Friday for Future: jovens se unem para protestar contra falta de ação dos adultos. No Brasil, também

Atualizado em 14/3/2019

Cerca de 40 países de todos os continentes aderiram ao chamado para a realização de uma Greve Climática Global, que, ao que tudo indica, será liderada por jovens cansados da inação de governantes, políticos e empresários. E para a ajudar a acordar os cidadãos.

Será um protesto mundial pelo futuro, antecedido pelas Marchas Mundiais do Clima – realizadas há cerca de 20 anos – e que, em boa parte do mundo, pode ser dominado por estudantes secundaristas.

A inspiração vem das greves e protestos de jovens que aconteceram antes de terminar 2018, em dezembro. As ruas de mais de 300 cidades de países como Suécia, Alemanha, Bélgica, Holanda, Austrália, Áustria, Finlândia, Dinamarca, Japão, Suíça, Reino Unido e Estados Unidos foram tomadas por eles.

Mas este movimento grandioso só aconteceu graças à inquietude, à coragem e à determinação da jovem sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que, em agosto de 2018, lançou um movimento por greves escolares semanais – às sextas feiras, daí o nome Fridays for Future – contra as mudanças climáticas.

E, em dezembro, falou durante a COP24 – Conferência sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas, realizada em Katowice, na Polônia. E, assim, provocou amorosamente tantos jovens a bradar contra o desenvolvimento a qualquer custo e a falta de visão dos adultos que gerem governos e empresas.

2019 começou com mais greves. Desta vez, além dos países já citados, Colômbia, Nova Zelândia e Uganda aderiram. Só na Alemanha e na Suíça, os protestos reuniram mais de 450 mil estudantes. E Greta foi ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, falar aos líderes da economia no mundo.

E você pensa que este tipo de movimento não adianta nada? Na Bélgica, a revolta dos estudantes derrubou a ministra do meio ambiente, Joke Schauvliege. Ela renunciou.

E claro que sempre vai existir quem queira impedir esse tipo de manifestação por não reconhecer nela um valor ou por receio de que o movimento cresça, como a ministra da educação da Alemanha, que ameaçou os estudantes que aderirem à greve com expulsão da escola.

Mas o importante é não se deixar intimidar. O planeta não pode aquecer mais!! A temperatura não pode subir além de 1.5ºC, o máximo aceitável para evitar mudanças climáticas catastróficas e proteger o planeta e os seres que o habitam. Temos apenas 12 anos para reverter o curso da destruição que temos imprimido com nossos hábitos.

E no Brasil?

Mergulhado nas eleições e depois na vitória de um candidato que insiste em negar as mudanças climáticas – escolheu para o ministério das Relações Exteriores um negacionista que acredita que a terra é plana e o aquecimento global é “coisa” de marxista e alienígena -, o país tem vivido um período bastante conturbado. Não só no que tange à economia, mas também aos direitos humanos, ao meio ambiente e à cultura.

Todos os avanços nessas áreas estão ainda mais acachapados – iniciaram com o governo Temer, lembremos – e tem causado impasses e confrontos de diversos níveis. Bolsonaro chegou a declarar que abandonaria o Acordo de Paris, depois voltou atrás. Fez uma aparição desastrosa em Davos. Com suas estratégias e ações, segue atuando contra qualquer medida que possa colaborar para a mitigação ou a adaptação que serão necessárias com o agravamento das mudanças climáticas.

Mas e os jovens? Não há grandes movimentos pelo clima por aqui, mas algumas adesões à Greve Global pelo Futuro estão registradas no mapa do site do Fridays for Future. Escolas do litoral paulista – em Peruíbe e Santos – confirmaram presença e fazem parte do mapa: uma é particular, outra estadual e ainda tem uma escola indígena.

Também participarão escolas de Mogi das Cruzes (SP), do Rio de Janeiro, de Florianópolis (SC), Imbé e Santa Maria (RS), Juazeiro do Norte (CE), Belo Horizonte (MG), Goiânia (GO) e Recife (PE).

Em termos gerais, Com exceção do Engajamundo, e do Muda de Ideia, do ativista Diego Gazola. O Engajamundo já participou de conferências do clima e tem realizado trabalhos de conscientização pelo país, não há registro de ações notáveis. Nesta greve, o grupo ainda não se pronunciou nas redes sociais.

Diego tem divulgado o movimento Fridays for Future e a realização da greve na próxima sexta em São Paulo, que acontecerá no vão do Museu de Arte de São Paulo, na icônica Avenida Paulista, onde geralmente as mobilizações acontecem ou se iniciam.

Inconformado com o silêncio dos jovens brasileiros, o cientista Antonio Nobre – conhecido por seus estudos sobre a Amazônia, e os efeitos do desmatamento e das mudanças climáticas – tem feito campanhas em suas redes sociais – Facebook e Instagram.  Ele pergunta: “Será que os jovens daqui não estão preocupados com seu futuro? Ou desconhecem os desastres que estão vindo em nossa direção?”. Em alguns posts, apela para o futuro sombrio que se desenha para suas vidas, apresentando paisagens terríveis com grande devastação. Ou inspira, lembrando a iniciativa da ativista Greta.

O que Antonio Nobre não sabia é que alguns jovens já estavam se mobilizando para colocar o Brasil de forma mais contundente. Adotando o nome original e colocando o país na frente, como todos estão fazendo pelo mundo, criaram um perfil no Fridays For Future Brasil e a hashtag #FridaysForFutureBrasil para reunir os registros de todas as manifestações. A jovem Luiza Geiling, do programa Criativos na Escola, conta como foi essa movimentação e o que espera dela.

Mas, se ainda lhe falta inspiração para aderir à Greve Mundial pelo Clima, leia o discurso de Greta na Conferência do Clima (que reproduzo abaixo) e ouça a garota em seu primeiro TED Talk.

Por 25 anos, um número enorme de pessoas esteve aqui, diante da Conferência das Nações Unidas para o Clima, pedindo aos líderes de nossas nações que reduzissem as emissões. Mas claramente, isso não funcionou, já que as emissões continuam a crescer.

Então, eu não irei pedir a eles nada. Em vez disso, vou pedir à mídia que trate a crise como uma crise. Em vez disso, irei pedir as pessoas ao redor do mundo que percebam que nossos líderes políticos falharam. Porque enfrentamos uma ameaça existencial e não há tempo para continuar nesta estrada de loucura.

Países ricos, como a Suécia, precisam começar a reduzir as emissões em pelo menos 15% por ano para tentarmos atingir a meta de 2oC (estabelecida pelo Acordo de Paris). 

Você deve pensar que a mídia e todos os nossos líderes deveriam estar falando sobre nada além disso – todavia, ninguém menciona o problema. Nem menciona que estamos no meio da sexta extinção em massa da Terra, com 200 espécies desaparecendo a cada dia.

E mais. Ninguém menciona a necessidade primordial de igualdade, em escala global, estabelecida no acordo do clima. Isso significa que países ricos, como o meu, têm que zerar suas emissões, para que pessoas em lugares mais pobres possam melhorar sua qualidade de vida e construir aquilo que nós já temos – hospitais, acesso à eletricidade e água potável.

Como podemos esperar que países como Índia, Colômbia ou Nigéria se preocupem com mudanças climáticas se nós, que já temos tudo, não nos importamos com os compromissos que fizemos no Acordo de Paris?

Então, quando minhas aulas começaram em agosto deste ano, eu decidi me sentar em frente ao Parlamento da Suécia. E fiz greve pelo clima. Algumas pessoas disseram que eu deveria estar na escola. Outros que eu deveria estudar e me tornar uma cientista do clima e desta maneira solucionar a “crise climática”.

Mas a crise climática já possui solução. Já temos todas as informações e dados. E por que eu deveria estudar para um futuro que, em breve, pode não existir, já que não há ninguém fazendo nada para salvar o futuro? E qual o sentindo em aprender novos fatos quando os mais importantes claramente não significam nada para nossa sociedade?

Atualmente utilizamos 100 milhões de barris de petróleo todos os dias. Não há política que mude isso. Não há regras para manter isso embaixo do solo. Então não podemos salvar o mundo seguindo essas regras. Porque elas precisam ser mudadas.

Não viemos aqui para implorar aos líderes mundiais que se preocupem com nosso futuro. Eles nos ignoraram no passado e irão nos ignorar novamente. Viemos até aqui para informá-los que a mudança está a caminho queiram eles ou não. As pessoas se unirão a este desafio. E já que nossos líderes se comportam como crianças, teremos que assumir a responsabilidade que eles deveriam ter assumido há muito tempo”.  

Foto: Divulgação/Fridays for Future

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Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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