Havan de Matinhos: uma questão de valores

Havan

Quem percorreu o litoral do Paraná nos últimos anos, deve ter percebido a expansão urbana de algumas cidades como Guaratuba, Matinhos, Paranaguá, Pontal do Paraná e até Morretes. Especificamente no que se refere às áreas de maior concentração populacional, um contínuo movimento de supressão de vegetação nativa foi imposto, com ou sem amparo legal. Invasões, acertos políticos e licenciamentos duvidosos fazem parte de um jogo paciente com o qual áreas naturais do entorno dessas cidades vão dando espaço, sem exceções, para a urbanização descontrolada.

O caso de Matinhos é um exemplo típico. Seguidas gestões públicas, desde os anos 1980, protagonizaram uma desvairada construção de prédios na orla marítima, transformando drasticamente a faixa de praia entre Caiobá e Matinhos.  Ao mesmo tempo, as áreas menos valorizadas foram sendo exploradas para atração de moradores, numa expansão que praticamente estabelece como limite a morraria existente, já a grande distância da linha do mar.

São frequentes desmatamentos de Floresta de Restinga exuberante que dão espaço a uma grande concentração urbana. Tal contingente talvez propicie uma condição menos dependente de temporadas, mas é duvidoso que ofereça oportunidades de trabalho para tanta gente. Mais impostos são cobrados na forma de IPTU, o que pode, pelo menos em parte, explicar a política de avanços de crescimento observada. Mas é indubitável que o preço do crescimento sem planejamento tem consequências.

O tratamento de esgoto não acompanhou a sanha de aumento populacional e de estruturas prediais implantadas. Muito menos as condições de segurança e para o atendimento de serviços públicos em geral. Quanto mais gente, mais demandas sociais existirão. O que gera dúvidas em relação à estratégia de crescimento a qualquer custo em Matinhos, e nas demais cidades costeiras do Paraná. Loteamentos e mais loteamentos buscando atrair mais e mais pessoas não representam uma forma de melhorar as cidades. No entanto, mantêm o negócio imobiliário de pé, movimentado através de uma especulação contínua, de uso de áreas naturais.

Infelizmente, mesmo nos dias de hoje, a compreensão do poder público local sobre os limites que devem existir para decisões que envolvem a ampliação de empreendimentos numa cidade turística não é adequada. Uma polêmica sobre o sacrifício de um último remanescente urbano de vegetação nativa, tornado parque pela própria gestão municipal, demonstra que os valores de algumas décadas atrás continuam os mesmos.

Se uma Loja da Havan para Matinhos precisa ser locada, justamente, num parque municipal – que poderia estar sendo desfrutado pela comunidade local como uma área de lazer e que minimizando a paisagem pouco atrativa do mar de casas em que essa área se transformou – realmente não há qualquer  expectativa de que um dia tenhamos uma condição diferenciada para o turismo regional. Deixando de perder espaço e recursos para outros pontos do país com gestões mais inteligentes na busca de atratividade de turistas, bem estar à comunidade e desenvolvimento harmônico com o meio ambiente.

Recentemente, o dono da Havan foi até Balneário Camboriú e, das areias da praia Central, fez um vídeo elogiando a quantidade de prédios à beira mar, dizendo que eles eram um “exemplo de como o mercado imobiliário pode crescer e gerar milhares e milhares de emprego”. Pelo visto, ele espera que, oportunamente, Matinhos e Caiobá virem  outras “Camboriús”, com todos os problemas estruturais que a cidade traz consigo?

Se um dia conseguirem fazer o que pretendem, embora a judicialização do caso esteja fortemente amparada, um detalhe deve ser levado em consideração. Que deixem que a estátua, que já representa uma visão míope do que é bonito, ostente uma grande motosserra. E, assim, mostrar a todos com precisão que tipo de valores alimentam os atores que são parte dessa iniciativa.

Foto: reprodução Facebook Havan 

É diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), fellow da Ashoka, afiliado à Fundação Avina, membro do Conselho Consultivo do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) e vice-presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Life. Também é conselheiro do Observatório de Justiça e Conservação (OJC)

Clóvis Borges

É diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), fellow da Ashoka, afiliado à Fundação Avina, membro do Conselho Consultivo do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) e vice-presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Life. Também é conselheiro do Observatório de Justiça e Conservação (OJC)

6 comentários em “Havan de Matinhos: uma questão de valores

  • 25 de julho de 2018 em 7:11 AM
    Permalink

    Palavras lindas de uma pessoa que já está estabilizada financeiramente pelo governo. Achando todo e qualquer tipo de desenvolvimento desnecessário.
    Pena não conhecer nada da região que falou, se realmente conhecesse saberia que matinhos é Caiobá são as mesmas coisas e não duas cidades diferentes, se fosse frequentador como se intitulou saberia que as cidades citadas nos últimos 20 anos , não se desenvolveram nada. Continuam igual, pararam no tempo. O tal turismo que ele prega, o tal do ISO não deixa o turista nem posar na grama, o morador de regiões mais distantes tem que pegar liberação no Instituto pra cortar grama. Então não fale o que leu em algum lugar mal informado.

    Resposta
  • 25 de julho de 2018 em 8:47 AM
    Permalink

    Clovis, me desculpe. A tua ideia esta corretissima, mas esta enganado referente a esta area.
    Nos moradores de Matonhos sabemos que aquela area é abandonada, no meio da cidade, um verdadeiro mocó de viciados, de lixo.. ate cadaver ja foi emcontrado la.
    O poder público nao cuida, vamos deixar o privado cuidar, pois sera mantido uma parte como verdadeiro parque municipal.

    Resposta
  • 25 de julho de 2018 em 1:28 PM
    Permalink

    Só tem um detalhe… Este local não é formalmente um parque por descuido da gestão 2006 que deixou de indenizar o proprietario da area . Assim a familia proprietária recebeu cobranca de IPTU por todos estes anos comprovada por ajuizamento s no forum local. Portanto ainda é uma area particular e não pública como equivocadamente se anuncia!

    Resposta
  • 25 de julho de 2018 em 2:17 PM
    Permalink

    Primeiro não é um parque ambiental, pois só existe no papel e não foi implantado pelo Poder público.
    Segundo, o local é uma zona degradada onde proliferam usuários de drogas, contribuindo com a criminalidade.
    Terceiro, sim temos que pensar em valores, se permitimos a instalação de um empreendimento que vai gerar inúmeros empregos ou daremos voz aos ambientalistas fanáticos radicais que tentam distorcer a realidade, inclusive nem residem no município desconhecendo a realidade local, deixando um matagal inutilizado para uso dos marginais e acúmulo de lixo, condenando o desenvolvimento do litoral e a população ao subemprego e bicos temporários!
    Aliás se fosse em Santa Catarina, terra do dono da Havan tudo seria mais fácil. No Paraná estamos condenados a ditadura do IAP, velhos remanescentes do governo Requião, que trancados em seus gabinetes refrigerados, decidiram apoiar a pseudo causa esquerdista ambiental radical, que é contra os empresariado e o desenvolvimento do país!

    Resposta
  • 28 de julho de 2018 em 9:40 AM
    Permalink

    Parque que parque ? Depósito de lixo, isso sim ,sou moradora na rua Icaraíma à 18 anos e
    Ali sempre foi um lixão , esse lugar as pessoas vêm de longe até de madrugada pra jogar todo tipo de entulhos ,entre animais mortos e restos de peixes e frutos do mar na frente da minha casa , somos obrigados a respirar o podre ., Sem contar que o (parque ) só serve pra esconder ladrões e usuários de drogas espiando nossas casas pra assaltar ,minha casa foi assaltada exatamente 28 vezes a uma delas com toda minha família dormindo ,hoje em dia pago monitoramento pra ter( paz ) porque segurança tbem não tem em Matinhos ,Sem contar que quando chove a rua vira um grande rio ,e ficamos ali abandonados sem sair de casa . só se for de barco ..já levei corridão ate de uma vaca que escapou amarrada por um morador no mato AFFi não tenho paz ..Rua sem asfalto toda cheia de buracos ..Não posso me conformar com o descaso . Porque nan podemos ter uma loja linda como a Havan em nossa cidade ,precisamos é merecemos ,não vivemos apenas do turismo ,precisamos de trabalho ,lazer para nossas criancas ,um cinema uma lanchonete bonita pra levar nossos filhos e netos .uma loja de primeiro mundo bonita e elegante como a Havan na nossa cidade .,que está infestada de mendigos e catadores de papel . .Eu não entendo o porquê o progresso. Não vêm pra Matinhos . Preferem o Parque do Liixão. Não se esqueça morador de Matinhos esse ano tem .Voto.. E Viva o parque do lixão de Caiobá .😤

    Resposta
  • 30 de julho de 2018 em 6:32 PM
    Permalink

    O enfoque dos comentarios ate aqui aportados exploram basicamente dois pontos: a geracao de empregos e de distracao a partir de uma nova loja na cidade; e a relacao direta entre uma area natural remanescente e lixo, violencia e marginalidade. Cabe esclarecer que a loja pretendida nao recebe nenhuma negativa mais direta, desde que em local apropriado. E que um espaco natural dentro de uma area urbana representa um bem comum, para ser cuidada e amparada pelo poder publico e pela sociedade. Nao e um deposito de cadaveres como foi pontuado, mas sim uma area que deve valorizar os terrenos circundantes ao mesmo tempo em que atenua a paisagem ja amplamente urbanizada do Municipio de Matinhos. Sao pontos de vista distintos, obviamente.

    Resposta

Deixe uma resposta