Idealizado pelo empresário Carlos Wizard, projeto acolhe e auxilia refugiados venezuelanos a encontrar emprego no Brasil

Idealizado pelo empresário Carlos Wizard, projeto acolhe e ajuda refugiados venezuelanos a encontrar emprego no Brasil

Poucas vezes nos deparamos com a história de empresários que, não apenas doam dinheiro para alguma causa, mas dedicam seu tempo a elas. Por isso mesmo, a iniciativa de Carlos Wizard Martins é tão bacana.

O paranaense, filho de um motorista de caminhão e uma costureira, teve um início de vida humilde, mas soube aproveitar as oportunidades que a vida lhe deu muitíssimo bem. Depois de muito estudo e investimentos (bastante) bem sucedidos, em 2014 apareceu na lista de bilionários da revista Forbes, após vender as redes de idiomas Wizard, Alpes e Yázigi, que fundou, para um grupo britânico.

Atualmente, Martins é proprietário do Grupo Sforza, que detém marcas como Aloha, Mundo Verde, Taco Bell, Pizza Hut, KFC, Frango Assado, WiseUp, Social Bank, entre outras.

Mas desde 2018, o empresário vive com a esposa Vânia, em Boa Vista, Roraima. Mudou-se para lá com o objetivo de acolher os refugiados venezuelanos que chegam ao Brasil. “Somos voluntários nessa causa humanitária. Estamos doando tempo, recurso e experiência para proporcionar para essas pessoas uma oportunidade de recomeçar a vida em solo brasileiro”, contou ao Conexão Planeta.

Martins é o idealizador da plataforma Brasil do Bem, através da qual comerciantes, empresários e pessoas em geral podem oferecer uma vaga de trabalho ou moradia para uma família de refugiados, em qualquer lugar do país. Graças a seu esforço, boas relações e notoriedade, o empresário fechou ainda parceria com companhias aéreas, que levam gratuitamente essas pessoas para outras cidades.

Estima-se que, apenas em 2019, mais de 190 mil venezuelanos tenham cruzado a fronteira, fugindo da pobreza e do caos provocado pelo governo de Nicolás Maduro.

Em pouco mais de um ano e meio de atuação, o projeto Brasil do Bem já conseguiu ajudar aproximadamente dez mil dessas pessoas a recomeçar sua vida em nosso país.

Na entrevista abaixo, Martins fala sobre sua experiência em Boa Vista, os desafios enfrentados pelos venezuelanos e também, sobre a criação de um grupo de apoio a refugiados autistas.

Como tem sido seu trabalho no Brasil do Bem?
Passei a vivenciar o dia a dia dos imigrantes que chegam em Boa Vista em estado de miséria. Senti que era necessário fazer mais e, para isso, como empresário, tenho contato com diversas lideranças, nos mais diversos setores. Foi assim que nasceu a plataforma Brasil do Bem. Somos mais de 200 milhões de brasileiros, se cada um fizer um pouco, conseguiremos ajudar as 10 mil pessoas que estão em Roraima aguardando por acolhimento.

Quais são as principais dificuldades enfrentadas pelos refugiados ao chegar ao Brasil?
São as mais diversas dificuldades. Geralmente chegam ao país sem ter um local para ficar, muitos acabam ficando nas ruas, em prédios abandonados, outros em abrigos. Alguns chegam ao país com estado de saúde crítico. Outros chegam na fronteira apenas com a roupa do corpo. Graças ao apoio das Forças Armadas, dezenas de agências e da sociedade civil, milhares de pessoas são acolhidas em Roraima enquanto esperam para participar do programa de interiorização.

Existe uma estimativa de quantos venezuelanos vieram para Roraima em 2019?
As estimativas apontam que foram mais de 190 mil pessoas. Esse é um número relativamente pequeno quando comparamos o número de brasileiros que deixaram o país e migraram para países da Europa, América do Norte e Austrália. Hoje temos muito mais brasileiros que deixam o país a cada ano, comparado aos estrangeiros que buscam residência no Brasil.

Como funciona, na prática, o Brasil do Bem?
A ideia principal do projeto é promover a interiorização dos venezuelanos que se encontram em Boa Vista. Para isso, buscamos oportunidades para que eles possam reconstruir suas vidas em outros estados brasileiros. Com isso terão acesso a moradia, educação para os filhos, alimentação, saúde, emprego e renda. 

Eu particularmente convido líderes empresariais, comunitários, religiosos, representantes do poder público e da sociedade civil que tenham o desejo de contribuir com a causa a acessar a plataforma. Essa contribuição pode acontecer de duas formas: oferecendo uma vaga de emprego ao refugiado ou acolhendo uma família em sua comunidade.

Graças a uma parceria firmada com as três principais empresas aéreas do Brasil, o transporte dessas famílias é feito a custo zero para qualquer parte do país. Criamos uma central de atendimento na qual as pessoas podem nos contatar com uma oferta de trabalho ou acolhimento de uma família em sua cidade através do WhatsApp 19-99955-9050.

Os refugiados enfrentam preconceito ou discriminação ao tentarem começar uma nova vida no país?
Felizmente nesse período em Roraima eu não testemunhei nenhuma ação de preconceito ou discriminação em relação aos imigrantes. Muito pelo contrário, a população de Boa Vista há muito tempo é solidária no acolhimento de milhares de famílias que chegam a cidade. Sem contar que a chegada dos imigrantes fomentou a economia local.

Hoje é difícil conseguir uma passagem para Boa Vista. Os voos estão lotados. Restaurantes, hotéis, locadora de carros, supermercados, todos esses setores foram beneficiados com o fluxo migratório no estado. Quanto a outras cidades do país, é comum ver os refugiados sendo entrevistados pelas rádios, jornal e televisão. Muitas vezes são os primeiros refugiados a chegar naquele município. De abandonados se tornam celebridades.

O que essas pessoas mais precisam neste momento? Como sua acolhida poderia ser melhor?
Na maioria das vezes, os imigrantes deixam seu país fugindo da fome. Então, é obvio que ao cruzar a fronteira estão em busca de itens básicos de alimentação e higiene, roupa, e abrigos temporários. No entanto, permanecer nos abrigos montados pelas Forças Armadas em Roraima não é a solução.

Por isso, faço o apelo para que os empresários, lideranças políticas e religiosas se sensibilizem, oferecendo oportunidades de emprego e moradia para que os venezuelanos recomecem sua vida com autonomia e dignidade. A solução para esse fluxo migratório não está no estado de Roraima. O estado é apenas uma porta de entrada para o Brasil. A solução deve ser compartilhada com os demais estados do país.

Idealizado pelo empresário Carlos Wizard, projeto acolhe e ajuda refugiados venezuelanos a encontrar emprego no Brasil

Graças ao Brasil do Bem, cerca de 10 mil venezuelanos
já receberam ajuda

O que é o programa focado na ajuda a famílias com crianças autistas?
Muitas famílias cruzam a fronteira e chegam ao Brasil com filhos autistas sem qualquer orientação de como lidar com essa condição. A maioria dessas crianças era ignorada em seu país de origem. Graças ao apoio da terapeuta ocupacional Amanda Vilela, uma das maiores especialistas de autismo no Brasil, criamos um grupo de apoio chamado Niños de Valor. Esse programa é voltado para crianças refugiadas portadoras do TEA (Transtorno do Espectro Autista).

É um trabalho voluntário e gratuito que atende quase 100 famílias venezuelanas em dez estados do Brasil. Amanda emprega terapias e óleos essenciais que estimulam o desenvolvimento cognitivo das crianças. Elas recebem acompanhamento semanal online sob a supervisão de um dos pais. Recentemente me reuni em Brasília com o Conselho da Pátria Voluntária, presidido pela primeira dama, com o objetivo de estender esse programa às crianças brasileiras que sofrem com o mesmo problema.

A ideia para a criação do programa surgiu da sua experiência pessoal. Poderia falar mais sobre isso?
Sim, esse é um tema sensível para mim, tenho um filho autista. Desde sua infância tenho me identificado muito com a causa de apoiar essas crianças a terem o maior desenvolvimento cognitivo possível. Por isso, investi na pesquisa e desenvolvimento de um óleo essencial chamado Ability, com objetivo de auxiliar no desenvolvimento dos portadores do TEA. Algumas gotas desse óleo essencial ajudam as crianças a aumentar sua capacidade de comunicação, socialização e concentração. O objetivo desse programa é estimular as vias sensoriais, equilibrar os níveis de alerta e potencializar a aprendizagem da criança.

Idealizado pelo empresário Carlos Wizard, projeto acolhe e ajuda refugiados venezuelanos a encontrar emprego no Brasil

“Não sou político, militar ou servidor público, eu represento a sociedade civil. Essa condição me dá muito mais liberdade e agilidade
no processo de decisão e ação“, diz Martins

Qual o seu sentimento de estar ajudando o próximo?
Gosto muito de uma passagem que diz: “Quando estamos a serviço do próximo, estamos somente a serviço de Deus.” Essa é a sensação que tenho ao servir nessa missão humanitária. Até o momento cerca de dez mil pessoas já foram acolhidas pelo programa Brasil do Bem. Quando penso no impacto nas vidas dessas famílias, especialmente dos pais com filhos pequenos, tenho a sensação que estamos impactando gerações futuras. Tudo isso é muito gratificante e recompensador.

O senhor é um empresário muito bem sucedido e poderia contribuir apenas financeiramente para diversos projetos. Por que sente a necessidade de estar presente e colocar “a mão na massa”?
É fácil assinar um cheque e fazer uma doação a uma causa. Essas doações são necessárias e bem vindas. No entanto, é necessário que haja uma equipe na linha de frente, organizando, coordenando, planejando, interagindo com diversos atores unidos com um objetivo comum. Sendo que não sou político, militar ou servidor público, eu represento a sociedade civil. Essa condição me dá muito mais liberdade e agilidade no processo de decisão e ação. Atualmente não trocaria essa experiência por nenhuma outra atividade. Diariamente agradeço a Deus por essa experiência enriquecedora do ponto de vista humanitário.

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*Quando criamos o Conexão Planeta, definimos que nossa missão seria Inspirar para a Ação. Além de noticiar assuntos ligados ao meio ambiente e diversas outras áreas, nosso desejo era que a cada texto lido, mais e mais brasileiros fossem estimulados a transformar o lugar onde vivem com pequenas ou grandes ações. Com isso, frequentemente contamos histórias de pessoas com projetos que têm como foco principal ajudar o próximo, melhorar a vida de sua comunidade ou solucionar algum problema ambiental.

Mas nesses últimos quatro anos, escrevemos muito sobre exemplos lá de fora, iniciativas realizadas no exterior, e talvez um pouco menos sobre o que vem sendo feito dentro do Brasil. A razão é que muitos projetos nacionais acabam não sendo divulgados, não chegam ao nosso conhecimento e não recebem a atenção devida.

Por essa razão, quando li sobre o projeto social Brasil do Bem, achei que essa era uma iniciativa que precisava estar em nosso site.

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Fotos: divulgação Brasil do Bem/Claudio Gatti

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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