Muriquis e Troféus da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental

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Esta semana começa a 5ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental na cidade de São Paulo. Parece estranho abordar cinema e meio ambiente num espaço de economia solidária? Mas não é.

Em 2014, ano em que comecei a trabalhar com a Mostra, foi criada a Competição Latino-Americana, programa que premia os melhores filmes produzidos por países da América Latina.

O passo seguinte foi definir como criar os troféus para premiação –  como trabalhar seu design, que tipo de material usar. A primeira certeza é que teríamos que garantir que o processo de produção fosse o mais correto possível social e ecologicamente, que utilizasse materiais reaproveitáveis e contratasse empreendimentos e iniciativas de economia solidária para sua co-criação e execução. Uma outra questão era encaixar o mascote da Mostra, um simpático macaquinho da espécie muriqui, em contextos de travessura e descoberta.

Faltava, então, um parceiro que desse materialidade a tudo isso, que criasse um projeto de design para os troféus. Agregamos o grupo Design Possível, com o qual eu havia trabalhado durante anos, em projetos de exposições como Eu Não Sou de Plástico e Segunda Sem Carne. Em todos esses projetos, a preocupação sempre foi criar uma ambiência estética que impactasse o público, ao mesmo tempo em que envolvíamos empreendimentos de economia solidária e reaproveitávamos materiais.

A concepção ideológica do projeto dos troféus da Mostra é de Ivo Pons, do Design Possível, que pelo terceiro ano consecutivo dá forma plástica a inspirações e indagações trazidas pela Ecofalante: “Uma das coisas mais bacanas dos troféus, além de interpretarem o sentido da Mostra e serem executados por parceiros da economia solidária, é o aprendizado dos próprios empreendimentos, que se dispõem a parar suas atividades e construir conosco algo novo, porque conseguem ver o valor da Mostra e o alinhamento com seus ideais. No fim das contas, somos apenas facilitadores da materialização, em peça, do próprio sentido do evento”, define ele.

Já foram cirados três modelos de troféus para a Mostra, um para cada edição da Competição Latino-Americana. No primeiro deles, o muriqui foi confeccionado pelo Projeto Tear, que deu forma à madeira proveniente de podas de árvores e descartes trazendo o muriqui sobre um galho, empunhando sua câmera cinematográfica.

O Tear iniciou sua trajetória em 2003 e é um serviço público de saúde mental que atua no campo da inclusão social pelo trabalho de cultura e convivência, integrando a Rede de Atenção Psicossocial do Município de Guarulhos, por meio de parceria entre a Prefeitura de Guarulhos, Associação Saúde da Família, Associação Inclui Mais e um laboratório farmacêutico. As oficinas de trabalho e intervenção cultural funcionam como espaços de convivênciageração de trabalho e renda para pessoas em situação de sofrimento psíquico ou outras vulnerabilidades socioafetivas. A renda obtida com os produtos e serviços é revertida para os participantes sob a forma de bolsa oficina.

Na edição seguinte da Mostra, em 2015, voltamos a trabalhar com madeira e com o Projeto Tear. No novo troféu, foram mantidos em madeira a base e o muriqui, e uma ‘gota de água’ em cristal foi agregada, substituindo o galho de árvore do ano anterior. Produzida pela empresa familiar Cristais São Marcos, a gota remetia ao colapso hídrico vivenciado pelo sudeste do Brasil.

Em 2016, a inspiração para o troféu foram os recursos naturais. O desastre ambiental de Mariana fez com que o elemento escolhido para confeccionar o troféu fosse metal. A Unimáquinas, cooperativa localizada em São Bernardo do Campo, é a responsável pela criação dos troféus (falei dessa cooperativa em meu último post, aqui no Conexão). Feitos em inox, com reaproveitamento de peças e chapas, trazem mais uma vez o muriqui interagindo com outros elementos. As peças serão entregues aos diretores dos melhores filmes da Competição Latino-Americana e aos estudantes vencedores do Concurso Curta Ecofalante.

A escolha da cooperativa veio após uma consulta à Unisol Brasil (Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários do Brasil), que identificou, entre aqueles empreendimentos constituídos a partir de empresas recuperadas, os que teriam disponibilidade para participar do processo. “Em um momento difícil economicamente, escolher uma indústria onde os trabalhadores se organizaram e assumiram a empresa no modelo de autogestão, e com economia solidária, é uma inspiração”, afirma Pons.

Foto: Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas Eu Não Sou de Plástico e, em parceria com a SVB, a Segunda Sem Carne. Colaborou com a revista Página 22 da FGV e com a Unisol Brasil. Há 3 anos é coordenadora de comunicação da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental.

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas Eu Não Sou de Plástico e, em parceria com a SVB, a Segunda Sem Carne. Colaborou com a revista Página 22 da FGV e com a Unisol Brasil. Há 3 anos é coordenadora de comunicação da Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental.

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