‘Guardião da Floresta’, líder indígena Guajajara é assassinado por madeireiros em emboscada, no Maranhão

Ontem, 1/11, morreu mais um indígena brasileiro, vítima da ganância e da política anti-indigenista de Bolsonaro, que avilta a Constituição Federal. Devido às suas declarações contra os povos indígenas – a respeito de demarcação, proteção de suas terras etc -, inclusive na ONU, invasores se sentem legitimados a agir em qualquer território.

Desta vez, o crime aconteceu durante emboscada de madeireiros na Terra Indígena Araribóia, do povo Guajajara, região de Bom Jesus das Selvas, no Maranhão, entre as aldeias Lagoa Comprida e Jenipapo, que resultado em violento conflito. Kwahu Tenetehar ou Paulo Paulino Guajajara, como é mais conhecido, morreu com um tiro no pescoço e Laércio Guajajara ficou ferido gravemente durante o atentado. Um madeireiro desapareceu.

Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), os Guajajara são um dos povos indígenas mais numerosos do Brasil. Vivem em mais de dez terras indígenas na margem oriental da Amazônia, todas localizadas no Maranhão.

Há décadas, as terras indígenas da região – 413 mil hectares – sofrem invasões de grileiros e madeireiros. Elas abrigam 14 mil indígenas Guajajara, além de 60 índios isolados da aldeia Awá Guajá. No ano passado, o cacique Jorginho Guajajara foi morto. A polícia disse que ele se afogou, o que seu povo nega, claro! Inacreditável um indígena morrer assim, não? Mas parece que essa é a visão dos investigadores: o laudo da morte do cacique dos Wajãpi – etnia atacada por garimpeiros este ano – indicou o mesmo resultado, mas seu corpo foi encontrado no rio, com marcas de grande violência.

Assim, pequenos grupos chamados de Agentes Indígenas Ambientais (são 180 integrantes) ou Guardiões da Floresta se organizam em perigosas ações noturnas para defender a integridade de seus territórios, arriscando suas vidas. Paulino e Laércio eram guardiões. Há quatro anos, metade da floresta da TI Araribóia pegou fogo e os incêndios foram considerados suspeitos pelos Guajajara.

Em novembro de 2018, o Instituto SocioAmbiental denunciou, em reportagem, a vulnerabilidade do povo Guajajara revelando que, José Gomes Guajajara, um desses agentes, estava ameaçado de morte e não podia sair da aldeia. Estava marcado para morrer pelos madeireiros que atuam na área, “uma retaliação pelo trabalho de proteção territorial”.

Com o governo Bolsonaro, com sua completa omissão e desrespeito à Constituição Federal, além do enfraquecimento de seus órgãos fiscalizadores, a situação se agravou muito na região. Os guardiões circulam pela TI em busca de invasores para tentar manter de pé a única floresta que restou dessa zona do Maranhão e a reação dos madeireiros tem sido cada vez mais violenta.

Segundo o jornal Folha de São Paulo, a Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e Participação Popular do governo do Maranhão confirmou a morte do indígena e deslocou equipes da Secretaria de Segurança Pública para apurar o caso e proteger os ameaçados.

Segundo nota assinada por Sérgio Moro e divulgada pelo Ministério da Justiça, a Polícia Federal vai apurar o assassinato de Paulino: “Não pouparemos esforços para levar os responsáveis por este crime grave à Justiça”. Uma equipe da PF está no local.

Liderança indígena e organizações repudiam violência e exigem providências

Logo que soube do crime, a líder Sônia Guajajara, coordenadora da Apib (Articulação de Povos Indígenas do Brasil) e ex-candidata a vice-presidência da República pelo Psol, comunicou a morte de Paulino ainda na noite de ontem, pedindo um basta ao “genocídio institucionalizado“. Ela escreveu nas redes sociais: “Parem de autorizar o derramamento de sangue de nosso povo”.

Sonia está em Jornada Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais com outros seis indígenas pela Europa em busca de apoio de ativistas, governos e empresas à sua causa. A notícia triste certamente fortalecerá ainda mais suas reivindicações junto à comunidade europeia para que não comprem nem invistam em negócios e produtos oriundos do desmatamento e do genocídio indígena.

A mobilização nas redes sociais desde que a noticia da morte de Paulino se espalhou, nesta madrugada tem sido grande. Inúmeras organizações divulgaram notas de repúdio como Apib – Articulação de Povos Indígenas Brasileiros, o Greenpeace (junto com Hivos, parceiro do projeto Todos os Olhos na Amazônia), Instituto SocioAmbiental (SA), CIMI – Conselho Missionário Indigenista e MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens, entre outras.

Petição online contra genocídio indígena

A ONG Survival International que trabalha com indígenas do mundo todo e do Brasil, e apoia o trabalho dos Guardiões da Floresta, divulgou PETIÇÃO ONLINE CONTRA O GENOCÍDIO INDÍGENA. Eles precisam recolher 30 mil assinaturas. Até há pouco, quando a assinei, a campanha totalizava 28.156.

Sarah Shenker, membro da ONG que acompanhou o trabalho dos Guardiões no início deste ano e conheceu Paulino, escreveu: “Kwahu era totalmente dedicado a defender sua floresta e seus parentes isolados, apesar dos riscos. Era também uma das pessoas mais humildes que já conheci. Ele sabia que poderia pagar com sua vida, mas não via alternativa, pois as autoridades não faziam nada para proteger a floresta e defender o Estado de Direito”. Sarah é autora do retrato de Paulino, acima.

Ela citou, ainda, uma declaração de Paulino ao grupo de pesquisadores da Survival: “Essas pessoas acham que podem vir aqui, em nossa casa, e se aproveitar de nossa floresta? Não. Nós não permitiremos isso. A gente não entra na casa deles e rouba, não é?”.

É, Paulino. Você tinha toda razão de se indignar. E nós estamos indignados com sua morte. Esperamos que ela não seja em vão e que sua história de coragem e amor pela terra e por seu povo inspire não só os indígenas, mas todos os brasileiros. E também aos estrangeiros que contribuem para que essa violência se perpetue em seus territórios sagrados.

Governo recebeu vídeo com pedido de ajuda do coordenador dos Guardiões da Floresta

No vídeo abaixo, enviado à Funai em junho deste ano, na companhia de Paulino (de pé, à esquerda) e Tainaky Tenetehar (à direita), o coordenador dos Guardiões da Floresta, Olímpio Guajajara, relata a situação de risco constante que enfrentam.

Fotos: Mídia Ninja (destaque) e Sarah Shenker (Survival International)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Um comentário em “‘Guardião da Floresta’, líder indígena Guajajara é assassinado por madeireiros em emboscada, no Maranhão

  • 3 de novembro de 2019 em 7:58 AM
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    Infelizmente é lamentável ver o povo indígena ser morto. O problema do desmatamento e do garimpo ilegal tem que ser enfrentado pelo Estado o mais breve possível.

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