos e o Restaurante Dalva & Dito, do chef Alex Atala.

Além do pequi, os Kīsêthjê também produzem mel e peças de artesanato indígena.

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Em 2018, houve recorde de produção do óleo:
315 litros foram obtidos pelos Kīsêthjê

Soluções sustentáveis e de combate à crise climática

O prêmio do PNUD tem como objetivo também disseminar iniciativas criativas, inspiradas no meio ambiente, que possam enfrentar os efeitos das mudanças climáticas e reduzir a pobreza.

“Todos os dias, milhares de comunidades locais e populações indígenas ao redor do mundo implementam, discretamente, soluções inovadoras baseadas na natureza a fim de mitigar a mudança global do clima e adaptarem-se a ela. O Prêmio Equatorial é tanto um reconhecimento de ideias excepcionais quanto uma forma de demonstrar o poder das pessoas e das comunidades de base em trazer uma mudança real”, destaca Achim Steiner, chefe do programa do PNUD.  

A cerimônia de entrega da premiação será realizada no próximo dia 24 de setembro, em Nova York, nos Estados Unidos. Os ganhadores receberão US$ 10 mil e participarão durante uma semana da cúpula da 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas.

*Com informações do PNUD Brasil

Fotos: divulgação Associação Indígena Kisêdjê

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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