‘Ilha das Flores’: o que aprendemos sobre lixo e humanidade com o melhor curta-metragem de todos os tempos

A história de um tomate, do momento em que é colhido até quando é descartado e passa a servir de objeto de disputa entre porcos e seres humanos famintos, é a espinha dorsal de Ilha das Flores – Um lugar onde há poucas flores, considerado o melhor curta-metragem brasileiro de todos os tempos pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

Este ano, o filme completa 30 anos e segue sendo mais atual do que nunca. Foi escrito e dirigido pelo cineasta Jorge Furtado e causa reação de espanto e fascínio em todos que o assistem. Não apenas pela história em si, mas também pelos recursos cinematográficos usados, bastante modernos para a época, baseados em cortes rápidos de imagens, texto jornalístico misturando inferências diversas, trilha sonora instigante e um final que não deixa ninguém indiferente.

A tal “ilha”, na verdade, é uma região às margens do Rio Guaíba que recebia uma boa porção dos resíduos produzidos em Porto Alegre. Os caminhões despejavam sua carga no lixão. Ali, os donos de porcos davam acesso a seus animais para consumirem o que lhes apetecessem e só depois os catadores e suas famílias poderiam entrar e desfrutar do que os porcos haviam rejeitado (assista ao vídeo no final deste post).

Mas o que explica o sucesso de Ilha das Flores e que serve, ainda hoje, de inspiração para outros criadores de narrativas que buscam mobilizar e engajar as pessoas? Listei cinco características imprescindíveis:

1. Storytelling humano

A história contada em Ilha das Flores encontra sua força exatamente ao mostrar, de forma direta e crua, o aspecto humano envolvido.

A opção não foi a de contar como funciona o sistema de coleta, manejo e descarte dos resíduos sólidos da capital gaúcha. Ao contrário, a intenção foi aliar os aspectos emocional e intelectual. A opção por mostrar os personagens envolvidos no ciclo total do cultivo, colheita, comercialização, rejeição, coleta, descarte e consumo final do tomate no lixão ajuda a entender a complexidade do sistema a partir do papel que qualquer um de nós joga “fora”, em diferentes momentos de nossas vidas. 

2. Linguagem ágil

Os cerca de 13 minutos do curta-metragem passam voando graças também à edição inteligente que mescla elementos da história em si, com diversos outros que a completam e referenciam, como os fatos ao redor da criação do dinheiro, da fabricação de perfumes e da diferenciação dos seres humanos com relação aos outros animais. Temos um “telencéfalo altamente desenvolvido e a capacidade de fazer pinça com os dedos”.

Uma forma inteligente e ousada, para a época, de mostrar a complexidade do processo de geração, manipulação e descarte de rejeitos

3. Argumentação inteligente

Outro aspecto importante do curta-metragem de Jorge Furtado foi a sua opção explícita de não tentar “paternalizar” a audiência, seja abusando de termos técnicos ou simplificando demais o conteúdo. Ao contrário, o roteiro, que pode ser lido aqui, flui de uma forma bastante natural, o tempo todo buscando prender a atenção com informações relevantes, mas que se concatenam com a ideia central.

O tempo de duração – 13 minutos – é perfeito, porque não cansa, mas deixa espaço para contar uma história completa. Neste sentido, Ilha das Flores adiantou, em muitos anos, o tipo de formato que viria a se consagrar com a emergência de serviços como o oferecido pelo You Tube.

4. Atemporalidade

Uma característica interessante de Ilha das Flores é a sua “atemporalidade”.  Lançado em 1989, o curta-metragem é até hoje atual em praticamente todos os seus aspectos. Não apenas porque a situação retratada é ainda vigente pelo Brasil afora, mas porque Furtado também teve o cuidado em não marcá-lo com elementos que dificultassem o seu entendimento ou a conexão com audiências em outros ambientes culturais ou temporais.

O assunto tratado é universal, mesmo quando a história se passa em um determinado contexto geográfico. 

5. Mensagem aberta

Ilha das Flores não conclui com um call to action específico. Neste sentido, não é um vídeo de campanha que chama as pessoas a fazerem ou deixarem de fazer algo. No entanto, produz incômodo.

Fica claro que cada um de nós, que o assistimos, fazemos parte do circuito que gera a situação retratada. É um material perfeito para ser usado em rodas de conversa, treinamentos, jornadas de sensibilização e até para animar um bate-papo entre pais e filhos. Esta talvez seja outra razão para a perenidade e atualidade de Ilha das Flores

Como o curta-metragem lembra: “Os humanos se diferenciam dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por serem livres”. Esta liberdade inclui, sobretudo, a nossa decisão consciente de fazer algo em favor do próximo e do meio ambiente

Nota da Redação – O filme de Jorge Furtado foi escolhido por um júri formado por críticos, professores e pesquisadores de diversas regiões do país, definido pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, como parte do projeto de um livro – Curta Brasileiro: 100 filmes essenciais – produzido pelo Canal Brasil e a Editora Letramento e que será lançado no segundo semestre deste ano.  A Ilha das Flores venceu o Urso de Prata, em Berlim, em 1990, e, nesta lista, está bem acompanhado pelo curta-metragem ‘Di’ , de Glauber Rocha (1977), em segundo lugar, ‘Blablablá’, de Andrea Tornacci (1977), em terceiro, ‘A Velha a Fiar’, de Humberto Mauro (1964), em quarto, e ‘Couro de Gato’, de Joaquim Pedro de Andrade (1962). 

Agora, assista Ilha das Flores:

Fotos: Reprodução e Divulgação

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias – Gestão Origami e Together – e Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil. Atualmente, é Assessor Sênior do Social Good Brasil e VP de Engajamento da Together, agência focada em processos de mobilização para causas de impacto

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