Histórias de vida de 300 brasileiros serão eternizadas em cofre da memória da humanidade no Ártico

 “Com 7, 8 anos, eu já estava plantando, tangendo boi, apartando vaca, tirando leite. Levantava às 5 da manhã. À tarde botava vacas e cabras no chiqueiro… Manuel, João, José, Rita e eu. A Rita era poupada, não gostava de trabalhar na roça. Fez o curso primário na escola do povoado, depois foi professora primária. Ela tinha uma escolinha de alfabetização. Eu e vários colegas da região fomos alfabetizados pela minha irmã. Só depois é que fui para a escola do Paiaiá…

Quando eu concluí o primário já tinha 13 anos. Foi lá no povoado de São José do Paiaiá. Eu andava 3 km a pé para chegar lá. No dia da formatura, declamei uma poesia do Olavo Bilac, “Oração à bandeira”. E outra que eu gostava era “Essa negra fulô”, do Jorge de Lima. Estava presente o delegado de ensino, que era analfabeto. Era analfabeto e delegado de ensino. Chamava-se Joaquim e tinha apelido de Joaquim de Quiabinho. Ganhei dele, de presente, um cacho de bananas. E ganhei um livro também, o primeiro livro que ganhei na vida…”.

A história acima foi contada por Geraldo Moreira Prado, o Mestre Alagoinha, para o Museu da Pessoa. O baiano, que começou a vida na roça, conseguiu se formar em História, na USP, e realizou o sonho de criar a própria biblioteca quando voltou à sua terra natal – considerada hoje a maior biblioteca rural do mundo.

A trajetória desse brasileiro, assim como outras milhares, está guardada no arquivo digital do museu, virtual e colaborativo*, em São Paulo.

Atualmente, o acervo do Museu da Pessoa tem catalogadas 17 mil histórias e 60 mil fotos e documentos. O grande objetivo dessa iniciativa é valorizar a diversidade cultural e a história de cada pessoa como patrimônio da humanidade e contribuir para a construção de uma cultura de paz.

Agora, o depoimento de 300 brasileiros será enviado ao Arquivo Ártico Mundial, um cofre com memórias da humanidade, localizado na ilha de Svalbard, na Noruega.

Além dos depoimentos, com mais de 100 horas de gravação, a coleção “Memória de Brasileiros e Brasileiras”, reúne ainda 2 mil fotos digitalizadas.

“O Arquivo Ártico Mundial preserva o que há de mais precioso para a humanidade. Incluir a memória de nosso país por meio da história de pessoas comuns é uma inovação brasileira e significa compreender o valor de cada pessoa para a construção de uma sociedade. Daqui a 500 anos será possível saber como viviam, pensavam e sentiam os brasileiros de todas as classes, regiões e gêneros por meio dessa democratização da memória”, afirma Karen Worcman, diretora-presidente do Museu da Pessoa.

As histórias dos brasileiros que estarão guardadas no Ártico foram gravadas em expedições que passaram por 42 cidades, em 14 estados do Brasil.

Dentre os depoimentos enviados estão os de:

– Gerado Prado, que abre este post:

– Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista e escritor;

–  Valdete Cordeiro, lavadeira e criadora do grupo “Meninas de Sinhá”, que reúne mulheres idosas da periferia de Belo Horizonte para cantar músicas de ciranda da tradição brasileira;

– Alphonse Wanyembo, refugiado do Congo e professor do projeto “Abraço Cultural”, que emprega refugiados como professores de suas línguas nativas;

– Elenice Fernandes, vítima de escravidão contemporânea;

– Laerte, uma das mais conhecidas e importantes quadrinistas do Brasil;

– Amyr Klink, navegador brasileiro, palestrante, escritor e o primeiro a fazer a travessia do Atlântico Sul, em 1984;

– Joselita Cardoso, líder nacional dos catadores de papel.

Os depoimentos compõem um mosaico da diversidade e pluralidade do povo brasileiro. Eles estarão ao lado de outras lembranças valiosas da humanidade, como manuscritos da Biblioteca do Vaticano, uma réplica da pintura O Grito, de Edvard Munch e os discursos de Albert Einstein.

*O Museu da Pessoa está aberto a toda e qualquer pessoa que queira registrar e compartilhar sua história de vida. Se você tem interesse, acesse este link para saber como participar.

Fotos: divulgação Museu da Pessoa

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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