Hema Upadhyay: o mundo precisa dar muitas voltas

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Ter que pousar no arame farpado que cerca a cidade poluída e fétida bem poderia ser a metáfora da vida dessa migrante de fronteira. Assassinada e jogada nos esgotos de Mumbai no final do ano passado. Que destino cruel o da artista indiana Hema Upadhyay, que morreu ao lado do seu advogado.

A pergunta – que, se não chega a ser sórdida, transita na trilha da ironia e da tristeza –surge quando se tenta ler o impreciso noticiário da morte. Ela foi encontrada enrolada em plástico ou estava em caixas de papelão? Parece que foram as duas coisas. E deve ter sido estrangulada… A crueldade do assassino ficou patente. Ambientou a morte num cenário que poderia ser o da própria obra da artista. E até a dúvida – tenho que repetir aqui o quanto o viés é irônico – sobre o material e a tentativa sumária de uma mumificação à moda da contemporaneidade, nos remete a uma preocupação bem dela.

Papelão é bem mais degradável do que plástico. A situação é mais do que degradante. E desagradável, desajustado, desatinado, desvairado é o assassino que nos obriga a conviver com a morte dessa grande artista da arte contemporânea.

A polícia suspeita de morte passional. O ex-marido, que é – veja só! – artista, está sendo investigado. Um outro homem armado, que chegou a ser preso, confessou o crime, alegando que Hema não havia pago um artesão fornecedor de material para sua obra. Mas a confissão não convenceu a polícia. Não direi que foram “palavras ao vento” porque é uma frase muito poética para o momento. Grotesca até. Como as aves migratórias incluídas nas paisagens sociais e políticas de Hema.

Mudanças marcam, mesmo, para sempre. Percebem-se, claramente, na arte de Hema os reflexos da saída de Baroda, no Paquistão para Gujarat, na Índia, acompanhando os pais, ainda criança. E, como acontece quando a arte é mesmo arte, a memória individual vira história de muitos e propaga-se em ondas que reverberam temas tão em pauta como os deslocamentos humanos forçados ou os caminhos da urbanização.

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Nas favelas que sobem pelas paredes, no Centro Pompidou, em Paris, compreendemos a compressão a que estão submetidos os que moram dessa forma: mais pressionados, vamos e venhamos, do que aqueles que não vivem de perto essa realidade, mas, ainda assim,  se sentem ameaçados.

Angry birds
Nessa balbúrdia que é o estrangulamento social das megalópoles, onde foram parar os nossos ninhos de proteção? Como não pensar na crueldade dessa cidade que já não os mantêm? E como é mais e mais difícil construir novos. Somos pássaros furiosos na difícil procura de naturais gravetos. Nós, como na obra de Hema, lidamos com as probabilidades e nos protegemos com o que nos enreda, ainda que de forma artificial.

ONLY MEMORY HAS PRESERVATIVES, LEAVES ON ACRYLIC#
Como Hema, nos iludimos com florestas feitas de folhas de acrílico. Ela está nos dizendo que somente as memórias se conservam. Mas, a que preço? Nos esquecemos que os “conservantes” de hoje nos sobrecarregam de efeitos colaterais? E há que se lembrar: memórias são boas e ruins.

Universe Revolvs
Mas, não nos preocupemos, grita Hema. O universo gira!  E o opressor pode virar oprimido. A mãe natureza se encarrega.

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Fotos: 
divulgação Angry birds/Vadehra Art Gallery, Universe Revolvs/Artsy.net, Only memories/Chemould Prescott Road Gallery e Hema Upadhyay/Art Fundamental/Wikimedia Commons

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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