A importância do andar descalço

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Nos dias 13 e 15 de junho, o Instituto Alana promoveu o 1º Seminário Criança e Natureza. Os dois encontros – realizados em São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente – representam um importante marco para todos aqueles que trabalham com crianças, acreditam que a natureza é importante para o seu desenvolvimento e encontram resistência e dificuldades para colocar essas convicções em prática.

Para nós do projeto Ser Criança é Natural, é uma realização e o começo de uma nova era, em que esse tema passa a ser acolhido, ouvido, estudado, observado na prática e com cada vez mais experiências sendo realizadas Brasil afora.

Durante o evento, muitas falas nos trouxeram insights, que transformaremos em temas para as nossas conversas, aqui, no blog. Uma delas veio do Dr. Daniel Becker que destacou que é tão evidente que o contato direto e livre das crianças com a natureza traz benefícios em diversos níveis que não deveríamos ficar esperando por resultados de pesquisas científicas para saber que criança e natureza precisam estar juntas. É uma percepção intuitiva.

Pais e educadores não deveriam precisar de receita médica para permitir que suas crianças sejam crianças. Mas como, devido ao nosso percurso histórico-cultural, acabamos nos afastando muito de nossa fonte de vida, serão precisos muitos argumentos para devolvermos a naturalidade à infância. Para construirmos esses argumentos, vamos observar uma breve história vivida pela Ana Carol, uma das autoras deste blog, em seu trabalho:

Em meados de abril, quando estávamos vivendo aquela onda de calor intenso, solicitaram que eu substituísse uma professora em outra escola. Era a primeira vez que estava naquele espaço, naquela comunidade, com aqueles adultos e aquelas crianças. Cheguei em uma sala com aproximadamente 25 crianças de 4 anos.

No primeiro contato com elas, já percebi que estavam todas calçadas, exceto um menino. Com o calor intenso que fazia, sugeri que todos tirassem os sapatos, e eu também faria o mesmo.

–  Não pode!, rapidamente afirmou uma educadora que me acompanhava.

Questionei o porquê, afinal, fazia muito calor.

– As mães podem não gostar e reclamar.

Fiquei incomodada com essa resposta e retruquei:

– E por que aquele menino pode?

– Ele tem receita médica, o ortopedista disse que ele não precisa usar palmilha e recomendou que ele andasse descalço. 

Se faz calor, é gostoso tirar os sapatos e refrescar os pés. Na sola dos nossos pés há terminações que correspondem a todos os nossos órgãos, segundo a medicina chinesa. Quando ficamos descalços todo o corpo fica ativado, desperto e energizado. Isso fica ainda muito melhor quando há terra ou areia para pisar.

O corpo reconhece esses elementos como “parentes” e pode ficar relaxado. Além disso, a terra e a areia são móveis, se amoldam aos pés, massageando-os. As crianças que têm pé chato são as que não tiveram oportunidade de caminhar livres e descalças sobre superfícies que permitissem a formação natural da arcada do pé.

Desde que as crianças começam a andar, é importante que possam caminhar descalças e por terrenos irregulares, de modo a desenvolver seu caminhar com segurança, uma vez que podem enfrentar diversos pequenos desafios para equilibrar-se. E, com isso, seus pés e todo o seu corpo se desenvolvem com liberdade, ampliando suas possibilidades de formar-se a partir de seu potencial inicial.

Por que motivos as mães podem não gostar ou reclamar se as educadoras permitem que as crianças andem descalças? Talvez porque não observaram, não refletiram ou não buscaram informações a esse respeito. Nesses casos, vale a pena as educadoras e os educadores buscarem na literatura dados que deem subsídios a essa atitude. Se as mães reclamarem saberão explicar o porquê.

Acima apresentamos alguns argumentos. Para mais informações, recomendamos consultar a rica biblioteca do site Criança e Natureza, recém lançado pelo Instituto Alana. E, se puder, deixe, abaixo, comentários e argumentos bem fundamentados para fortalecermos uns aos outros nessa construção!

Foto: Renata Stort

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto “Ser Criança é Natural” para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

16 comentários em “A importância do andar descalço

  • 26 de junho de 2016 em 9:35 PM
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    Sou e serei uma eterna professora de educao infantil,defensora por mais espacos naturais em nossos centros de educacao…

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  • 26 de junho de 2016 em 10:44 PM
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    Gostei do texto! Acho super importante as crianças e adultos andarem descalços por diversas razões. Contudo, não se pode afirmar que as crianças que têm pés chatos são aquelas que não andaram descalças. Há a herança genética que pode ser impossível de ser mudada mesmo em casos extremos quando se chega a fazer até cirurgia corretiva. Sou professora de dança de crianças. Há alunas de 3 anos que têm o arco plantar bem curvos (mesmo sempre calçadas) outras, bem planos (mesmo ficando descalças).

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  • 27 de junho de 2016 em 10:47 PM
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    Muito bom… E sobre as crianças, o arco tem aproximadamente até os 7 anos para se formar, antes disso a maioria delas têm o pé plano, salvo alguns poucos casos que precisam de correção. E nem sempre porque o pé é plano ou cavo causará problemas…

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  • 28 de junho de 2016 em 12:19 PM
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    Olá Carolina, como vai? Muito obrigada pelo comentário. Nossa afirmação foi realmente muito generalizante. Você tem razão. O que quizemos dizer é que as crianças que têm a oportunidade de andar e correr em solos com areia, terra e lama têm menos probabilildade de desenvolver pé chato. Essa informação veio de uma profissional de fisioterapia. Vamos buscar então mais dados de pesquisa e voltaremos a conversar sobre isso. Muito obrigada mais uma vez. Sigamos!

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  • 29 de junho de 2016 em 9:13 PM
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    Eu amo andar descalça, andar pisando na terra me faz sentir uma conexão muito íntima com a natureza e com o planeta!

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  • 3 de julho de 2016 em 9:52 PM
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    Concordo que é muito importante o contato da sola dos pés com a terra! Porém ao mesmo tempo sabemos que é importante manter os pés aquecidos no inverno por exemplo, e deixar a criança descalça andar em cerâmica etc pode não ser tão saudável. Há também o receio de a criança pisar em algo cortante, ou por exemplo fezes de cachorro etc e levar à boca.
    Sempre que estou no parque ou em grama, quando não está frio, deixo minha filha descalça, mas sempre alerta para estar segura. Imagino que essa seja a restrição nas escolas.

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  • 4 de julho de 2016 em 9:35 PM
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    Carolina, pés planos ou cavados dependem essencialmente de genética e não de ‘ajudas’ ortopédicas; 90% de consultas ortopédicas de crianças referem-se a formatos de pés e pernas que a mãe/pai não compara com os dos avós, cunhados, tios e primos; abçs

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  • 4 de julho de 2016 em 9:39 PM
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    Rita, parabenizo-te pela matéria; o maior mérito do texto é incentivar pais e profs a deixar a criança livre, leve e solta; nem sempre se consegue alterar o arco dos pés, mas consegue-se que a criança adquira coordenação motora e não viva caindo por não ter noção especial; parabéns!

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  • 4 de julho de 2016 em 9:40 PM
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    o medo é o pior conselheiro de pais e cuidadores, como se criança fosse um ser frágil e um doente em potencial

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  • 12 de julho de 2016 em 8:03 AM
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    Puxa é interessante e necessário o contato da criança com o solo, desde que seja seguro =)
    Muito bom o texto.
    Parabéns.

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  • 22 de julho de 2016 em 12:04 PM
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    Óptimo texto. Quando tive a minha primeira filha, aprendi que, acima de tudo, o nosso instinto como mães deve ser sempre valorizado e colocado em primeiro plano no novo desafio. Foi a pediatra dos meus filhos que me ensinou isso e me deu sempre motivação para me sentir orgulhosa e confiante nos meus instintos. Sempre deixei os meus filhos bebés e crianças andarem descalços. Mesmo quando vinhamos à rua, eles não usavam sapatinhos, quanto muito, umas meias para não ficarem com os pés frios. Mas em casa, sempre descalços. Nunca me arrependi nem me arrependo. Eu mesma, a primeira coisa que faço quando chego a casa, é descalçar-me. A maioria das pessoas sempre me criticou por isso (sogros, cunhadas, amigas chegadas e outras com simples olhares). É mau porque causa doenças, apanhas o colibacilo, constipações, infecções nos rins… fica-se com o pé mais largo…. eu sei lá. Um dia, uma pessoa simples, habituada a viver no campo, e que estava descalça na rua, na relva em frente ao prédio, comentou que a melhor coisa que podia fazer para se sentir melhor em termos de ansiedade e até contraturas musculares, era andar descalço, os pés na terra. Disse ele que a terra funciona como canalizador das energias acumuladas, tal e qual como com a electricidade (existe um fio chamado “terra”) ajuda a que todas as energias acumuladas no nosso corpo sejam “descarregadas” através desse contacto. Esta explicação, tão simples e tão lógica, fez-me sentir ainda mais confiante naquilo que chamo “seguir o meu instinto”. Não apenas como mãe, mas como ser humano. Afinal, no fundo, todos nós acabamos, instintivamente, por saber o que é melhor para nós e para os nossos filhos. As condicionantes culturais, educacionais e sociais, a maior parte das vezes, contrariam aquilo que nos pode trazer mais bem estar emocional, físico e espiritual ….

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  • 15 de setembro de 2016 em 2:16 PM
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    Se procurarmos saber que tanto na prática de quem passa a sua vida, ou parte dela descalço:ou na literatura sobre o magnetismo da terra, veremos que a conduta adotada pela sra de nome a, é bem mais coerente.Parabéns!

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  • 3 de fevereiro de 2017 em 3:28 PM
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    Morei em Campo Grande /MS. Lá minha filha (hoje com 23 anos) a primeira coisa que fazia quando chegava na escola , desde um ano, era tirar os sapatos, tinha uma caixa na porta de cada sala para guarda-los. Na escola tinha areia e um ” caminho de pedra” , de vários tamanhos , com pouco de água, para se andar. Ela chegou a me pedir que fizesse no apartamento um ” caminho de relaxar”. Depois viemos para Santa Catarina, que acredito ser por causa do clima, tirar sapato nem pensar, assim que chegava a primavera ela queria ficar descalça, mas a escola não permitia, tive que conversar com a professora e explicar que era muito natural ficar descalça. E logo as outras crianças também queriam, mas as mães não deixavam. Até hj não vejo crianças descalças nem no verão.

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  • 30 de agosto de 2018 em 10:57 PM
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    A médica da minha filha nos orientou deixá-la andar descalça para formar o arco do pé!!

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