Guerrilheira puro malte

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Uma guerrilheira curda empunhando uma arma, ladeada por uma estrela vermelha, me olha com desconfiança e determinação quando pego a garrafa daquela Belgian Pale Ale. A cerveja artesanal fabricada por um coletivo autogestionário num sitio em Mairiporã já traz no rótulo uma mensagem que a diferencia de cara no mundo cervejeiro: a mulher como sujeito histórico, não objetificada como meramente um corpo associado à imagem da cerveja.

guerrilheirarotulo“É uma guerrilheira curda, dos anos 1970. O nome dela não sabemos, mas sintetiza uma mulher guerrilheira, que não é mártir. As curdas estão na linha de frente contra o estado islâmico. Essa imagem simboliza a descaracterização da mulher como um corpo dentro do processo de fabricação’, diz Baltazar Sena, integrante do coletivo que produz a cerveja Guerrilheira.

Num mundo em que mulheres de biquíni são usadas como peças publicitárias para a venda de cerveja, com certeza o rótulo foi a primeira coisa que chamou minha atenção na Guerrilheira. Mas não para por aqui.

Seis pessoas estão envolvidas na fabricação da cerveja, e sua história começa na cidade de São Paulo. Criada há quase dois anos, ela era fabricada originalmente no bairro de Santa Cecília. E era fácil topar com a Guerrilheira no Minhocão (Elevado Presidente João Goulart) aos finais de semana. Com a crise hídrica, o grupo transferiu o processo para o interior em julho de 2015.

Fabricar cerveja exige água em abundância e de boa qualidade. Dos cerca de 200 litros fabricados inicialmente pelo coletivo em São Paulo, a produção aumentou para 800 litros a mil litros por mês em Mairiporã. O grupo trabalha tanto em atividades ligadas à cerveja como no plantio no campo.

“O Brasil produz apenas 20% da cevada que usa. O restante é importado. Estamos fazendo parcerias com movimentos sociais ligados ao campo para testes de plantio de cevada em assentamentos mais ao sul do estado. Um dos nossos objetivos é conseguir produzir isso também. Algumas pessoas que trabalham com a Guerrilheira são assentados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. Já temos algumas parcerias nesse sentido, e no próprio processo de produção da cerveja”, define Baltazar.

A ideia, segundo ele, é que as pessoas integrem o coletivo, aprendam o processo, voltem para seus lugares de origem e apliquem o que aprenderam. “A cerveja é um alimento, como qualquer outro. A fabricação é um processo simples, de cozinha, que demanda tempo e trabalho, mas que pode ser feito em qualquer lugar. Queremos abrir o conhecimento, passar as receitas, pra que mais pessoas produzam cerveja”.

A Guerrilheira é também um processo de reconstrução do fazer cerveja artesanal, de valorização e resgate da diversidade. Como aponta Baltazar, há um processo pedagógico envolvido, que inclui troca de conhecimento e receitas.

Baltazar aprendeu a fazer cerveja em Minas, mais especificamente numa cidade com grande tradição em variedades artesanais iniciada com a colonização alemã: Juiz de Fora. Ainda hoje há intensa produção cervejeira por lá.

Sustentabilidade e venda direta ao público

girafaO coletivo construiu boa parte do maquinário usado para a fabricação da cerveja com material reutilizado de ferro velho. “Não podemos fazer as panelas, mas boca de fogão e muitos outros materiais são reciclados, reutilizados. Cada pessoa tem facilidade em determinado tipo de processo, seja mexendo no maquinário ou montando uma receita. A coletividade proporciona troca, várias potencialidades são desenvolvidas”, diz Baltazar.

A Guerrilheira, enquanto projeto, pensa a produção como um todo. O resíduo, o malte, é usado como fertilizante e muitas vezes trocada com vizinhos por produtos para consumo, como carne e leite. O que sobra pode continuar dentro do ciclo produtivo, ajudando a exercitar a solidariedade com os vizinhos. “Exercitamos a troca, não a monetarização dessa relação. Isso é essencial para a sobrevivência e para a relação com eles”.

A lógica da ‘mudança de tempos’ é destacada por Baltazar na transição da cidade grande para o campo: “Em São Paulo, lidamos muito com a questão das horas divididas a partir do tempo do relógio. Aqui os tempos são outros. Há o tempo dos vizinhos, o tempo da produção, o tempo das ações do dia a dia. São vários processos ao longo do dia que devem ser efetivados pra que as coisas funcionem. Nada é tão automatizado e direto como numa cidade como São Paulo. Você tem um horário social estabelecido que é diferente”.

A intenção do coletivo sempre foi fazer a cerveja de modo a tornar a atividade um meio de sobrevivência, de trabalho e de geração de renda. Hoje isso é uma realidade. A produção mensal cobre os custos do processo de fabricação. Das seis pessoas envolvidas no processo, quatro sobrevivem exclusivamente da Guerrilheira e duas têm outros trabalhos paralelos.

A venda direta ao consumidor é também uma característica. Ela é feita sobretudo pela internet, mas a produção também é entregue em pontos específicos em São Paulo, em especial em espaços culturais, e em feiras. O Mapa do Consumo Solidário, sobre o qual já escrevi aqui no Conexão Planeta, está também promovendo sua primeira campanha de consumo solidário em parceria com a Guerrilheira na cidade de São Paulo. E a venda em outros estados também já começou, por meio de grupos de consumo.

Sem intermediário, a cerveja pode ser vendida a um preço mais acessível. Uma cerveja saborosa, sem milho nem material transgênico, que é mesmo a proposta da cerveja artesanal. “Temos isso como proposta. Uma cerveja de qualidade não precisa ser tão mais cara que as outras”, finaliza.

Além da Belgian Pale Ale – de fabricação constante – há outras cinco receitas que são ocasionais, entre elas uma preciosidade de Scottish Whisky.

Tá esperando o quê pra experimentar?

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Fotos: Divulgação Guerrilheira/Victor C.Carvalho (Foto Materialismo)

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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